Blog do Juca Kfouri

Tabelinha com Juca

Segundas-feiras, às 15h

31/12/2005

Aquilo, sim, foi de fazer sofrer… E depois desabafar

Corintiano que está desesperado com a série de treze partidas sem vitória do alvinegro e acha que está no fundo do poço, definitivamente não sabe o que é sofrer.

Sofrer mesmo foi ter ficado 22 anos sem ganhar um título de campeão.

Até que, na noite de 13 de outubro de 1977, uma Quinta-Feira Santa, tudo mudou.

E, de norte a sul, de leste a oeste, teve corintiano saindo às ruas do país inteiro para comemorar a libertação que veio dos pés de Basílio.

No domingo anterior, o Morumbi recebera o maior público de sua história, quase 140 mil pagantes, mas a Ponte Preta vencera o jogo por 2 a 1 e empatara a série que começara com uma vitória corintiana – 1 a 0, gol com a cara e a coragem de Palhinha, que não estaria na terceira partida, machucado.

Para ser bem sincero, não posso dizer que “Eu vi”, porque depois do gol libertador, aos 36 minutos do segundo tempo, tudo ficou embaçado de tal maneira que melhor será dizer: “Meninos, eu senti…” E como senti! A tal ponto que, quando dei por mim, estava dentro do gramado com uma bandeira na mão e uma faixa no peito, compradas não sei de quem ou dadas não sei por quem.

Sei que já era jornalista havia sete anos e, imagine, chefe de reportagem da revista Placar.

Em seguida, fui embora do Morumbi, porque tinha um compromisso: seguir o trio elétrico que viera da Bahia especialmente para comandar a festa corintiana.

Entrei no carro, liguei o rádio, ouvi a voz de Osmar Santos fazer uma exaltação ao que era ser corintiano e brasileiro.

Imediatamente, mudei de estação, porque a garganta apertou outra vez e percebi que, se continuasse a ouvir o maior revolucionário do rádio esportivo brasileiro em todos os tempos, não chegaria a lugar algum, ficaria prostrado, em prantos no meio do mais alegre congestionamento da história paulistana.

Eis que, na estação ao lado, ouço a voz do inesquecível comentarista Mauro Pinheiro, o Senador, sempre de terno e gravata, sempre de charuto nas mãos: “Queria mandar um abraço a um jovem companheiro, que deve estar perdido em algum canto do Morumbi festejando a conquista do seu Corinthians, o chefe de reportagem da Placar, Juca Kfouri…” Foi só e foi tudo que ouvi (e sem a pretensão, aqui, de ter reproduzido fielmente o que ele disse, senão apenas o sentido de suas palavras).

Subi numa calçada de meio-fio avantajado, desliguei o motor e deixei que onze anos de frustração se esvaíssem convulsivamente.

Depois daquela noite, até houve momentos de sofrimento. Mas, sinceramente, treze jogos sem vitória são como uma gota no oceano.

(Extraído do livro "Meninos, eu vi", de Juca Kfouri, editoras DBA/Lance!)

Por Juca Kfouri às 12h03

Ficção ou realidade, um jogo vivo na memória

Cabeça de criança cria lendas, e é possível que o que você vá ler aqui seja fruto de pura imaginação.

Estávamos em 1960, e, como era habitual, eu passava as férias de julho no Rio, na casa de um tio.

Brasil e Argentina iam jogar no Maracanã, pela Taça do Atlântico, que tinha também o Uruguai.

Meus dois irmãos e eu tanto fizemos que conseguimos convencer meu tio e meu pai a nos levar ao jogão.

Mas havia um problema, não sei se real ou inventado só para me encher: eu era o caçula, tinha dez anos, e me diziam que só com mais de doze era permitido entrar no estádio à noite.

Sofri as penas do inferno até chegar ao Maracanã e, como se quisesse me esconder, passei tão espremido pela catraca que, me gozaram depois, minha entrada nem sequer foi registrada.

O que vi dali por diante foi dos espetáculos mais inesquecíveis da minha vida.

A Argentina fez 1 a 0 e tinha um ponta-direita, chamado Nardiello, que era uma fábula, dos melhores que já vi.

Rapidíssimo, driblava na corrida e deixava o maravilhoso Nílton Santos em maus lençóis.

Nardiello jamais saiu da minha cabeça, mas, quando fui pesquisar a história desse jogo para contá-la aqui, eis que descubro que ele não jogou naquela noite.

Mas como?! Um registro frio num pedaço de papel não pode prevalecer sobre a memória de uma criança, e nem eu poderia ter inventado aquele nome.

Pois sabia que Nardiello existira e jogara, sim, senhor, naquela noite.

Jogara espantosamente bem até que Pelé e Coutinho resolveram roubar a cena.

Aí, de fato, nem Nardiello nem ninguém mais tinha a menor importância.

Só os dois negros do Santos, números nove e dez às costas, com suas tabelinhas infernais.

O primeiro tempo acabou 4 a 1 para o Brasil, e, no segundo, nem um nem outro voltou a campo.

Vicente Feola, o técnico brasileiro, resolveu tirá-los porque estavam levando tanta pancada que não convinha mesmo continuar a expô-los com a vitória assegurada.

Nas cadeiras do Maracanã, um senhor corpulento, vozeirão de feirante, gritava a cada cinco minutos, na direção do banco de reservas, o nome do técnico argentino: "Stabile! Stabile!"

O treinador, é claro, não ouvia. Mas, passava um tempinho, lá vinham os berros: "Stabile! Stabile!"

Quando o Brasil marcou o quinto e último gol, o torcedor não agüentou mais, levantou, gritou outras duas vezes o nome de Stabile e, finalmente, antes de ter ido embora, arrematou, para gargalhada geral: "Bota o Pelé no seu time!"

(Extraído do livro "Meninos, eu vi", de Juca Kfouri, editoras DBA/Lance!)

Por Juca Kfouri às 12h03

30/12/2005

Debaixo de chuva, o jogo que mais me emocionou

O jogo mais emocionante de minha vida não foi do Corinthians nem da seleção brasileira.

Foi do Santos, o segundo contra o Milan, no Maracanã, na decisão do Mundial de Clubes de 1963.

E me valeu dois anos de saúde. Conto.

O Santos, com Pelé, havia perdido o primeiro jogo, em Milão, por 4 a 2.

A revanche, que poderia forçar um terceiro e decisivo jogo, aconteceu quase um mês depois, em novembro, no meio da semana.

Em vinte minutos, os italianos, com craques como os zagueiros Maldini e Trapattoni e atacantes do porte dos brasileiros Mazzola (campeão mundial pelo Brasil em 58) e Amarildo (bicampeão mundial pelo Brasil em 62), além de Rivera, já venciam por 2 a 0.

O Santos jogava sem dois titulares fundamentais, o zagueiro Calvet e o volante Zito.

E sem Pelé.

Eu tinha treze anos e já começara a cultivar o péssimo hábito de fumar.

No intervalo do jogo, que via pela tv, fui ao banheiro para fumar escondido e, olhando para o espelho, prometi: se o Santos virar, paro de fumar.

Parecia que Deus tinha me ouvido. Se não ele, ao menos São Pedro ouviu.

Porque o segundo tempo começou debaixo de uma das maiores tempestades que me lembro de ter visto na vida.

E, logo aos quatro minutos, de falta, Pepe diminui.

Aos oito, outra falta para o Santos, e me lembro como se fosse hoje do narrador da tv Record, Raul Tabajara, declamando os Lusíadas, de Camões, antes que Dalmo a batesse.

“Cessa tudo que a antiga musa canta que uma voz mais alta se alevanta” – e pimba!

A falta cobrada pelo lateral desvia em Mengálvio e morre no fundo das redes milanesas. Era o gol de empate, 2 a 2.

Tenso, angustiado, eu começava a dar adeus ao cigarro, sem me arrepender da troca.

À época, o Ministério da Saúde não avisava que o cigarro faz mal e que as crianças começam a fumar por verem seus pais fumando.

Os meus fumavam, mas aos dezesseis minutos Lima pega a bola, leva a defesa italiana e estabelece a virada.

O Maracanã, com 130 mil pessoas, vinha abaixo junto com a abençoada chuvarada.

E, cinco minutos depois, outra vez de falta, Pepe estabelece o placar final, o mesmo de Milão, 4 a 2, num jogo para nunca mais esquecer.

Na negra, de pênalti, Dalmo deu o bicampeonato ao Santos.

Como acontecera um ano antes, na Copa do Chile, quando Amarildo substituíra Pelé de maneira irrepreensível e ajudara a seleção a conquistar o bi mundial, Almir, o Pernambuquinho, liderou o Santos naquelas duas partidas.

E eu só comecei a fumar para valer dois anos depois desse jogo, aos quinze.

Talvez porque nunca mais tenha visto na vida um jogo como aquele.

(Extraído do livro "Meninos, eu vi", de Juca Kfouri, editoras DBA/Lance!)

Por Juca Kfouri às 09h22

Isso é que é o futebol brasileiro

A senha foi dada pela CBF da dupla atrapalhada Otávio-Nabi: não haverá campeonato brasileiro em 1987 porque a CBF não tem dinheiro para bancá-lo. Era o bastante.

Os treze clubes mais populares do país se reuniram e resolveram fundar sua associação e organizar seu campeonato no segundo semestre daquele ano. Procuraram parceiros fortes e se deram bem: a Varig cuidaria de passagens e hospedagens; a Coca-Cola, do patrocínio de quase todos os clubes; a Globo, da transmissão. Era uma revolução!

Como todas as revoluções, com suas injustiças: América carioca e Guarani, respectivamente quarto e segundo colocado no ano anterior, ficaram de fora, para dar lugar a Coritiba, Goiás e Santa Cruz. Com dezesseis clubes, criou-se a Copa União, que foi um sucesso. Mas, no dia em que, num luxuoso hotel carioca, o contrato seria assinado com os três patrocinadores, quase foi tudo por água abaixo.

Primeiro, porque Vicente Matheus, o imortal presidente do Corinthians, na última hora se recusou a assinar com a Coca-Cola. “O Corinthians é diferente”, disse. “Se esse negócio é bom pro São Paulo, não pode ser bom pro Corinthians. De mais a mais, o São Paulo não quis emprestar o Bentinho pra nós”, alegou como motivo definitivo. A perplexidade foi geral.

Depois de muito terem negociado, eis que o presidente da Coca no Brasil, o argentino Jorge Giganti, concorda em não ter o Corinthians, apesar de o Flamengo também já ter ficado de fora, por causa da Lubrax. O livro dos contratos volta a passar de mão em mão entre os presidentes de clubes, até que chega às de Paulo Odone, do Grêmio, um dos principais batalhadores e articuladores de todo o processo, bela cabeça, ótima pessoa.

Odone passa os olhos no contrato, enrubesce, levanta-se, pede a palavra e produz um terremoto: “Envergonhado, peço desculpas a todos, é injustificável que eu não tenha visto isto antes, mas não posso assinar este contrato, sob pena de ser prontamente demitido da presidência do Grêmio”.

Ninguém entendeu nada. O clima é quase de terror no imponente salão do grande hotel.

E Odone prossegue: “É que aqui está escrito que a marca da Coca-Cola aparecerá em vermelho nas camisas dos times. Existe uma cláusula pétrea no estatuto do Grêmio que proíbe qualquer tom de vermelho na vida do clube”. Incrédulo, mas compreensivo, o argentino Giganti, numa demonstração de que entendia o país em que vivia, concorda que se abra uma exceção para o Grêmio (logo seguida por Santos, Vasco etc.). E, a partir daquele dia, a marca da Coca virou preta no Brasil.

(Extraído do livro "Meninos, eu vi", de Juca Kfouri, editoras DBA/Lance!)

Por Juca Kfouri às 09h22

29/12/2005

O Rei é do mundo como o mundo é do Rei

No avião da Varig-Cruzeiro, ia toda a delegação brasileira e um monte de jornalistas.

Destino: Santa Cruz de la Sierra, Bolívia.

Objetivo: eliminatórias da Copa do Mundo de 1986.

Seria uma partida difícil, que o Brasil acabaria vencendo por 2 a 0, gols de Casagrande e Noro (contra). Mas o episódio mais impressionante da viagem aconteceu fora de campo.

Era 2 de junho de 1985. Ao chegar ao aeroporto boliviano e passar rapidamente pela alfândega, Telê Santana, Zico e Sócrates monopolizaram as atenções da imprensa sul-americana que esperava a seleção brasileira.

Os jornalistas brasileiros demoraram um pouco mais para se livrar da burocracia. Entre eles, estava um negro, comentarista da Rede Bandeirantes, que não teve nenhum problema com sua bagagem, mas que teve de assinar dezenas de autógrafos na alfândega.

Até que conseguiu sair para protagonizar uma cena impressionante. Telê, Zico, Sócrates, Júnior – todos foram imediatamente abandonados pelos periodistas hermanos, que correram para cima do negro para entrevistá-lo.

É claro, nós estamos falando do Rei Pelé.

Esse que fez sessenta anos sem perder a majestade dos tempos em que jogou como ninguém.

Livre do assédio, a seleção rumou para o hotel.

Pelé ficou um tempão no aeroporto, e quem viu conta que no carro que o levou ainda foram alguns periodistas.

Na chegada ao hotel, outra legião de torcedores e jornalistas esperava a seleção.

Cerca de meia hora depois, com Telê já impaciente com tanto assédio sobre seus jogadores, a pressão acabou: Pelé desceu do carro e entrou no saguão; a manada deslocou-se novamente na direção dele, e a seleção pôde descansar.

Passadas pouco mais de quatro horas, almoçando, de banho tomado, encontro o Rei em pé no hall do hotel, dando entrevista a um último jornalista, modestamente trajado.

Não era uma entrevista ao vivo, Pelé falava para um gravador de uma pequena emissora de rádio do interior boliviano.

E falava como se estivesse sendo ouvido pela inglesa bbc ou pelo brasileiro Lance!.

Isso é Pelé, esse é Pelé, aos vinte, trinta, quarenta, cinqüenta ou sessenta anos.

Capaz de ficar horas a fio atendendo os que o cercam, seja em busca de autógrafos, seja atrás de uma entrevista exclusiva.

Um grande homem, absolutamente vocacionado para o papel de ídolo e cultor dos que o cultuam, quase como se um dependesse dos outros e vice-versa.

Talvez por isso, o planeta inteiro tenha comemorado seus sessenta anos, porque ele é capaz de ser tão atencioso com todo mundo que todo mundo se julga dono dele.

E, no fundo, no fundo, é isso mesmo.

Pelé é do mundo como o mundo é de Pelé.

(Extraído do livro "Meninos, eu vi", de Juca Kfouri, editoras DBA/Lance!)

Por Juca Kfouri às 16h44

O Reizinho do Parque assume o trono das Laranjeiras

Só mesmo na cabeça visionária de Francisco Horta: fazer um jogo no Maracanã em pleno sábado de carnaval!

Por mais que fosse a estréia de Roberto Rivellino pelo Fluminense – e contra seu ex-clube, o Corinthians, cuja torcida o expulsara injustamente como culpado pela perda do título estadual do ano anterior, 1974.

Ingredientes à parte, era um sábado de carnaval, dia 8 de fevereiro, e o jogo não passava de um amistoso.

Mas Horta sabia o que estava fazendo, e nada menos que 50 mil tricolores, entre pagantes e penetras, foram ao maior estádio do mundo para ver o ex-Reizinho do Parque virar o Rei das Laranjeiras.

E viram, e como viram!

Viram uma, duas, três vezes.

Rivellino estava com o diabo no corpo e cumpriu em seu primeiro jogo muito mais do que prometeu.

Além dos lançamentos para o veloz Gil, arma do Flu que se tornaria mortal adiante, Riva fez questão de mostrar quanto valia uma saudade.

Aos 25 minutos do primeiro tempo, ele proporcionou a primeira de muitas alegrias que daria aos tricolores, ao abrir o marcador.

Onze minutos depois, como se para não deixar dúvida de que estava de novo amor, fez 2 a 0.

Os paulistas ainda diminuíram, mas faltava o segundo tempo inteiro para a apoteose. Que veio logo aos onze, com mais um gol dele, endiabrado mesmo.

Com mais um gol, de Gil, o Fluminense começou seu carnaval particular naquele sábado, um carnaval que perduraria pelo ano de 1975 e pelo de 1976, o tricolor bicampeão carioca.

Menos de um mês depois, no dia 6 de março de 1975, Flu e Corinthians voltaram a se enfrentar, numa revanche jogada no Pacaembu.

E 35 mil pessoas foram ao estádio para mostrar que Rivellino era passado. Até faixa dizendo que a Fiel já tinha esquecido o “Ruinzinho do Parque” tinha.

E, nem bem o jogo começou, logo a um minuto, Zé Maria abriu o placar, como uma promessa de que os 4 a 1 do Rio seriam devolvidos com juros e correção monetária.

O bom número de torcedores tricolores no estádio paulistano, no entanto, não parecia preocupado com aquele gol-relâmpago.

E tinha razão.

Dezessete minutos depois, o “Ruinzinho” mostrou que era mesmo Reizinho e empatou a partida. No segundo tempo, o lateral-esquerdo Marco Antônio tratou de garantir a vitória carioca: 2 a 1.

Rivellino ficou quatro anos nas Laranjeiras. Em 158 jogos, marcou 53 gols – um gol a cada três jogos, marca formidável se levado em conta que ele não era propriamente um artilheiro.

E quem viu Riva naqueles dois jogos no Maracanã e no Pacaembu não teve a menor dúvida: o Flu havia feito um negócio extraordinário, e o Corinthians, uma bobagem colossal.

O que teve de alvinegro virando tricolor.

(Extraído do livro "Meninos, eu vi", de Juca Kfouri, editoras DBA/Lance!)

Por Juca Kfouri às 16h43

28/12/2005

Qualquer hora era hora de ver o Divino jogar bola

Futebol domingo de manhã? Só podia ser coisa de cartola sem ter o que fazer.

Mas era isso mesmo: Palmeiras e Lusa fariam num domingo de manhã, dia 24 de abril de 1977, pelo campeonato paulista, um jogo que não teria muita importância não fosse, dizia-se, pelo fato de marcar a despedida de Ademir da Guia, o Divino, do alviverde.

E lá fui eu testemunhar a história. Que ganhava contornos de pura verdade, porque a primeira pessoa que notei na tribuna de imprensa foi Domingos da Guia, o Divino Mestre, apelido que ganhara dos uruguaios ao se sagrar campeão pelo Nacional, em 1933.

O Divino Mestre fora ver o filho jogar. Ademir já tinha 35 anos e jogara o suficiente para ganhar uma estátua no Parque Antarctica.

Clássico, frio, inabalável, Ademir da Guia resolveu dar um show particular naquela manhã, fazer coisas que nem eram muito do seu feitio - gols, por exemplo.

Fez dois na vitória palmeirense por 3 a 2. Um mais bonito que o outro, matada no peito, bola no fundo da rede. E ainda deu outro para Jorge Mendonça - aí, sim, bem ao seu estilo, num passe genial.

Não satisfeito, salvou lá atrás três gols da Lusa, que tinha um inspirado Enéas, autor do gol de empate em 1 a 1, pelo meio das pernas de Leão.

De repente, 35 mil pessoas estavam em pé no Pacaembu aplaudindo Ademir da Guia. Isso mesmo. Contando hoje, pode parecer mentira, mas 35 mil pessoas foram ao estádio num domingo pela manhã só para ver Ademir jogar - se despedir?

Ademir da Guia parecia querer mostrar que os cartolas tinham enlouquecido, que qualquer hora era hora para jogar futebol. E que futebol!

Estava tão especial que fez 1 a 0 aos dezenove minutos do primeiro tempo e 2 a 1 aos dezenove do segundo. Milimétrico, cirúrgico, como sempre.

O velho Domingos, que também foi campeão argentino pelo Boca Juniors, em 35, e carioca pelo Vasco, em 34, e pelo Flamengo, em 39, 42 e 43, era um sorriso só. O orgulho transpirava, indisfarçável.

Fim de jogo, quem tinha ido ter um aperitivo antes da rodada que aconteceria à tarde sentia-se mais do que banqueteado.

A imprensa cerca o Divino Mestre, que sentencia, impávido colosso:

"Vim para São Paulo porque soube que ele está parando. Trouxe até uma proposta do Vasco, mas nem vou apresentá-la, porque não sou imbecil. De fato, o time do Palmeiras já não é o mesmo de dois, três anos atrás. Mas o Ademir é".

Nada mais foi dito, nem mais lhe foi perguntado. Nem precisava. Ademir ainda jogou mais cinco meses, cada jogo um recital.

(Extraído do livro "Meninos, eu vi", de Juca Kfouri, editoras DBA/Lance!)

Por Juca Kfouri às 10h16

O tabu do Mineirão sobrevive nos pés de Natal & Cia.

O Mineirão foi inaugurado em setembro de 1965 e significou a maturidade do futebol mineiro, capaz, daí por diante, de encarar em pé de igualdade os times do eixo Rio-São Paulo - tanto que, em 1966, o Cruzeiro derrotou o Santos de Pelé e conquistou a Taça Brasil.

Mas havia um problema com o novo estádio. Um problema grave para a massa atleticana. O Galo não conseguia ganhar do Cruzeiro no novo palco, e só o adversário tinha sido campeão estadual na era do Mineirão. Aliás, bicampeão.

Porém, numa tarde chuvosa de 11 de novembro de 1967, tudo indicava que a história iria mudar.

O Galo abriria uma vantagem de cinco pontos sobre o rival, mas perdera quatro desses pontos para o Uberaba e o Uberlândia nas duas partidas imediatamente anteriores ao clássico, que levou 90 mil pessoas ao estádio, ainda reluzente de novo.

Aos 21 minutos do primeiro tempo, Lacy fez 1 a 0 para o Galo, e o Mineirão quase foi abaixo.

Aos 25, o zagueiro cruzeirense Procópio foi expulso de campo.

Aos 39, Ronaldo ampliou para o Atlético, e o Mineirão foi abaixo.

Em clima de festa, começou o segundo tempo, e, logo aos cinco minutos, Tostão, o maior craque de um Cruzeiro cheio de craques, se machucou e saiu de campo, substituído por Zé Carlos.

Continua...

Por Juca Kfouri às 10h05

Continuação...

Dez minutos depois, Lacy marcou o terceiro gol, e o Mineirão só sobreviveu porque, em seguida, na saída de bola, Natal diminuiu.

Mas o Cruzeiro só tinha dez homens em campo, e Tostão estava fora. Só mesmo quem estava acostumado a ver coisas fabulosas acontecerem entre Santos e Corinthians, no tabu que já durava dez anos no futebol paulista, poderia ter desconfiado que algum acontecimento extraordinário estava reservado para aquele dia.

Pois, dois minutos depois de ter diminuído, o ponta-direita Natal marcou o segundo gol cruzeirense.

Marcara um gol sentado e o outro, de cabeça, de costas para as traves do arqueiro Hélio.

Aos trinta, pênalti para o Cruzeiro. Wilson Piazza empatou, friamente.

A catástrofe atleticana só não foi maior porque a trave salvou o quarto gol cruzeirense, numa falta cobrada por Zé Carlos, o substituto de Tostão.

A massa alvinegra abandonou o estádio cabisbaixa, tabu mantido, mas, fosse como fosse, com um ponto à frente e apenas dois jogos a cumprir. Aí, o Galo goleou o América e, desgraça, empatou com o Villa Nova.

Na decisão, Cruzeiros tricampeão.

(Extraído do livro "Meninos, eu vi", de Juca Kfouri, editoras DBA/Lance!)

Por Juca Kfouri às 10h04

27/12/2005

Aplausos, cascudos e bagaços após um gol de rei

Penúltima rodada do campeonato paulista de 1964. O Pacaembu estava lotado.

Já fazia dez anos que o Corinthians não ganhava um título e sete que não vencia o Santos, aquele timaço de Pelé, que ganhou tudo o que pôde nos anos 60.

Como se fosse um bom sinal, aos sete minutos do primeiro tempo o camisa sete Ferreirinha abre o marcador para o Corinthians. Muito cedo, pensaram os mais pessimistas.

Com razão. Logo em seguida, Coutinho empata.

Mas a tarde daquele domingo, 6 de dezembro, parecia diferente.

O Corinthians ainda lutava pela taça, e Bazani, aos 27, pôs o Timão na frente outra vez.

Em seguida, Coutinho, ele de novo, tratou de empatar, e o primeiro tempo acabou 2 a 2.

Mas, no intervalo, havia um sopro de confiança entre a maioria corintiana no estádio. Afinal, daquela vez era o Santos quem corria atrás do Corinthians, e não o contrário, como de costume.

Sopro vão. Pelé, aos quatro minutos, de novo aos onze e mais uma vez aos quinze, os dois últimos em pênaltis marcados por Armando Marques, fez Santos 5, Corinthians 2.

Mais um ano de fila, mais um ano de tabu.

Como não está morto quem peleia, Silva diminui aos 35. Mais uma esperança...

Mas Coutinho faz 6 a 3, apenas dois minutos depois. Muitos se levantam e começam a ir embora.

O menino de catorze anos, corintiano do fundo do coração, permanece desolado nas gerais, vendo mais um ano ir-se embora sem título e sem vitória sobre o poderoso Santos de Pelé & Cia.

Eis que de repente, não mais que de repente, como disse o poeta, um cruzamento vem da ponta esquerda para a altura da meia-lua da área corintiana.

Faltavam poucos minutos para o jogo terminar. De bate-pronto, sem pensar nem pestanejar, Pelé enche o pé direito, e a bola estufa as redes de Heitor, no ângulo, inapelável, um gol de fábula, digno de um rei.

O menino se levanta, instintivamente, e aplaude. E leva um par de cascudos e uma chuva de bagaços de laranja nas costas.

"Traidor!", ele ouve, entre outras ofensas bem menos publicáveis.

O clima fica insustentável para ele, que, sem alternativas, busca o portão de saída, cabeça duplamente inchada - 7 a 3 para o Santos por dentro, dois cascudos ardidos por fora, mais os bagaços.

Vai embora ainda a tempo de ver Silva, de pênalti, marcar o quarto gol corintiano, inútil.

Foi a primeira e única vez em que apanhei num campo de futebol.

(Extraído do livro "Meninos, eu vi", de Juca Kfouri, editoras DBA/Lance!)

Por Juca Kfouri às 10h33

Eram 85 mil e mais onze contra apenas onze no Maraca

Faz dezoito anos, mas a lembrança é tão nítida como se tivesse sido ontem. Dia 20 de janeiro de 1982, dia de São Sebastião, feriado do padroeiro na Cidade Maravilhosa.

Flamengo e São Paulo, à tarde, no Maracanã com 85 mil pessoas, num dia que era útil pelo país afora. No Rio, seria um dia mágico. Ao chegar, avisei aos queridos João Saldanha, Sandro Moreyra e Sérgio Cabral:

"Esse São Paulo tem um timaço e pode ganhar do Flamengo numa boa".

De fato. O tricolor tinha Valdir Peres, Getúlio, Oscar, Darío Pereyra e Marinho Chagas; Almir, Renato e Everton; Paulo César, Serginho e Mário Sérgio. Tirante Almir, eram dez da seleção.

Tudo bem, o Mengo tinha Raul, Leandro, Marinho, Mozer e Júnior; Andrade, Adílio e Zico; Chiquinho, Nunes e Lico. Do time campeão mundial um mês antes em Tóquio, só faltava Tita.

Meus três amigos cariocas, dois botafoguenses e um vascaíno, bem que queriam ver uma derrota do Flamengo, mas se limitavam a me gozar. Eu ainda insisti.

"Esse time não é bicampeão paulista à toa, gente."

E eles só riam.

Eu também não tinha nada a ver com aquilo, estava no Maracanã apenas para ver o que, sabia de antemão, seria um jogaço.

E foi o São Paulo quem começou arrasador. Aos catorze minutos, fez 1 e, aos 41, fez 2 a 0, dois gols de Serginho, fora o baile. No intervalo, me vi como uma celebridade. Cercado pelos companheiros cariocas na tribuna de imprensa, pontificando sobre aquele grande time tricolor. E olhava com um insolente ar de superioridade para os três incréus.

Eis que o jogo recomeça e Zico diminui logo aos treze. O Maracanã se transforma num coro só: "Ó meu Mengão, eu gosto de você, quero cantar ao mundo inteiro a alegria de ser rubro-negro. Conte comigo, Mengão, acima de tudo rubro-negro..."

E o time se transforma numa enlouquecida máquina de jogar futebol, embalada pela voz da arquibancada. Eram 85 mil e mais onze contra apenas onze são-paulinos.

E o inevitável aconteceu. Andrade empatou aos 25, e, como o Maracanã não parava de cantar, não se satisfazia com o empate, o Galinho tratou de, aos 36, marcar o gol da vitória.

E que vitória, embora fosse só a estréia rubro-negra no campeonato brasileiro, que o Flamengo ganharia com nada menos que quinze vitórias, seis empates e apenas duas derrotas.

Também, com uma torcida daquelas...

João Saldanha, Sandro Moreyra e Sérgio Cabral, dois botafoguenses e um vascaíno, só riam. E eu, corintiano, também. Como a maioria do Brasil.

(Extraído do livro "Meninos, eu vi", de Juca Kfouri, editoras DBA/Lance!)

Por Juca Kfouri às 10h32

26/12/2005

O dia em que a caça consolou o caçador no Pacaembu

Dois alvinegros, Santos e Botafogo, faziam os grandes jogos dos anos 60. Pelé ´ Garrincha, fora outros gigantes dos dois timaços.

Num desses jogos, em São Paulo, os cariocas fizeram uma exibição inesquecível e, estranhamente, pouco badalada nos embates entre os dois melhores times do país naquela época. Aliás, sempre que são feitas referências aos jogos entre Botafogo e Santos daqueles tempos, só são lembradas as vitórias santistas, as goleadas de Pelé & Cia.

Pois o Pacaembu estava lotado para ver mais uma.

Pelé e Mané estavam em campo, mas o diabo estava era no corpo que vestia a camisa 7, não a 10. O lateral-esquerdo Dalmo, do Santos, viveu uma tarde de terror. Garrincha pegava a bola e, andando, levava Dalmo até dentro da grande área, onde o zagueiro não podia fazer falta.

O Pacaembu não acreditava no que via: um ponta andar da intermediária até a área, sem que o lateral tentasse tirar a bola, temeroso do drible desmoralizante. Até que Dalmo percebeu que tinha virado motivo de chacota dos torcedores, muitos dos quais nem santistas eram, mas que iam ao campo na certeza do espetáculo.

E Dalmo resolveu bater antes de chegar na grande área. Bateu uma vez, Garrincha caiu, o árbitro marcou a falta e repreendeu o paulista. Bateu outra vez, Garrincha voltou ao chão, o árbitro marcou a falta e ameaçou Dalmo de expulsão, porque naquele tempo o cartão amarelo não existia.

A terceira falta de Dalmo foi a mais violenta, como se ele tivesse pensando: “Arrebento essa peste, sou expulso, mas ele não joga mais”.

Pensado e feito. Enquanto o gênio das pernas tortas estava estirado no bico direito da área dos portões principais do Pacaembu, o árbitro determinava a expulsão de Dalmo, cercado por botafoguenses justamente irados com seu gesto.

Eis que, como um acrobata, Garrincha levanta-se, afasta seus companheiros, bota o braço esquerdo no ombro de Dalmo e o acompanha até a descida da escada para o vestiário, que, então, ficava daquele lado.

Saíram conversando, como se Garrincha justificasse a atitude, entendesse que, para pará-lo, não havia mesmo outro jeito.

O Botafogo ganhou de 3 a 0 e saiu aplaudido do estádio. Tinha visto uma autêntica exibição do Carlitos do futebol, digna mesmo de Charles Chaplin, divertida, anárquica, humana, sensível, solidária.

 

(Extraído do livro "Meninos, eu vi", de Juca Kfouri, editoras DBA/Lance!)

Por Juca Kfouri às 11h19

Respeito, a vitória de Masopust e Lala na Copa de 62

O pequeno estádio Sausalito, em Viña del Mar, estava apinhado para ver a seleção brasileira com Garrincha e Pelé diante da Tchecoslováquia, segunda partida da Copa do Mundo de 1962, no Chile.

A seleção brasileira era a favorita ao título, e a tcheca, uma incógnita. Ninguém duvidava: seria a Copa de Pelé, pois o menino da Suécia tinha virado homem, tinha virado rei, Rei do Futebol.

Aos 25 minutos do primeiro tempo, Pelé recebe uma bola de Zito na entrada da grande área e solta a bomba. O goleiro Schroiff desvia de leve, a bola ainda toca a trave e sai a escanteio.

Imediatamente, o rosto de Pelé se transforma numa máscara de dor. Ele leva a mão à coxa esquerda e sente algo que jamais sentira em cinco anos de carreira. O diagnóstico posterior era definitivo e o tirava da Copa: distensão da virilha.

O Brasil inteiro sente a mesma dor. Quem nem sabia que tinha uma coisa chamada virilha, a junção da coxa com o ventre, passa a saber. E gostaria muito de poder oferecê-la, saudável, ao Rei, ferido.

Como naquele tempo não havia substituição, era comum um jogador machucado permanecer em campo, fazendo número, como se dizia, para, pelo menos, manter algum defensor adversário minimamente preocupado. Foi o que Pelé fez, ali pela ponta esquerda, mancando. Mas, sem que ele se desse conta, o capitão tcheco, Masopust, ordenou a seus companheiros:

“Ninguém o combate se a bola chegar nele”.

E eis que a bola chegou nele, outra vez enviada por Zito. Com dificuldade, Pelé a recebe e vê o lateral Lala se aproximar, apenas para cercá-lo. Pelé olha para Lala, que pára e bota as mãos na cintura, feito estátua.

Pelé percebe o que se passa. E retribui o gesto à altura. Num último esforço, toca a bola para fora, sai do gramado, deixa o jogo, sempre escoltado por Masopust.

O pequeno estádio Sausalito, apinhado, fica em silêncio, parece não entender exatamente o que se passa no gramado, ou melhor, já fora do gramado.

Porque era uma cena rara de respeito, de generosidade, de solidariedade, de grandeza – em duas palavras, de ética esportiva. Um momento que entrou para a história do futebol.

Em seguida, a torcida chilena irrompeu em aplausos. Percebera que tinha acabado de assistir a uma cena digna de três nobres.

O jogo terminou triste e sem gols. Brasileiros e tchecos voltaram a se enfrentar na final, e o Brasil foi bicampeão mundial, ao vencer por 3 a 1, naquela que foi a Copa do Mundo do genial Mané Garrincha.

Mas que foi também de Masopust, Lala e Pelé. Porque, acima da vitória, está o respeito ao próximo.

(Extraído do livro "Meninos, eu vi", de Juca Kfouri, editoras DBA/Lance!)

 


Por Juca Kfouri às 11h19

Pernas para o alto!

O dono do blog está, para alegria geral, em férias.

Só volta no próximo dia 23 de janeiro.

Até lá, a cada dia, dois capítulos do livro "Meninos, eu vi" serão devidamente postados para que ninguém morra de saudades.

São algumas de minhas memórias esportivas publicadas em 2003, pelas editoras DBA e Lance!.

Este blogueiro curtirá feliz suas férias e faz um agradecimento aos 2 milhões de visitas a este espaço em seus curtos três primeiros meses de existência (um milhão nos dois primeiros meses, mais um milhão no terceiro) e aos 35 mil comentários (18 mil nos dois primeiros meses, mais 17 mil no terceiro) publicados.

Ótimo 2006! 

Por Juca Kfouri às 10h59

25/12/2005

Coluna deste domingo, na FOLHA

Ode a Rogério Ceni


JUCA KFOURI
COLUNISTA DA FOLHA

 

Caju é sinônimo de Atlético Paranaense, por estranho que pareça. Mas o antigo goleiro do Furacão (anos 30/40) tem seu nome na história, como Lara, do Grêmio, da mesma época.
E são raros os goleiros que têm seus nomes automaticamente associados a um clube, às vezes dois, como Gilmar dos Santos Neves (Corinthians e Santos); Manga (Botafogo e Inter); Raul Plassmann (Cruzeiro e Flamengo).
Oberdã Catani do Palmeiras, Emerson Leão, fundamentalmente do Palmeiras, São Marcos.
Ronaldo, do Corinthians.
Barbosa, do Vasco.
Marcos Carneiro de Mendonça e Carlos Castilho, do Fluminense.
Kafunga, do Atlético Mineiro.
José Poy e Zetti, do São Paulo.
Nenhum deles, no entanto, o que não os diminui em nada, bem entendido, pegou três bolas impossíveis numa decisão de Mundial de Clubes.
Rogério Ceni pegou.
Nenhum deles foi eleito o melhor jogador de uma decisão de Mundial de Clubes nem do próprio Mundial.
Rogério Ceni foi.
Nenhum deles fez gols e mais gols pelo seu clube.
Rogério Ceni fez e fará.
Jamais houve um goleiro como Rogério Ceni, que compõe agora, como disse o autor do livro sobre o São Paulo ("Dentre os grandes, és o primeiro", da Coleção Camisa 13, pela Ediouro), Conrado Giacomini, a Santíssima Trindade Tricolor, ao lado de Leônidas da Silva e Raí.
Do mesmo modo que não se afirmou aqui, na coluna passada, que o São Paulo é o maior time de todos os tempos do Brasil (porque nem é preciso comparar a equipe do tri mundial com o Santos de Pelé, basta compará-lo ao próprio São Paulo de Raí para constatar o tamanho da estupidez, se cometida), pois apenas se constatou que o São Paulo é o clube mais vitorioso do país, também ninguém está dizendo que Rogério é o melhor goleiro da história.
Ele é só (?!) o mais emblemático e bem sucedido a personificar um clube de futebol.
Até outro dia mesmo, com toda sua história no Morumbi, poderia se dizer que Rogério já tinha um lugar de honra na galeria dos ídolos tricolores, mas poucos e desimportantes títulos como titular. Agora não só tem os dois títulos mais importantes que um clube pode ter como, ainda por cima, os obteve como os obteve, fazendo gols e milagres, tanto na Libertadores quanto no Mundial.
Ah, mas ele não está na seleção. E não está porque não gostou de ter seu cabelo cortado na Copa das Confederações de 1997, na Arábia Saudita.
Romário anunciou que o time rasparia a cabeça caso chegasse à final do torneio.
Rogério foi pego de surpresa. Não gostou e não disfarçou o desagrado com a violência.
Até já disse que se não faltasse só uma partida teria pedido para voltar para o Brasil e de tão amuado não saiu mais de seu quarto, a não ser para treinar e se alimentar.
Zagallo viu em sua atitude "falta de espírito de grupo".
Só resta dizer, como diria Fernando Calazans, azar da seleção.

Que venha 2006


Esta é minha última coluna neste ano. Durante os próximos 30 dias estarei recarregando as pilhas para a próxima temporada, com uma Copa do Mundo e muito trabalho pela frente. O ano de 2006 tem tudo para ser um daqueles porque, não bastasse a Copa na Alemanha, só na Libertadores teremos seis clubes brasileiros, quatro de São Paulo, três, o Trio de Ferro, da capital. E, a exemplo da Copa, os brasileiros também são favoritos. Já imaginou a seleção na final em Berlim e mais um clube do país na final em Yokohama? Sem ufanismo algum, é razoável supor que viveremos tais emoções. Que 2006 seja, portanto, aquilo que você sonha, pelo menos dentro de campo. E nas urnas. Mais nas urnas do que dentro de campo porque uma derrota no futebol não será nada de mais, outra decepção nas urnas será insuportável. Basta de frustração.


 

Por Juca Kfouri às 12h52

Sobre o autor

Formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999. Atualmente está também na ESPN-Brasil. Colunista de futebol de "O Globo" entre 1989 e 1991 e apresentador, desde 2000, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha.

Histórico