Blog do Juca Kfouri

Tabelinha com Juca

Segundas-feiras, às 15h

07/01/2006

Santos ou Lusa: quem sofreu com o erro de Armando?

Como um erro puxa outro, bastou falar de arbitragem na última coluna para que outros casos famosos voltassem a povoar meus pesadelos com os homens do apito.

 

O mais escandaloso deles nem foi de arbitragem, foi de aritmética. O famoso caso de Armando Marques na decisão do campeonato paulista de 1973. Foi cômico. E trágico.

 

O Santos de Cejas, Carlos Alberto, Clodoaldo, Jair da Costa, Pelé e Edu ficou no 0 a 0 com a Portuguesa de Badeco, Basílio e Enéas, diante de 120 mil torcedores no Morumbi. Vieram os pênaltis, e, ao fim das seis primeiras cobranças, o Santos vencia por 2 a 0.

 

Foi aí que Armando Marques fez a lambança e encerrou a disputa, sem ter atentado para o fato de que, caso a Portuguesa convertesse as duas cobranças restantes e o Santos as perdesse, tudo ficaria empatado.

 

Tão logo Armando Marques consumou seu erro, a torcida e o time do Santos explodiram na comemoração, e o técnico da Lusa, Oto Glória (que levara Portugal ao terceiro lugar na Copa do Mundo de 1966 e cunhara a famosa frase "Técnicos ou são umas bestas, ou são bestiais"), imediatamente mandou seu time embora do estádio, sem banho, porque percebeu o erro e quis criar um fato consumado.

 

Cá entre nós, eu, como tantos, também percebi na hora que havia erro. Enquanto descia para os vestiários, me vi diante do lendário goleiro Gilmar dos Santos Neves, que, feliz da vida (Gilmar jogara de 1962 a 1969 no grande Santos, onde encerrou a carreira), esperava o elevador.

 

De imediato, eu disse a Gilmar, a quem não conhecia pessoalmente: "Houve um erro, a Portuguesa poderia ter empatado".

 

Gilmar me olhou com estranheza e retrucou, já meio em dúvida: "Nada disso, o Santos é o campeão. Até porque o Pelé nem bateu o pênalti dele".

 

Era a pura verdade, mas não vinha ao caso. Pelé poderia ter errado.

 

Quando todos se deram conta do erro, os cartolas se reuniram num banheiro do Morumbi e resolveram dividir o título, como Oto Glória queria. Um crime contra o Santos, que levava vantagem em tudo sobre a Portuguesa.

 

A fórmula daquele ano determinava que o campeão do primeiro turno enfrentaria o campeão do segundo. Deu Santos no turno, com dezenove pontos, e Lusa no returno, com dezoito. No total, o Santos ganhou 31 pontos, e a Portuguesa, 28. E, nas cobranças da marca do pênalti, estava 2 a 0.

 

É verdade que quem fez a festa mesmo foi o Santos, que deu a volta olímpica etc. e tal. Mas, graças a Armando Marques, a Portuguesa, historicamente prejudicada pelas arbitragens, acabou ganhando um título que não mereceu.

 

(Extraído do livro "Meninos, eu vi", de Juca Kfouri, editoras DBA/Lance!)

Por Juca Kfouri às 10h01

Erro de juiz faz parte do jogo, mas pode decidir

Erro de árbitro faz parte do jogo, como frango de goleiro ou furada de centroavante ou zagueiro estabanado. Time que quiser ser campeão vai ter de superar tudo isso.

 

Mas é claro que time com goleiro frangueiro, centroavante perna-de-pau e zagueiro trapalhão jamais será campeão.

 

Como, também, time que for prejudicado pela arbitragem muito mais do que favorecido (a média deve ser na base do meio a meio) dificilmente levantará uma taça.

 

Tanto que até o velho e extraordinário Santos tomava seus cuidados nos bastidores para contar com a simpatia dos senhores do apito – ou, diziam os cartolas santistas de então, para não contar com a antipatia.

 

Antipatia como a que parece tomar conta dos árbitros cariocas em relação ao mais que simpático América, vergonhosamente roubado no Maracanã no domingo passado, contra o Fluminense.

 

Sim, essa parece ser a sina dos pequenos, que precisam de um monte de distrações para se dar bem, embora até as distrações os persigam, como a famosa de José Roberto Wright, na decisão do estadual do Rio de 1985.

 

Então, no último lance da partida, Wright não marcou um pênalti claro contra o Fluminense, que, se convertido em gol, daria o título do campeonato ao Bangu.

 

O árbitro se justificou dizendo que se preparava para apontar para o meio do campo e encerrar o jogo, razão pela qual não vira o lance. Só que, dada a confusão, acabou por expulsar três jogadores do Bangu, algo que não faria se tivesse terminado a partida.

 

Mas e quando não se trata de um pequeno? E quando a vítima é um grande como o Galo?

 

O mesmo Wright sabe o que acontece, pois até hoje é tido como inimigo número um da torcida atleticana.

 

Galo e Flamengo foram ao Serra Dourada, em Goiânia, disputar um jogo-desempate para decidir quem seguiria na Libertadores de 81. Setenta mil pessoas lotaram o estádio, a maioria simpática ao Fla.

 

Wright, então considerado o melhor árbitro do país, apitava no Rio Grande do Sul e, mesmo sendo carioca, teve a aprovação dos mineiros para o tira-teima. Mas estava nervoso.

 

Eis que, aos 37 minutos do primeiro tempo, Reinaldo faz uma falta comum em Zico.

 

Para surpresa geral do estádio e do país, que via o jogo pela tv, Wright expulsou Reinaldo e armou uma grande, enorme confusão.

 

Confusão que terminou com mais quatro atleticanos expulsos e a decisão encerrada prematuramente, para frustração geral e irrestrita. O jogo estava 0 a 0, e nos dois anteriores, no Mineirão e no Maracanã, o placar também tinha sido de empate, ambos em 2 a 2.

 

O mesmo árbitro, de ponta, prejudicou um grande e um pequeno, para alegria da Fla-Flu.

 

(Extraído do livro "Meninos, eu vi", de Juca Kfouri, editoras DBA/Lance!)

Por Juca Kfouri às 09h58

06/01/2006

Depois da frustração, a surpresa tricolor que me marcou

Corria o ano de 1956, e, sem pieguice, eu não podia correr.

Uma tuberculose ganglionar quase tinha me matado, e eu andava fraco.

Já fora de perigo, me mandaram passar uns dias em Ilhéus, na Bahia, na casa de parentes.

Tio Pacheco era médico, dono do hospital da cidade, e um figuraço, casado com tia Esther, irmã de minha avó.

Estava lá eu em franca recuperação quando foi anunciada a presença do Fluminense em Itabuna, ali perto.

Foi então que tio Pacheco chegou em casa no fim de uma bela quinta-feira com dois ingressos na mão e prometeu que iríamos ao jogo.

Havia dias que eu não tinha febre, mas, sei lá se a excitação mexeu demais comigo, fato é que na sexta-feira amanheci febril.

Assim foi durante todo o dia, 38, 39 graus de febre, e, quando o tio Pacheco chegou e soube, nem pestanejou: sentou-se ao meu lado e disse que era melhor esquecer o jogo, mas que de todo modo me faria uma surpresa no domingo. Desnecessário contar o tamanho da frustração, e, na verdade, não havia surpresa possível que me interessasse ou consolasse.

Passei o sábado bem jururu e fui acordado no domingo com o anúncio de que tinha uma surpresa para mim na sala.

Lavei o rosto, escovei os dentes, fui para a sala e dei de cara com um bando de gente que eu não sabia bem quem era.

Era o time do Fluminense!

Tio Pacheco havia conseguido levar o time do Flu à casa dele, para visitar o sobrinho doente.

Ganhei autógrafos do Castilho, do Pinheiro, do Telê Santana, do Escurinho, uma beleza!

Muitos anos depois, às vésperas da Copa de 82, perguntei a Telê se ele se lembrava do episódio, e ele disse que sim, vagamente. E, sempre que de alguma maneira divergíamos, ele me ameaçava: “Vou espalhar para todo mundo que você já sentou no meu colo”.

Mas foi em 1984 que essa história teve seu fecho de ouro.

Num programa de tv, com Castilho, o maior goleiro da história do Flu, e Telê, perguntei a eles, piscando o olho para Telê, se guardavam alguma lembrança de visitas a crianças doentes em excursões do Flu.

E Castilho imediatamente se virou para Telê e disse: “Sim, é claro. Você se lembra, Telê, de um menino paulista que fomos visitar na Bahia, estava com uma doença grave, bem fraquinho, acho até que morreu?” Antes que Telê falasse qualquer coisa, eu disse a Castilho que o garoto era eu. O velho e sensível goleiro se emocionou às lágrimas. Foi a última vez que o vi. Três anos depois, deprimido, Castilho suicidou-se.

Deixou saudade.

 

       (Extraído do livro "Meninos, eu vi", de Juca Kfouri, editoras DBA/Lance!)

Por Juca Kfouri às 09h31

São Paulo, o time que eu odiava e Forlan me fez amar

De todos os times brasileiros, havia um de que, definitivamente, eu não gostava. Mais: eu odiava mesmo. O São Paulo fc. Explico por quê.

Meu padrinho de batismo, o tio Adib, era tricolor doente, assim como todos os Aidar. E era com eles que eu ia ao Morumbi ainda em construção, nos anos 60.

Nos jogos em que o São Paulo estava ganhando do Corinthians e a torcida corintiana começava a ir embora, nas cadeiras cativas do estádio só se ouviam gritos do tipo “Vão embora, seus pobres” ou “Vão tomar o ônibus, seus favelados”. Aquilo me doía e revoltava.

Sempre digo que aprendi a noção de luta de classes no Morumbi.

E torcia contra o São Paulo, sempre, em qualquer circunstância.

Até que, numa bela noite de 15 de dezembro de 1971, já como jornalista, fui ao Morumbi para ver São Paulo ´ Botafogo, pelas finais do primeiro campeonato brasileiro.

As finais foram disputadas em sistema de triangular, e, no domingo anterior, o Atlético Mineiro derrotara o São Paulo no Mineirão.

Os paulistas tinham que ganhar dos cariocas e depois torcer por eles diante dos mineiros, jogo que estava marcado para o domingo seguinte, no Maracanã, e que terminaria com a vitória do Galo, campeão, por 1 a 0.

Mas voltemos ao Morumbi.

Lá eu estava para torcer pelo Botafogo, que saiu na frente, gol de Nei, ex-corintiano, pai do Dinei.

Mas o São Paulo tinha um lateral-direito uruguaio e cabeludo chamado Pablo Forlan.

Ele pegou a bola no fundo do gol e deu uma bronca geral no seu time, dizendo que não iria perder um jogo em casa por nada no mundo.

E tratou de dar o exemplo. Possesso, foi ao ataque e logo empatou o jogo.

Não se contentou, é claro, porque empatar ou perder dava no mesmo.

Cada vez que pegava na bola, Forlan incendiava o Morumbi e, assim, levou o São Paulo à virada – o segundo gol marcado por Terto, três minutos depois do seu.

Nem por isso Forlan se aquietou, comandando o time, que marcou mais duas vezes: 4 a 1!

Extenuado ao fim da partida, Forlan era a imagem de um… de um… na minha cabeça, de um… herói corintiano. Deixei-me levar por um surto de bom senso, no entanto, e me dei conta de que havia ali um exemplo de alguém que merecia uma estátua na porta do Morumbi. Pela primeira vez, senti simpatia pelo São Paulo e pelos são-paulinos.

Depois, veio outro uruguaio, o genial Darío Pereyra. E, mais adiante, Telê Santana. A raiva estava derrotada para sempre.

A partir daí, várias vezes me peguei e me pego torcendo pelo São Paulo, quase como se fosse o meu time de coração.

Melhor assim.

 

      (Extraído do livro "Meninos, eu vi", de Juca Kfouri, editoras DBA/Lance!)

Por Juca Kfouri às 09h29

05/01/2006

O medo, a pior das lembranças do querido Pacaembu

Do alto do bairro de Higienópolis, cercado de prédios por todos os lados, é possível ver, obliquamente, o portão principal do estádio do Pacaembu.

A iluminação que vem de baixo torna ainda mais romântica a imagem do lugar mais gostoso que existe no mundo para se ver um jogo de futebol.

E me traz doces e tristes recordações e até mesmo uma que é apavorante.

Comecemos pela última.

Em 1960, com dez anos de idade, fui pela primeira vez ao Pacaembu à noite. Fui, não: fomos.

Jantamos na casa de minha avó, razoavelmente perto do estádio.

Meu pai só autorizou que meu irmão Beto e eu fôssemos ver um Corinthians ´ São Paulo porque meu primo Dado, tricolor e uns cinco anos mais velho, também iria.

E lá fomos os três.

Não tinha muita gente. O Corinthians estava às vésperas de virar o “Faz-Me Rir”, e o São Paulo tinha, digamos, hibernado, todos os esforços voltados para a construção do Morumbi.

O jogo acabou 1 a 1 e foi horroroso.

Provavelmente irritado com o mau espetáculo, o Dado, que tinha encontrado um amigo na arquibancada, não estava gostando nada de ser babá de duas crianças e, diferentemente do que havia sido combinado, em vez de nos levar para casa após o jogo, apenas nos ensinou que ônibus pegar. E tomou outro rumo.

Sim, São Paulo era, então, uma cidade que permitia que duas crianças andassem sem maiores riscos pela noite afora, mas a estréia da aventura e a imaginação foram capazes de produzir momentos de tensão, devidamente vividos em silêncio, um pouco por vergonha de contar a meu irmão, outro pouco para que ele também não ficasse com o mesmo medo.

Voltamos sãos e salvos, é óbvio, mas aquele foi dos poucos jogos que me arrependi de ter ido ver.

Hoje, com um filho de dez anos, meu pequeno Felipe, nem passa por minha cabeça deixá-lo ir sozinho ao futebol, de noite, de tarde ou de manhã. Pior: não passa nem pela cabeça dele.

E me pego pensando o que será preciso fazer para que os estádios possam voltar a receber crianças, jovens e adultos sem que a segurança de cada um esteja em risco.

A violência urbana e a das torcidas organizadas são das maiores inimigas do futebol, porque até jogo ruim, como aquele 1 a 1, dá para suportar sem atingir a paixão.

Outro dia eu conto as recordações doces, e as tristes, vividas no velho Pacaembu, uma espécie de segunda casa, agora ao alcance de meu olhar.

(Extraído do livro "Meninos, eu vi", de Juca Kfouri, editoras DBA/Lance!)

Por Juca Kfouri às 13h12

De volta ao Sarriá, a lembrança que não sai da cabeça

Ninguém mexe com os demônios impunemente. Nem com os fantasmas do Sarriá, que voltam a ser meu tema.

Sarriá foi implodido anos atrás. Tenho um pedaço do estádio, presenteado por Ricardo Setti, que cobriu aquela Copa pela Veja e hoje é diretor das revistas femininas da editora Abril.

Em torno de figuras adoráveis como Júnior, Cerezo, Falcão, Sócrates, Zico e Telê Santana, reuniram-se jornalistas inesquecíveis, como Carlos Alberto Sardenberg, da IstoÉ, atualmente âncora da cbn; Luis Fernando Verissimo; o professor Ruy Ostermann; meu tio Alberto Helena Jr.; João Ubaldo Ribeiro; Nelson Motta; e outros tantos.

Uma confraria que, esta é a verdade, casou-se com a seleção.

Em Sevilha, fui apresentado por Alberto Dines (autor de uma maravilhosa reportagem para a Playboy, que começava como o poeta García Lorca – “A las cinco en punto de la tarde”) a Armando Nogueira, no intervalo do jogo entre Escócia e Brasil, que estava 1 a 1.

Armando me perguntou, preocupado, o que eu estava achando da partida, e lhe respondi, sem cerimônia: “Vamos ganhar de quatro”. Não deu outra. Ao fim do jogo, o então diretor de jornalismo da Rede Globo veio se despedir, admirado com minha capacidade de fazer previsões…

Vi a “tragédia do Sarriá” entre Carlos Maranhão e Marcelo Rezende, ambos, como eu, da Placar. Maranhão há anos edita a Veja sp, e Rezende está na Globo, para desespero da cartolagem.

Ao fim do jogo, todos arrasados e paralisados, resolvi bancar o linha-dura e determinei o que cada um deveria fazer. Subi as escadas pisando forte, certo de que ainda haveria um terceiro tempo, quando fui abordado pelo repórter Arlérico Jácome, da Rádio Globo. Afastei o microfone, ele insistiu e já foi ao ar: “Vamos ouvir o que tem a dizer o diretor da revista Placar, nosso companheiro Juca Kfouri”.

Tentei dizer que lamentava pelo Sócrates, pelo Zico, pelo… E desatei a chorar, para total perplexidade do pobre Arlérico, que não esperava por essa.

Mas a melhor de todas as histórias daquele 5 de julho de 1982 eu ouvi de Sérgio Cabral, que era colunista de O Globo.

Ele saiu desnorteado do Sarriá, a pé. Ao parar para atravessar uma daquelas largas avenidas de Barcelona, com a cara de quem não sabia se queria continuar a viver, viu-se diante de um dos inúmeros anúncios que o extinto Instituto Brasileiro do Café havia espalhado pela estonteante cidade catalã. Foi então que sentiu que alguém lhe pusera a mão no ombro. Virou-se e viu um menino, de no máximo doze anos, que lhe disse em bom e pesaroso espanhol: “Não há de ser nada, senhor. Vocês ainda fazem o melhor café do mundo”.

(Extraído do livro "Meninos, eu vi", de Juca Kfouri, editoras DBA/Lance!)

Por Juca Kfouri às 13h11

04/01/2006

Repito: a Azzurra mereceu a vitória no Sarriá

Ah, Sarriá! É claro que rever Sarriá não passa impunemente.

E revi. E escrevi no Lance! (em 15 de fevereiro) que a vitória italiana foi justa. E recebi muitas mensagens.

É curioso. As mensagens de apoio, muito mais do que imaginei, são todas de gente que era madura em 1982. As de crítica, todas de quem tinha onze ou doze anos à época.

Um leitor chegou a escrever que eu estava contrariando tudo o que ele “ouvia” falar do jogo.

Pois eu era maduro, estava lá e tinha na memória uma partida diferente da que foi.

Talvez porque, como me escreveu tio Alberto Helena Jr., aquela seleção não pudesse ser avaliada apenas por um jogo, e sim pelo conjunto da obra.

Obra que, se teve uma vitória arrumada pela arbitragem diante da União Soviética (Luizinho fez dois pênaltis claríssimos não-marcados), teve exibições magníficas contra as fracas Escócia e Nova Zelândia e contra a fortíssima Argentina, numa tarde em que Valdir Peres fez três defesas fundamentais.

Ora, a Itália só tinha empatado na primeira fase, marcando dois gols em três jogos diante de Polônia, Peru e Camarões, e ganhado, bem, da Argentina, em sua estréia na segunda etapa. A própria imprensa italiana estava enfurecida, tanto que os jogadores da Azzurra nem falavam com os jornalistas.

Acontece que, acostumados a olhar para o próprio umbigo, nos esquecemos de que a Itália havia batido a campeã mundial Argentina (que, portanto, enfrentou o Brasil desesperada, de moral baixo). E de que, depois da brilhante vitória no Sarriá, ela passaria por cima da Polônia (com quem havia empatado na primeira fase e que, com Zmuda, Lato, Boniek e Szarmach, acabou em terceiro lugar, à frente da França de Amoros, Trésor, Tigana, Giresse, Genghini, Rocheteau e, sobretudo, Platini).

Ou seja, ter empatado com a Polônia não desmoralizava ninguém – e mesmo a seleção de Camarões, já com Milla, saiu invicta da Espanha, porque também empatou seus três primeiros jogos.

Finalmente, a Itália bailou sobre a Alemanha na decisão, 3 a 1 com direito a pênalti desperdiçado pelo exuberante Cabrini, coisa que também vi, no Santiago Bernabeu, estádio do Real Madrid.

No segundo tempo, quando saíram os quatro gols, os alemães quase não tocaram na bola e só diminuíram no fim do jogo.

Por tudo isso, apesar da aparente heresia com o time de Telê Santana, é que não me aflijo ao ser acusado de revisionismo em relação à Copa do Mundo de 1982.

Repito o que escrevi no Lance!: aquele time tinha seis jogadores maravilhosos (Leandro, Júnior, Cerezo, Sócrates, Zico e Falcão, escolhido como o segundo melhor da Copa, atrás de Paolo Rossi), mas foi inferior ao italiano no dia 5 de julho, diante de 44 mil pessoas.

E não era melhor do que os times de 1958, 1962 e 1970.

O que, é bom que se diga, não o desabona.

(Extraído do livro "Meninos, eu vi", de Juca Kfouri, editoras DBA/Lance!)

Por Juca Kfouri às 13h27

O Rei de Roma já desfilava majestade no Brasil

O campeonato brasileiro de 1979 se aproximava das semifinais, e o Palmeiras surpreendera o país ao sapecar um 4 a 1 no Flamengo de Zico, no Maracanã, com mais de 112 mil torcedores.

O time de Telê Santana parecia encantado e fazia despontar um volante chamado Mococa, ex-juvenil de futebol guerreiro, um estilo que Amaral faz lembrar.

A inesperada vitória palmeirense levou a imprensa paulista à loucura, e, na quarta-feira seguinte, quando o alviverde receberia o Internacional para a primeira das partidas semifinais, o Jornal da Tarde teve a coragem de estampar como manchete: “Mococa ou Falcão?” A heresia teria um preço, porque a resposta viria à noite, serena, soberana, com a classe de quem não merecia certas comparações.

Cerca de 62 mil torcedores foram ver o Palmeiras de Mococa contra o Inter de Falcão, que estava invicto.

Faltando pouco mais de dez minutos para terminar o primeiro tempo, um clima de euforia tomou conta do estádio: Baroninho fez 1 a 0, e o time sem estrelas do Palmeiras deu a entender que repetiria a façanha de três dias antes.

Mas Jair, de fora da área, empatou no começo do segundo tempo e esfriou o otimismo, retomado logo depois por Jorge Mendonça, que botou os paulistas na frente outra vez.

Falcão ainda não havia sido proclamado Rei de Roma, coisa que aconteceria pouco tempo depois.

Mas, aos dezenove minutos, subiu mais do que Beto Fuscão e empatou novamente a partida. Mais do que isso, ele sobrava em campo, comandando o Inter com tal categoria e tal gana que a torcida calou-se, admirada com o que via.

O empate já estava de bom tamanho para os gaúchos, que receberiam o Palmeiras para o segundo jogo, no Beira-Rio.

E foi exatamente nisso que todos os comuns pensaram. Os comuns.

Paulo Roberto Falcão, no entanto, jamais teve nada de comum.

E continuou a comandar seu time, a se entender com Batista, com Jair e com Mário Sérgio. E a mandar o time à frente, certo de que a vitória era possível.

Pois, seis minutos depois de ter empatado, ei-lo novamente dentro da grande área palmeirense para fazer o terceiro e definitivo gol de uma noite mágica.

A manchete do jt estava mais do que respondida, como o próprio jornal, no dia seguinte, fez questão de deixar bem claro, saudando o craque colorado em letras garrafais.

Um empate no domingo seguinte (1 a 1) levou o Inter às finais diante do Vasco, que também se curvou: 2 a 0 no Rio, 2 a 1 em Porto Alegre, resultados que deram ao Colorado o único título invicto da história do campeonato brasileiro.

E Falcão foi reinar na Itália e conduzir a Roma ao título que não obtinha desde 1942.

(Extraído do livro "Meninos, eu vi", de Juca Kfouri, editoras DBA/Lance!)

Por Juca Kfouri às 13h26

03/01/2006

A ditadura não é mais forte do que o amor de um pai

Vivíamos os anos de chumbo, ditadura militar, Garrastazu Médici no poder, terror instalado.

Na noite de 7 para 8 de setembro de 1971, um grupo de mais de vinte homens armados com metralhadora invadiu o apartamento em que morávamos, minha mulher e eu, na rua Iguatemi, em São Paulo.

E nos levaram para a rua Tutóia, onde ficava o DOI-Codi e funcionava a tétrica Operação Bandeirantes. Dois amigos, colegas da Faculdade de Ciências Sociais da usp, já estavam detidos, um deles selvagemente torturado.

Enquanto esperava a minha vez de ser interrogado – e para disfarçar e tentar mostrar que não tinha nada a ver com o que eles queriam saber –, eu perguntava sobre os jogos daquela noite entre Corinthians e Coritiba, no Parque Antarctica, e Vasco e Palmeiras, no Maracanã, pelo campeonato brasileiro.

Eu, então, trabalhava na editora Abril, no Dedoc, o departamento de pesquisa jornalística, no atendimento à revista Placar.

Mas aqueles animais não sabiam de nada. (O Coritiba ganhou de 3 a 2, e o Palmeiras, de 1 a 0.)

Fomos soltos no meio do dia 8, depois de uma madrugada de terror, e nossa vida tinha de continuar normalmente. Estudar, trabalhar, combater a ditadura, viver.

No domingo, dia 11, o Corinthians recebeu o Vasco no Parque Antarctica.

Almocei na casa de meus pais, naturalmente muito assustados com os acontecimentos, e me despedi para ir ao campo, como sempre fazia aos domingos.

Para surpresa geral, meu pai, que havia décadas não ia a um estádio, levantou-se imediatamente de sua poltrona predileta e anunciou que me acompanharia, porque estava “com vontade de ver esse jogo”. Tentei demovê-lo. O domingo prometia chuva, e eu sabia que, na verdade, ele apenas não queria que eu andasse sozinho pela cidade. Em vão. E lá fomos os dois.

Não aconteceu nada de especial na partida, a não ser um lance em que Andrada, goleiro do Vasco, pegou uma bola na risca da grande área e o árbitro marcou toque – que Rivellino transformou no único gol da vitória corintiana.

Choveu muito, para meu desconforto, por ver o velho maravilhosamente solidário e inteiramente ensopado.

Mas aquele domingo ficou inesquecível pela demonstração silenciosa e companheira que, enfim, nem era necessária da parte de um pai sempre presente.

E porque, também, dois animais farejadores do DOI-Codi tomaram a mesma chuva, três degraus acima de onde vimos o jogo, provavelmente sem nem gostar de futebol, como meu pai e eu.

(Extraído do livro "Meninos, eu vi", de Juca Kfouri, editoras DBA/Lance!)

Por Juca Kfouri às 11h27

Após 42 bons anos de futebol, um jogo nunca visto

Tinta anos de jornalismo, pelo menos 42 de futebol bem vividos, e de repente, não mais, um jogo nunca dantes visto.

Um jogo, não. Foi uma epopéia.

Uma epopéia que o mundo inteiro deveria ver ao vivo e em cores e, depois, rever todos os dias.

Uma história que começou patética e terminou heróica.

Porque a cortada de Júnior Baiano prenunciava uma noite catastrófica para o Vasco.

O segundo gol do Palmeiras, logo em seguida, parecia a confirmação da hecatombe.

E o terceiro, no finalzinho do primeiro tempo, confirmava que, mais que a derrota, haveria humilhação.

Ninguém imaginava, porém, que o primeiro ato de uma tragédia, às vezes, é apenas a abertura de uma jornada inesquecível.

A segunda parte seria para valer, para sempre. Com sangue, suor e lágrimas.

O pontapé escandaloso dado por Fernando em Euller, dentro da área do Palmeiras, foi inexplicavelmente ignorado pela arbitragem.

Então, Juninho Paulista pensou: “Se pontapé não é pênalti, o que será?” E se jogou na área para ver o que acontecia.

O árbitro marcou pênalti, e Juninho gostou. Gostou tanto que se jogou de novo, para ver se a história se repetiria.

Repetiu-se, em gênero, número e grau,

Novo pênalti, nova cobrança de Romário, novo gol.

O Baixinho já tinha garantido o recorde como maior artilheiro vascaíno numa só temporada, com 53 gols. Só que queria mais.

O 3 a 0 tinha virado 3 a 2, no mínimo um placar honroso.

Mas quem estava ali, no Parque Antarctica lotado, atrás de um resultado simplesmente digno? Daí, o árbitro medíocre expulsou injustamente Júnior Baiano de campo, e, coisa rara, Romário errou.

Errou maravilhosamente, porque a bola acabou nos pés do endiabrado Juninho Paulista, que empatou. Os pênaltis estavam garantidos, e, nos pênaltis, o Vasco ganhava de 2 a 1.

Mas quem estava ali para disputar a Copa Mercosul nos pênaltis? Nem Viola, nem os Juninhos, nem o Baixinho.

Romário se colocou pela direita da área, a área que ele conhece como ninguém no mundo, embora num lado que ele freqüenta pouco, se comparado ao esquerdo.

E, depois de uma sucessão de lances equivocados, onde a bola achou de parar? Exatamente no lado direito, isto é, nos pés de quem é sinônimo de gol.

Pois Romário não se fez de rogado.

Com a frieza dos grandes artilheiros, ele marcou o 64o gol em 2000, o quarto do Vasco, o da taça.

Ou melhor: o gol que fez dos 4 a 3, no último dia 20 de dezembro do milênio, um resultado inesquecível.

(Extraído do livro "Meninos, eu vi", de Juca Kfouri, editoras DBA/Lance!)

Por Juca Kfouri às 11h25

02/01/2006

Faltava um, e o Doutor fez. Com precisão cirúrgica

Era uma vez um jogador de futebol alto, magro e feio.

Atendia pelo nome de Sócrates e filosofava em português.

Não era artilheiro, a não ser quando precisava.

Como em 1983, quando seu time tentava o bicampeonato paulista, em plena polêmica em torno da chamada Democracia Corintiana, um movimento libertário e generoso que nascera no Parque São Jorge.

Ao Corinthians coube enfrentar o Palmeiras nas semifinais e o São Paulo nas finais, quatro jogos no estádio do Morumbi que reuniram nada menos que 355 196 pagantes, média de 88 799 por partida.

No primeiro jogo, sob marcação individual do palmeirense Márcio, Sócrates apenas conseguiu, já no segundo tempo, empatar o jogo em cobrança de pênalti.

Praticamente anulado pelo volante adversário, o Doutor limitou-se a dizer que aquele era um jogo de 180 minutos e que ninguém ainda tinha visto nada.

No segundo jogo, o esquema repetiu-se, a ponto de Sócrates levar Márcio até fora do campo, na frente da torcida corintiana, e apontá-lo para a massa como se quisesse mostrar o ridículo da situação.

Constrangido ou não, o que se sabe é que, aos 21 minutos do primeiro tempo, na única vez em que Márcio se distraiu, Sócrates fez o gol que valeu a vitória alvinegra e a vaga na grande decisão.

Imediatamente, Márcio foi substituído, mas já tinha feito o involuntário papel de bobo.

Era a vez do São Paulo. E, logo aos 33 minutos do primeiro tempo, num domingo de dezembro em que choveu canivete sobre o Morumbi, Sócrates construiu o marcador que o Corinthians sustentaria até o fim.

Três jogos, três gols do Magro, o mago Magrão.

Faltavam um. Aliás, faltava, não.

Ao Corinthians bastava empatar para ser bicampeão, ou seja, o 0 a 0 lhe dava o título.

Naquele tempo, fruto de muita insistência do Doutor, a torcida torcia no ritmo do time e não ao contrário, como fazia antes e faz agora.

Ninguém duvidava de que o alvinegro conseguiria o empate, e, quando bateu o 45o minuto do segundo tempo, o estádio, quase todo alvinegro, era um grito só de bicampeão, embora sem a animação do título conquistado com vitória ou, ao menos, com um berro de gol para desopilar.

Pois faltava um.

Aos 46, em jogada com Zenon, Sócrates fuzilou com precisão e fez 1 a 0. A festa foi tamanha que quase ninguém viu o grandalhão Marcão empatar, aos 48.

O Corinthians era bicampeão, a Democracia vencera outra vez, e o Doutor marcara dois mais dois dos quatro gols que valeram o título. Cirurgicamente.

(Extraído do livro "Meninos, eu vi", de Juca Kfouri, editoras DBA/Lance!)

Por Juca Kfouri às 11h00

Esse Tostão, não sei, não… Esse Tostão

Família toda reunida diante da tv em preto-e-branco, e a bola correndo nos gramados mexicanos.

Vivia-se um momento mágico do futebol, a Copa de 70, que consagraria a seleção brasileira como dona definitiva do troféu Jules Rimet, disputado havia quarenta anos.

Uma estréia é sempre nervosa, e coube aos brasileiros enfrentar os tchecos, com quem já tinham decidido a Copa de 62, no Chile.

Eles saíram na frente, e, vez por outra, tocando rapidamente na bola, aparecia a extraordinária figura de Tostão no vídeo.

Era o único momento que parecia interessar à velha tia libanesa, que mal falava o português. Sem que ninguém lhe desse a menor atenção, ela se limitava a resmungar, para si mesma: "Esse Tostão, não sei, não… Esse Tostão…" Os tchecos foram batidos por 4 a 1, e vieram os ingleses, últimos campeões mundiais.

E, cada vez que Tostão aparecia, a tia repetia: "Esse Tostão, não sei, não… Esse Tostão…" Num jogo inesquecível, e numa jogada desse "Tostão, não sei, não… Esse Tostão…", maravilhosamente compartilhada com Pelé e finalizada por Jairzinho, os brasileiros ganharam de novo, 1 a 0.

Depois foi a vez dos romenos, 3 a 2 para o Brasil, e a tia insistia em sua ladainha misteriosa.

Contra o Peru, já pelas quartas-de-final, Tostão fez dois gols, sempre acompanhados pela frase que irritava alguns, divertia outros e não interessava à maioria dos parentes.

Valia mesmo era comemorar os 4 a 2 no time dirigido por mestre Didi.

A semifinal, contra o Uruguai, foi de matar do coração. Só se falava em 1950, e, entre o primeiro gol celeste e o terceiro brasileiro, pouco se ouviu, mas se ouviu a cantilena sem fim da tia libanesa:
"Esse Tostão, não sei, não… Esse Tostão…" Então, chegou o grande dia, o dia da finalíssima, contra a Itália.

Quem ganhasse ficava com a taça, Itália bicampeã em 1934/8, Brasil bicampeão em 1958/62.

Houve sobrinho que ameaçou enforcar a tia se ela não parasse com aquilo, mas, durante, ninguém despregava o olho do espetáculo que a tv transmitia, na consagradora goleada de 4 a 1.

E a velha tia lá, a falar.

Jogo terminado, festa instalada, uma das últimas imagens mostrava Tostão praticamente nu, só de sunga, despido pelos torcedores.

O que deu à tia libanesa a derradeira chance de soltar, e aí numa gostosa exclamação, o seu "Esse Tostão, não seu, não… Esse Tostão!…". Foi então que uma alma piedosa virou-se para ela e perguntou: "Tia, por que você passou a Copa inteira implicando com o Tostão?"

E ela, angelicamente, respondeu: "Esse Tostão?! Esse patrício, lê. Olha a carinha dele, olha a carinha dele".

(Extraído do livro "Meninos, eu vi", de Juca Kfouri, editoras DBA/Lance!)

Por Juca Kfouri às 10h59

01/01/2006

Comparem Maradona a Mané. E a Pelé o que é de Pelé

Quem viu Pelé e Maradona não pode ter dúvida sobre quem foi o melhor jogador do século no mundo.

Quem não viu, mas pelo menos leu, também.

Pelé não só foi muito mais completo do que o genial argentino, como ganhou muito mais títulos e fez muito mais gols.

Agora, quem viu Garrincha e Maradona até pode ter alguma dúvida.

Assim como don Diego em 1986, no México, Mané também carregou uma seleção nas costas para dar-lhe um título mundial em 1962, no Chile.

E, malabarismo por malabarismo, sei não, a resposta é mesmo difícil.

Na verdade, pesquisas não-científicas, como essas pela Internet, sempre podem ser manipuladas.

Basta que um dos interessados mobilize seus aficionados e - pronto! - são cometidas injustiças históricas, como, por exemplo, a recente pesquisa da revista IstoÉ, que elegeu Ayrton Senna o esportista brasileiro do século.

Do ponto de vista de quem faz a pesquisa, seja uma publicação, seja a Fifa, até vale o resultado sem sentido, pela polêmica que causa. Mas só por isso.

Eleger Pelé não dá manchete, tamanha a obviedade, embora ele vá ganhar também essa.

O único atleta do mundo que pode ser comparado ao Rei é Michael Jordan, por tudo que fez em sua extraordinária trajetória.

Mas o astro do Chicago Bulls leva a desvantagem de praticar um esporte bem menos popular que o amadíssimo futebol.

Essas pesquisas, aliás, são mesmo muito engraçadas.

Tanto que, se for feita uma para eleger o maior piloto de Fórmula 1 de todos os tempos, provavelmente a disputa ficará entre o francês Alain Prost e o brasileiro Ayrton Senna – embora o argentino Juan Manuel Fangio tenha sido ainda melhor que ambos, pois não só foi pentacampeão mundial, como era de um tempo em que o piloto valia mais que a máquina.

E estou dando aqui o exemplo de Fangio apenas para mostrar que não me move nenhum sentimento antiargentino - ao contrário.

Não só reconheço que ele que foi maior que o nosso Senna, como estou entre aqueles que acham o futebol da Argentina melhor que o do Brasil neste momento – assim como tenho convicção de que, se nos anos 40 não tivesse havido a interrupção da disputa da Copa do Mundo por causa da Segunda Guerra, os argentinos, no mínimo, também seriam tetracampeões (e digo isso apenas por ter lido, pois infelizmente não vi os craques portenhos da época).

Enfim, tenho certeza de que, mesmo na Argentina, quem viu Pelé e Maradona não tem dúvida sobre quem foi o melhor.

É uma coisa tão óbvia que até Ricardo Teixeira sabe a resposta e já se manifestou a respeito.

Brincadeira, afinal de contas, tem hora. A Pelé o que é de Pelé, e a Maradona o que é de Maradona (ou seria de Mané Garrincha?).

(Extraído do livro "Meninos, eu vi", de Juca Kfouri, editoras DBA/Lance!)

Por Juca Kfouri às 15h43

Até o Cristo vibrou com a festa do Fla de Zico no Maraca

Eram 150 mil bandeiras rubro-negras e 10 mil alvinegras num estádio superlotado. A tarde do dia 1o de junho de 1980 era feia, mas o Rio continuava lindo, assim como o engalanado Maracanã.

O Galo Mineiro jogava pelo empate para ser bicampeão brasileiro, e o Mengo precisava vencer para ser campeão pela primeira vez.

Zico de um lado, Reinaldo do outro – o autor, num Mineirão com 90 mil pessoas, do gol que dera a vantagem aos bravos mineiros.

Logo aos sete minutos, Zico, que era dúvida até poucas horas antes do jogo, fez um daqueles lançamentos que eram sua marca registrada, e Nunes abriu o marcador, para acabar de enlouquecer o estádio.

Mas a alegria durou pouco, pouquíssimo. Um minuto, exatamente um minuto.

Foi quanto durou para Reinaldo empatar e descontrolar o Flamengo, que tinha Raul, Júnior, Andrade, Carpegiani e Zico, em campo, e Cláudio Coutinho, no banco.

Porque o Atlético Mineiro, além do Rei, tinha João Leite, Luisinho, Chicão, Cerezo, Palhinha, Éder e, no banco, Procópio.

E passou a assustar o Flamengo em perigosos contra-ataques, até que… Até que Zico apareceu sozinho na área e, de virada, fez 2 a 1, quando faltava um minuto para acabar o primeiro tempo, para o intervalo que o Galo tanto queria, certo de que o Flamengo voltaria desesperado com o empate.

Enquanto os rubro-negros comemoravam, Palhinha deu a saída e quase empatou. Quase.

Pois no intervalo o Maracanã não parou de tremer um segundo. A massa cantava como para dar força aos seus gladiadores no vestiário. Havia uma energia impressionante no ar.

Mas o Galo voltou morto.

Logo de cara, Luisinho se machucou e foi substituído, e, muito pior, Reinaldo sentiu uma fisgada na coxa e começou a mancar. Parecia o fim. Não demorou para que a massa pegasse no pé dele, chamando-o de bichado, como era habitual.

Como Deus castiga quem os craques fustiga, frase de Armando Nogueira, mesmo capengando o Rei empatou o jogo aos 22 e encarnou na galera, sem piedade.

Tantas fez que, ao cair para pedir atendimento médico, foi injustamente expulso, acusado de fazer cera.

Com o título na mão, mas com dez contra onze, o Atlético foi submetido a um bombardeio incessante. Foram quinze minutos de blitz total, com o time jogando no gramado e a torcida jogando nas arquibancadas, freneticamente.

Até que Nunes, pela esquerda, aos 37, fez um golaço, um golaço improvável, quase sem ângulo, mas um golaço, e abriu o caminho para o pentacampeonato conquistado doze anos depois.

Saí do Maracanã na garupa de uma moto, direto para o Santos Dumont, levando fotos do jogo. O avião passou pelo Cristo Redentor, ele piscou o olho, divertido, e exclamou, discreto: “Mengo!” Em São Paulo, ainda foi possível ouvir os ecos da festa sem fim.

(Extraído do livro "Meninos, eu vi", de Juca Kfouri, editoras DBA/Lance!)

Por Juca Kfouri às 15h43

Sobre o autor

Formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999. Atualmente está também na ESPN-Brasil. Colunista de futebol de "O Globo" entre 1989 e 1991 e apresentador, desde 2000, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha.

Histórico