Blog do Juca Kfouri

Tabelinha com Juca

Segundas-feiras, às 15h

14/01/2006

Memórias da Copa América em que engolimos Zagallo

“Vocês vão ter que me engolir!”, ameaçou o técnico campeão da Copa América de 1997, na Bolívia, logo depois de a seleção brasileira ter batido os anfitriões na altitude de La Paz. Tinha sido o único jogo entre times titulares na competição, algo que Zagallo desdenhou ao fazer seu desabafo.

E tinha sido o jogo mais difícil, por causa da altitude, e não da Bolívia, um timeco. E pensei, na hora: “Imagine se ele ganhar o penta na França”. E pensei, ainda mais depois que soube que a ameaça era para o companheiro Juarez Soares e para mim: “Vou ter de pedir asilo na Noruega”. E como torci por esse asilo, um ano depois, em vão.

Mas aquela Copa América foi mesmo uma bobagem, como foi a seguinte, no Paraguai, quando o Brasil ganhou de novo jogando só contra times-reservas de outros países, ou contra uma equipe de novos, como na final diante do Uruguai, 3 a 0 para a seleção de Vanderlei Luxemburgo.

O time uruguaio, por sinal, tinha um atacante chamado Magallanes, o mesmo que fez o gol de pênalti, em Montevidéu, pelas eliminatórias, dias atrás. Como será outra bobagem esta agora, na Colômbia. E tomara que seja só uma bobagem – e não uma tragédia.

Mas cá estou a divagar. Retomemos o assunto que aqui nos trouxe, a Copa América da Bolívia, a do “vão ter que me engolir”, que virou marca registrada de Zagallo. Zagallo disse depois que seu desabafo tinha sido motivado porque queriam derrubá-lo da seleção para pôr Vanderlei Luxemburgo em seu lugar, obviamente um temor que ele devia estar sentindo, mas que carecia, pelo menos no que me diz respeito, de qualquer fundamento.

Em primeiro lugar, porque nunca tramei para tirar nem pôr ninguém na seleção. Não é meu papel. Em segundo lugar, basta pensar um pouquinho: se há alguém da imprensa com pouco prestígio na cbf, esse alguém, graças a Deus e ao meu trabalho, sou eu. Portanto, mais que uma ingenuidade, é uma grossa ficção imaginar que eu pudesse estar fazendo a cabeça do presidente da cbf (tentaremos o máximo possível evitar a citação do nome dele, pelo menos em minhas “memórias”).

Finalmente, ainda em 1996, maravilhado com aquele time do Palmeiras dirigido por Luxemburgo, escrevi uma coluna na Folha de S.Paulo em que defendia sua ida para a seleção com o seguinte título: “Luxemburgo – 2002”.

Achava que ele estava verde para 1998, sem saber que estaria verde também para 2002. E hoje me divirto imaginando o que passa na cabeça de Zagallo todas as vezes em que ele me vê criticando Luxemburgo e o elogiando na direção do Mengo. Acho que ele acredita que, de fato, o engoli, digeri e passei a gostar.

Vai ver até tem razão.

(Extraído do livro "Meninos, eu vi", de Juca Kfouri, editoras DBA/Lance!)

Por Juca Kfouri às 16h53

13/01/2006

Maurício, vibrando à frente de duas equipes campeãs

Esse Maurício que eu vejo, agora, na tv, levantando bolas para um lado e para o outro, simulando que vai dar aqui para dar ali, vibrando como menino no lugar mais alto do pódio, será o mesmo Maurício que vi, nove anos atrás, em Barcelona, levantando bolas para um lado e para o outro, simulando que vai dar aqui para dar ali, vibrando no lugar mais alto do pódio? Será o mesmo Maurício? Ora se foi, ora se é, ora se será.

 

O mesmo Maurício que, quando acabou a decisão diante da Holanda no imponente (e gelado pelo ar-condicionado a toda força) Palau Sant Jordi, saiu em desabalada carreira de obstáculos, pulando grades e cadeiras, barreiras e monitores de tv, até encontrar, quase no ponto mais alto do ginásio, Bebeto de Freitas, comentarista da Globo, e fez uma candente declaração de amor: “Eu não mereço o que você fez por mim. Eu não mereço. Eu te amo pra cacete, eu te amo pra cacete”, para, abraçados, chorarem pra cacete.

 

Passado o transe, Maurício desceu tudo de novo para receber sua medalha de ouro olímpico, a primeira do Brasil em esportes coletivos, e ninguém conseguiu saber dele o motivo de tanta efusão. O jeito foi perguntar para Bebeto, que, modesto, também se recusou a explicar.

 

Depois, Maurício explicaria, e até hoje me lembro de ver (a cada vez que José Roberto Guimarães, o inesquecível técnico daquele sexteto inesquecível, pedia tempo na quadra) Maurício procurar Bebeto com os olhos lá em cima e trocar com ele estranhos sinais que Bebeto jurava serem fruto da minha imaginação.

 

O fato é que o time brasileiro demoliu um a um seus oito adversários naquela magistral epopéia catalã. Perdeu apenas três sets (para Cuba, para os Estados Unidos e para a ex-União Soviética, a cei), sempre sob o inconfundível grito de guerra da torcida brasileira, aquele “Ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, em cima, embaixo, puxa e vai”, tão contagiante que até o irrequieto diretor de cinema americano Spike Lee não resistiu, justamente na partida diante dos Estados Unidos. “Quando vi aquela festa, pensei: ‘Estou na torcida errada’. Vesti uma camisa amarela e aderi.” Era mesmo impossível não se juntar ao frege brasileiro numa Barcelona iluminada.

 

Clima que contagiou até o centro de imprensa quando os campeões olímpicos foram para o estúdio da Globo durante o Fantástico e de lá saíram, às três da madrugada, improvisando um cordão de carnaval, deixando perplexos todos os que ainda trabalhavam para encaixotar os equipamentos, porque a festa havia acabado.

 

“Bebeto é um pai. Tudo o que eu sou devo a ele. Ele sempre me deu muita força, muito esporro, broncas que me fizeram ser o jogador que sou. E eu o procurava, sim, durante os jogos. Era para ganhar um reforço espiritual. É ele no céu e o Zé Roberto na quadra”, enfim me disse Maurício.

 

Tudo bem. Um no céu, outro na quadra. E o Bernardinho, agora, Brasil outra vez campeão da Liga Mundial ao derrotar a Itália, o único adversário que, por sinal, Bebeto de Freitas temia em 1992 - qual é o lugar dele?

 

É o mesmo de Maurício, no coração da gente.

 

(Extraído do livro "Meninos, eu vi", de Juca Kfouri, editoras DBA/Lance!)

Por Juca Kfouri às 11h54

O dia em que vi o Rei chorar

Que Pelé é chorão, todo mundo sabe e não é de hoje. Uma de suas primeiras fotos, uma de suas fotos mais famosas, é exatamente aquela na qual ele aparece chorando feito criança no ombro do goleiro Gilmar, logo depois da final contra a Suécia, na Copa do Mundo de 1958. Aliás, ele era uma criança mesmo, nem tinha completado dezoito anos.

 

Nestes dias, ele voltou a chorar, ao se lembrar do pai e ídolo Dondinho, ao se recordar não só de ter visto o velho em prantos depois que a seleção brasileira perdeu para o Uruguai na Copa de 50, mas também de sua promessa, cumprida oito anos depois, de ganhar uma Copa para consolá-lo. Chorou na frente de todo mundo, em Curitiba, ao participar de uma das sessões públicas da cpi do Futebol.

 

Pois eu também já fiz o Rei chorar. Em 1993, fui ao interior do Equador, Cuenca, para entrevistá-lo para a revista Playboy. Ele estava comentando a Copa América para a Rede Globo e aceitou me receber lá, naquela que seria a primeira entrevista repetida pela revista em dezoito anos de vida, não por acaso com ele, que sempre justifica quebrar qualquer regra. Sim, porque existia uma regra: quem fosse entrevistado por Playboy jamais voltaria a sê-lo, algo que a edição brasileira resolveu desobedecer ao atingir a maioridade, entre outras coisas porque a entrevista dada por Pelé, treze anos antes, tinha sido decepcionante, fraca mesmo.

 

E lá fui eu. Estávamos ainda no aquecimento quando lhe perguntei se fazia tempo que não chorava. Imediatamente, ele respondeu que não, que fazia dois dias. “Por quê?” “Porque eu liguei para casa, para saber de todos, e minha mãe me disse que o Zoca, meu irmão, estava chateado. Nós tínhamos discutido dias antes. E minha mãe me pediu para eu ligar para ele para fazer as pazes e começou a chorar ao telefone, me dizendo que eu agüentava tanta gente, que não estava certo eu brigar com meu irmão, e eu também me emocionei e comecei a chorar ao telefone e…”

 

Bem, ele começou a chorar ali na minha frente. E dizia: “Que merda, que merda, mas eu sou assim mesmo, me desculpe”. E eu, que então não tinha a menor intimidade com ele, só respondia: “Tudo bem, numa boa, pode chorar, porque quem chora não tem enfarte…”

 

Cronometrei. Ele chorou durante quase dois minutos. Quando terminou, era como se fosse um queijo derretido. Era enfiar a faca e tirar.

 

E deu para tirar tanto que, naquele dia, ele denunciou corrupção na cbf e fez diversas revelações. Por causa da entrevista, foi processado por Ricardo Teixeira e tirado do sorteio da Copa de 94 por João Havelange, presidente da Fifa.

 

Começava ali, na palavra do Rei, um clima que redundaria, sete anos depois, na instalação das cpi da cbf e do Futebol. Mas essa é outra história, que fica para outra vez.

 

(Extraído do livro "Meninos, eu vi", de Juca Kfouri, editoras DBA/Lance!)

Por Juca Kfouri às 11h53

12/01/2006

Uma voz pela liberdade ecoa no estádio da morte

O avião veio do Rio, parou em São Paulo e seguiu para Santiago. Estava bem vazio. A seleção brasileira ia jogar um amistoso contra a chilena, como preparativo para as eliminatórias da Copa de 86. Era maio de 1985, e o Chile ainda vivia sob a feroz ditadura do general Augusto Pinochet.

 

O jogo seria no estádio Nacional, recentemente reaberto depois de ter servido durante anos como cárcere, palco de tortura e de fuzilamento de presos políticos. No avião, vindo do Rio, encontro João Saldanha, o único. Sento-me ao seu lado, e engatilhamos mil conversas.

 

João era para ser ouvido. E eu não me cansava de ouvi-lo. Eis que, quando estávamos para pousar, ele bota a mão no meu braço e me diz, paternal, como às vezes gostava de fazer: “Olha aqui. Eu te conheço, e você me conhece. Você sabe que não sou de ter medo de nada, mas vou te avisar: a ditadura aqui não é mole. Eles somem com as pessoas, sejam elas quem forem, venham de onde vierem. Não vá bancar o herói e falar mal desses caras na tv porque eles vão estar ouvindo”.

 

Achei graça e o tranqüilizei. Na noite anterior, ao ir me despedir de meu pai, ouvi dele coisa parecida: “Cuidado lá, filho. Não vá se meter a balão”. Eu já tinha três filhos, 35 anos, não era nenhuma criança e tinha razoável experiência política, ex-militante da ALN (grupo de resistência armada à ditadura brasileira) e do Partido Comunista Brasileiro, eterno partido do nosso João Saldanha.

 

Chegamos ao estádio, o narrador do sbt, Osmar de Oliveira, abre a jornada e me chama para os “primeiros comentários”. Sem me dar conta, tamanha a emoção de estar naquele lugar sinistro num momento em que, no Brasil, já vivíamos a reconstrução democrática, engato uma primeira e vou: “O estádio Nacional de Santiago desperta duas sensações antagônicas. Foi aqui que, em 1962, a seleção brasileira liderada por Mané Garrincha ganhou o bicampeonato mundial”. E engato uma segunda: “Mas foi aqui também que, em 1973, a ditadura chilena assassinou e prendeu milhares de patriotas que se insurgiram contra o golpe militar que derrubou o presidente socialista, democraticamente eleito, Salvador Allende”.

 

Osmar de Oliveira, para quem Saldanha havia recomendado “Segura esse cara”, me olha com olhar de espanto. E engato a terceira: “Aqui morreram patriotas como o compositor Victor Jara, que, antes de ser fuzilado, teve os dedos das mãos quebrados pelos militares chilenos para não poder tocar para os prisioneiros”. Por fim, a quarta: “Aqui morreram e estiveram presos muitos exilados brasileiros também”. E devolvo a palavra para Osmar.

 

Nem bem passados dois minutos, ele me cutuca. Na porta de nossa cabine, um cidadão de terno e cara de poucos amigos estaciona com ares de quem vai ficar. E fica até o fim do jogo. E nos acompanha ao jantar, ao hotel e ao aeroporto, às seis da matina do dia seguinte. João Saldanha não falava nada, só me fuzilava com o olhar, mas sem arredar pé de perto de mim o tempo todo.

 

Ao chegar em São Paulo, quando fui me despedir, ele abriu um sorriso e disse marotamente: “Parabéns. Você é o meu orgulho”.

 

(Extraído do livro "Meninos, eu vi", de Juca Kfouri, editoras DBA/Lance!)

Por Juca Kfouri às 10h21

Evaristo, o técnico da seleção demitido nos céus

Já vi técnico de seleção brasileira ser demitido dentro de avião. Mas em aeroporto, como aconteceu com Emerson Leão, foi a primeira vez.

 

Em 1985, era técnico da seleção o bom Evaristo de Macedo. Senhor de si e disposto a renovar, Evaristo assumiu a seleção no lugar de Edu Antunes, o irmão de Zico e extraordinário jogador do América do José Trajano e do Giulite Coutinho - por sinal, então presidente da cbf. Eduzinho não deu certo, e Evaristo assumiu para ficar apenas seis jogos, nos quais a seleção ganhou da Colômbia, do Uruguai e da Argentina, mas perdeu para a mesma Colômbia, para o Peru e para o Chile. E foi exatamente após a derrota para o Chile, em Santiago, 2 a 1 (jogo que me recorda outro episódio, dessa vez com João Saldanha, que contarei no próximo capítulo), que Evaristo caiu. No ar.

 

Apesar de ter lançado jogadores como Branco, Bebeto e Casagrande na seleção, a personalidade forte de Evaristo levou-o a se chocar com a imprensa, e as derrotas para a Colômbia e para o Chile, seguidas, às vésperas das eliminatórias, causaram a sua substituição, no trecho entre Santiago e São Paulo.

 

No avião estava, também, o sucessor dele, Telê Santana, que havia sido convidado na madrugada anterior, episódio que conto no prefácio do livro Fio de esperança, na ótima biografia do mestre Telê escrita por André Ribeiro (São Paulo, Gryphus, 2000).

 

Já era alta a madrugada quando tocou o telefone no quarto que dividíamos Telê e eu, ambos comentaristas do sbt. Ele atendeu e conversou monossilabicamente com seu interlocutor, um pouco por ter sido acordado, outro pouco, desconfiei, por não querer que eu soubesse com quem falava e qual era o teor da conversa.

 

Tão logo desligou, perguntei: “Era o Giulite, Telê?”

 

“Vira para o outro lado e dorme”, respondeu.

 

“Ele te convidou para assumir a seleção? O sbt perdeu um comentarista?”, insisti.

 

“Cala a boca e me deixa dormir”, devolveu.

 

Só que não dormiu. Virava para lá e para cá, até o amanhecer. No dia seguinte, voltamos todos, a seleção e os jornalistas. Alguns ficaram em São Paulo, eu entre esses, e outros seguiram para o Rio, como o presidente Giulite Coutinho, Evaristo de Macedo e Telê Santana. Evaristo desceu demitido, Telê, assumido, e Giulite, com o dever cumprido, elegantemente.

 

Bem diferente do que se fez com Emerson Leão. Mas não há mesmo comparação entre aquela cbf e a atual.

(Extraído do livro "Meninos, eu vi", de Juca Kfouri, editoras DBA/Lance!)

Por Juca Kfouri às 10h20

11/01/2006

Meninos, eu confesso: não vi a seleção. Ou vi e dormi

Dia desses, a seleçãozinha do Brasil jogou contra o Canadá, no Japão, às cinco da matina, e eu não vi.

 

Meninos, eu não vi!

 

Não vi, como não havia visto o jogo contra o Verdy Tokyo, na semana anterior.

 

Nunca tinha me acontecido antes. Poder ver e preferir não assistir a um jogo da seleção brasileira. Nunca!

 

É verdade que, recentemente, houve outro jogo que a tv nem sequer transmitiu, mas, aí, não me coube culpa alguma: nem que quisesse eu poderia ter visto.

 

Tenho uma desculpa, que já expus: não considero que o time que Leão levou à Copa das Confederações seja a seleção brasileira, como os americanos só consideram o “time dos sonhos” a verdadeira seleção de basquete deles, nascida da NBA, e ponto.

 

Mas muita gente achou que fui relapso, que era minha obrigação ver ou que, ao menos, eu deveria ter gravado. Será mesmo?

 

Bobagem.

 

Vi os “melhores momentos” do jogo contra o Canadá. Foram tão poucos que, imagino, se tivesse levantado às cinco horas da madrugada para ver o jogo, teria dormido de novo, sem perdão.

 

E, pior, se tivesse gravado, teria dormido a qualquer hora que visse aquela coisa monótona, sem graça.

 

Mas, aberto às críticas, sensível à opinião dos leitores, tratei de ver o jogo contra o Japão.

 

Continua...

Por Juca Kfouri às 11h25

...Continuação

Tinha visto o Guga, no domingo, às seis da manhã, e vi a seleçãozinha às sete e meia, na segunda-feira. E suportei bem o primeiro tempo. Com bravura.

 

Até achei que o Falcão e o Cléber Machado estavam com má vontade, talvez por terem acordado ainda mais cedo, para estarem lá tão animados, barba feita, elegantes, mesmo que sem o tradicional paletó.

 

Afinal, foram tantos os gols perdidos que, ao menos, era possível reconhecer a construção das oportunidades etc.

 

O fato é que não dei nem uma cochiladinha nos primeiros 45 minutos.

 

Já no segundo tempo…

 

Meninos, eu dormi.

 

Foi só o Arnaldo César Coelho começar a contar quantas vezes o ataque brasileiro ficava impedido para eu adormecer.

 

Funcionou como o efeito carneirinhos, da nossa infância mais tenra.

 

Acordei às tantas com a substituição do Washington pelo Magno Alves.

 

Espantoso!

 

Falcão e Cléber tinham sido, isto sim, muito generosos, educados e finos como sempre, mesmo que sem o tradicional paletó.

 

Apesar de todos os pesares, prometi a mim mesmo que veria o jogo diante da França, às oito e meia da quinta-feira, quase um horário civilizado.

 

Porque você, leitor, manda, e, de fato, pode ser que um desses jogos me motive, um dia, a escrever alguma reminiscência para esta página de recordações.

(Extraído do livro "Meninos, eu vi", de Juca Kfouri, editoras DBA/Lance!)

Por Juca Kfouri às 11h25

Final contra um menor não é igual. Na vitória e na derrota

Decisão é decisão, certo? Errado. Decidir contra um pequeno não é como contra um grande, um igual. Porque não há rivalidade, só a humilhação de uma derrota.

 

Verdade que o Corinthians, por exemplo, só saiu da fila de 22 anos diante de um menor, a Ponte Preta.

 

E foi uma festa como raras vezes se viu no mundo do futebol.

 

É claro que, aí, o adversário era o que menos importava, até porque o adversário não era um ou outro time, era o destino, a sina, o trauma.

 

Mas, dois anos depois, o Corinthians voltou a ser campeão paulista diante da Ponte.

 

Palmeirenses, são-paulinos e santistas diziam que era o único jeito de o Corinthians ser campeão. Azar do Palmeiras, que em 1986, depois de o Corinthians ter sido bicampeão (82/3) em cima do São Paulo, perdeu a decisão, no Morumbi lotado, para a Internacional de Limeira, o primeiro clube do interior a ter sido campeão paulista – e quando o Palmeiras já estava havia dez anos na fila, o último título vencido exatamente numa decisão contra outro clube interiorano, o XV de Piracicaba.

 

Agora, de novo, o Corinthians pegou um clube menor para decidir, e a festa foi muito mais pela reação do time do que por outro motivo.

 

Bom é ganhar como o Flamengo ganhou do Vasco, três vezes seguidas sem ser favorito, contra tudo e contra todos.

 

Ou como o Fluminense, ao impedir o título no centenário do Mengo, com aquele gol de barriga de Renato nos derradeiros minutos.

Continua...

Por Juca Kfouri às 11h18

...Continuação

 

Mas pior é perder o título para o menor, como o Inter perdeu, em casa, num 0 a 0 com o Juventude, em 98, ou como o Grêmio perdeu do mesmo modo para o Caxias, em 2000.

 

E foi para evitar tal humilhação que Almir prometeu, em 66, que o Bangu não daria a volta olímpica contra o Flamengo depois da final do estadual.

 

O Palmeiras ainda não tinha sido superado pela Inter, nem o Inter pelo Juventude, nem o Grêmio pelo Caxias. Mas Almir sabia das coisas.

 

O Bangu tinha melhor time, fazia uma campanha fabulosa de quinze vitórias, dois empates e uma derrota. Mais importante: no intervalo da decisão, ganhava de 2 a 0. Então, o Pernambuquinho fez a promessa.

 

Depois que Paulo Borges fez o terceiro gol bangüense para calar de vez o Maracanã perplexo, ele escolheu o centroavante Ladeira como vítima e partiu para cima, provocando uma das maiores confusões já vistas no estádio.

 

Ao final das escaramuças, cinco rubro-negros e quatro bangüenses expulsos impediram que o jogo pudesse recomeçar, e o Bangu foi proclamado campeão.

 

Para desespero de Almir, no entanto, depois de tudo serenado e com ele devidamente retirado para o vestiário, o Bangu desfilou com a taça no gramado do maior do mundo. Mas não foi a mesma coisa.

 

(Extraído do livro "Meninos, eu vi", de Juca Kfouri, editoras DBA/Lance!)

Por Juca Kfouri às 11h17

10/01/2006

O Rei já trocou os pés pelas mãos. E foi rei no gol

Certos momentos do futebol são únicos, históricos.

 

A derrota brasileira na final da Copa de 50 é um deles.

 

O primeiro treino de Garrincha no Botafogo, em 1953, é outro.

 

Pelé pegando no gol é mais um.

 

E, se de fato todas as pessoas que dizem ter testemunhado a vitória uruguaia no Maracanã lá houvessem estado, a história contabilizaria não 200 mil pessoas no estádio, mas no mínimo o dobro.

 

Do mesmo modo, se todos que dizem ter visto o Mané dar o baile que deu em seu primeiro dia de Botafogo (com direito a bola entre as pernas de Nílton Santos) tivessem estado mesmo em General Severiano, o antigo estádio alvinegro seria maior do que o próprio Maracanã. Bem maior.

 

Não vi nem uma coisa nem outra, mas conheço pessoas que juram ter visto ambas, mesmo que fossem pouco mais que bebês em 1950, como eu era.

 

Mas vi Pelé pegar no gol, no Pacaembu, contra o Grêmio, pela Taça Brasil de 1963, num jogo sensacional, extraordinário.

Continua...

Por Juca Kfouri às 11h01

...Continuação

 

Ele já havia substituído o goleiro do Santos – Lalá, no caso – quatro anos antes, contra o Comercial de Ribeirão Preto. Lalá se machucou, e o Rei jogou os últimos quinze minutos no gol, na vitória santista por 4 a 2.

 

Mas essa partida contra o Grêmio foi especial. O Santos perdia de 3 a 1, e Pelé, com três gols, virou o jogo e garantiu o time na final, que também venceria, contra o Bahia.

 

O grande Gilmar dos Santos Neves foi expulso, aos 41 minutos do segundo tempo, e Pelé vestiu a camisa negra de goleiro.

 

Fez, pelo menos, uma defesa difícil, ao se atirar nos pés de um atacante gremista.

 

A antiga revista Manchete, cujo texto fala em duas grandes defesas, tem a foto, a cara de Pelé amassada na canela do gremista.

 

O Pacaembu estava cheio no domingo à tarde.

 

Mas essa eu vi. E tem mais: tenho até hoje as duas páginas da Manchete, que permitiram reproduzir a linda foto.

 

(Extraído do livro "Meninos, eu vi", de Juca Kfouri, editoras DBA/Lance!)

Por Juca Kfouri às 11h00

Mestre Didi sabia usar os pés até para dar voadoras

Mestre Didi se foi feito uma folha seca e deixou ainda mais solitária a gloriosa estrela do Botafogo.

 

Didi, que era mesmo de uma elegância ímpar, era capaz também de virar bicho. Que o digam os uruguaios no campeonato sul-americano de 1959, na Argentina.

 

Foi assim:

 

O Brasil já havia vencido a Copa do Mundo na Suécia, um ano antes, e superado, portanto, aquilo que Nelson Rodrigues chamou de complexo de vira-latas, a síndrome dos derrotados adquirida na Copa de 50, no Maracanã, exatamente diante dos uruguaios.

 

Mas, na Suécia, a seleção só enfrentara europeus: Áustria, Inglaterra, União Soviética, País de Gales, França e Suécia.

 

Mas, mesmo que a façanha fosse única (jamais um time havia vencido fora de seu continente, feito que permanece singular até hoje), os uruguaios desdenhavam da seleção e diziam que os brasileiros tremiam diante dos sul-americanos.

 

O pior era que a estréia naquele campeonato parecia lhes dar razão: o Brasil não passou de um empate com o Peru, 2 a 2, gols dele, Didi, e de Pelé.

 

Um empate que custaria caro.

 

Em seguida, a seleção passou facilmente pelo Chile, com dois gols de Pelé e outro dele, Didi.

 

Veio a Bolívia e tomou de 4 a 2, com mais um gol dele, Didi, outro de Pelé, e os dois restantes do centroavante Paulinho Valentim, companheiro de Didi no grande Botafogo dos anos 50 e 60.

 

E chegou a hora do Uruguai.

Continua...

Por Juca Kfouri às 10h55

...Continuação

Já antecipo que o Brasil ganhou de 3 a 1, os três gols de Paulinho Valentim.

 

Mas mais importante do que a vitória na bola foi a vitória no pau. Isso mesmo.

 

Com o perdão da expressão, um pouco chula e antiesportiva para o que se pretende como memória de passagens edificantes, ganhamos aquela partida no pau e na bola.

 

Explodiu um baita sururu, fruto do desentendimento entre o capitão uruguaio, William Martínez, e - adivinhe quem? - o irrequieto Almir, o Pernambuquinho.

 

Brigaram os 22, mais os reservas, exceção feita ao técnico brasileiro, Vicente Feola, que, reza o folclore, ficou sentado com seu imenso corpanzil em cima de um pobre uruguaio.

 

Naquela noite, em Buenos Aires, os uruguaios aprenderam, definitivamente, a respeitar os brasileiros.

 

E Didi ficou famoso pelas tesouras voadoras que distribuiu no peito ou nas costas de uns quatro inimigos – a ponto de um deles tirar uma foto para mostrar a marca em forma de V dos cravos das chuteiras do Mestre, bem entre suas asas.

 

Depois veio a decisão com a Argentina, 1 a 1, gol de Pelé, resultado que interessava aos donos da casa, campeões.

 

Mas Didi não era mais apenas o Príncipe Etíope.

 

Era também o Rei das Voadoras.

 

(Extraído do livro "Meninos, eu vi", de Juca Kfouri, editoras DBA/Lance!)

Por Juca Kfouri às 10h54

09/01/2006

Política e futebol, tabelinha que nunca funcionou

Política e futebol raramente se deram bem juntos. E ACM poderia ter poupado os jogadores do Bahia de homenagem, digamos assim, tão espontânea como a do último dia 30 de abril.

 

Mas, é verdade, ninguém resiste a uma demagogia, à tentativa de faturar o prestígio dos heróis esportivos, dos campeões.

 

Sempre foi assim.

 

E sempre foi em vão.

 

Juscelino Kubitschek recebeu os campeões mundiais de 58 e nem por isso escapou de morrer injustamente cassado pelo golpe militar de 64.

 

Com João Goulart se deu o mesmo, ele que recebeu os bicampeões mundiais em 62.

 

E o que dizer do general Garrastazu Médici, que montou o maior palanque para os tricampeões em 70, ele que gostava de aparecer com radinho de pilha no ouvido, o presidente do futebol? Ninguém se lembra mais dele como tal, mas sim como o ditador do período mais repressivo da nossa história.

 

Mesmo recentemente, em 94, deu no que deu, com Ricardo Teixeira, após o tétrico vôo da muamba, ameaçando jogar fora as condecorações, entregues por Itamar Franco horas antes, se a alfândega não liberasse tudo.

 

O fato é que jogador não gosta, se sente usado, mas não tem peito para recusar.

 

Continua...

Por Juca Kfouri às 11h14

... Continuação

 

Mas o torcedor também confunde as coisas, às vezes. Durante a Copa de 70, por exemplo.

 

A esquerda brasileira torceu contra, ou quis torcer contra, a seleção de Carlos Alberto, Clodoaldo, Pelé, Tostão, Gérson, Jairzinho e Rivellino. “Cada gol do Brasil atrasa em dez anos a revolução”, se dizia.

 

Bobagem. A ditadura já roubara uma porção de coisas de todos nós, não era possível que lhes concedêssemos ainda nos roubar a nossa paixão pelo futebol, a emoção de ouvir o hino, o respeito pela bandeira verde e amarela.

 

E, por mais que muitos tentassem, como não explodir no gol de Jairzinho contra a Inglaterra? Ou no de Clodoaldo contra o Uruguai? Ou nos de Gérson e Carlos Alberto na final diante da Itália? Eu me lembro de que meus colegas da Faculdade de Ciências Sociais, na USP, não entendiam como é que eu podia torcer pelo Brasil, por aquele Brasil de slogans fascistas tipo “Ame-o ou deixe-o”. E eu explicava que torcia não pelo país dos slogans, mas pelo Brasil do futebol que me encantava desde criança.

 

E que eu confiava na sabedoria do povo brasileiro, que não confundiria nem Pelé com o general Médici, nem Tostão com o delegado Fleury. Como, é bom que se diga, não confundiu e, sempre que pôde, se manifestou contra a ditadura, fosse nas urnas, fosse nos estádios de futebol.

 

Porque quem ganhou o tetra foram os jogadores, não foram nem os presidentes democraticamente eleitos, nem o ditador que usurpou o poder.

 

Em tempo: ACM é torcedor do Vitória, nada tem a ver com os novos campeões do Nordeste, e a maior parte dos jogadores do Bahia nem vota na Boa Terra.

 

Dos titulares, apenas Bebeto Campos é baiano.

 

(Extraído do livro "Meninos, eu vi", de Juca Kfouri, editoras DBA/Lance!)

Por Juca Kfouri às 11h13

O humor e o drama do futebol nas frases de dois mitos

Se o futebol brasileiro tem frasistas do porte de Gentil Cardoso e Neném Prancha (além de João Saldanha, provavelmente autor de boa parte das sacadas atribuídas a Prancha), o futebol inglês tem também um genial autor de máximas que, se não bastasse, morreu como herói do Liverpool, time que pegou na segunda divisão inglesa e levou ao título europeu.

 

Seu nome: Bill Shankly.

 

É desse escocês a famosa frase: “O futebol não é uma questão de vida ou de morte. É muito mais importante do que isso”.

 

Filósofo da bola, Shankly era um observador da alma humana e do comportamento do torcedor e, também, era capaz de tiradas que valiam por mil livros, como, por exemplo, a que dedicou ao pobre goleiro do Liverpool que levou um gol de empate do Arsenal, no último minuto, pelo meio das pernas.

 

O treinador, que depois viraria manager do Liverpool, esperou que o vestiário ficasse vazio para se aproximar do goleiro, a quem avisara para não ir embora sem antes falar com ele.

 

Tão logo chegou perto do mortificado arqueiro do time da cidade dos Beatles, Shankly ouviu uma óbvia autocrítica.

 

“Eu devia ter fechado as pernas”, balbuciou o goleiro, todo envergonhado.

 

E ouviu o que não queria.

 

“Não, meu filho” discordou o técnico. “Sua mãe é que devia ter fechado as dela.”

 

Continua...

Por Juca Kfouri às 11h06

... Continuação

 

E, como uma história puxa outra e como a de Shankly, evidentemente, eu não vi, conto agora uma que envolve não a mãe de alguém, mas o filho de outro grande treinador, também bom de filosofia, mestre Oswaldo Brandão. E essa eu vi.

 

Do humor ao drama.

 

Brandão tinha sido o comandante do Corinthians campeão dos centenários, em 1954, último título alvinegro antes do grande jejum.

 

De volta em 77, leva o Corinthians às finais contra a Ponte Preta.

 

No primeiro jogo, Corinthians 1 a  0, gol de Palhinha, com a cara e a coragem.

 

No segundo, o Palha se machuca, e a Ponte acaba ganhando, 2 a 1.

 

Na véspera do terceiro jogo, Brandão se encontra com Palhinha saindo do departamento médico do Parque São Jorge, mancando.

 

“E então, Palha, vamos para o jogo?”

 

“Ah, seu Brandão, acho que não vai dar. Dói até para andar”, responde o craque.

 

“Mas que sorte a sua, Palha! Quer dizer que dá para andar?! E a minha dor, que nem consegue sair da cama…”, reagiu o treinador.

 

Palhinha entendeu.

 

Era uma referência ao filho de Brandão, Márcio, então já em estado terminal, vítima de câncer.

 

Palhinha, de fato, não entrou em campo. Mas jogou como nunca junto ao grupo, para que a vitória não escapasse e fosse dedicada ao velho mestre.

 

Assim foi feito.

 

(Extraído do livro "Meninos, eu vi", de Juca Kfouri, editoras DBA/Lance!)

Por Juca Kfouri às 11h04

08/01/2006

Uma aula de carreras e futebol depois do baile azul

De um lado, o Cruzeiro de Raul, Nelinho, Piazza, Zé Carlos, Jairzinho, Palhinha e Joãozinho, um timaço. Do outro, o River Plate de Fillol, Passarella (que não jogou), Perfumo, Merlo, J. J. López, Sabella, Luque e Más. Outro timaço.

 

Em disputa, a Taça Libertadores da América de 1976, primeiro jogo no Mineirão, dia 21 de julho.

 

E lá fomos nós, João Rath e eu. Ele, jornalista experiente, o maior gênio que conheci. Sabia tudo de tudo, conhecia tango como ninguém, declamava Graciliano Ramos de cor e salteado, datilografava com os pés sobre a mesa e sem parar de conversar (e sem cometer um erro sequer), além de ser capaz de escrever com as duas mãos ao mesmo tempo num quadro e juntar as palavras à perfeição. Era, também, apaixonado por cavalos e tinha medo de avião. Quando decolamos, percebi que ele suava e tratei de sossegá-lo em seguida:

 

“Meu tio que é piloto diz que só há dois momentos mais perigosos num vôo: a decolagem e a aterrissagem. Tanto que, em regra, avião só cai perto do aeroporto”. “Pronto!”, reagiu. “Você acaba de me botar mais dois medos. Eram as únicas horas em que eu ficava tranqüilo no avião.” Chegamos em cima da hora ao Mineirão e vimos um espetáculo. O trio Jairzinho-Palhinha-Joãozinho estava particularmente inspirado.

 

O primeiro tempo nem tinha acabado e já estava 3 a 0, um gol de Nelinho, batendo falta sofrida por Palhinha, e dois do próprio Palhinha. Terminada a goleada, 4 a 1, a direção do Cruzeiro ofereceu um jantar para os argentinos, na sede campestre do clube.

 

Então, insuflado pelo Rath, testemunhamos um encontro histórico, de duas das maiores raposas do futebol: Zezé Moreira, o técnico do Cruzeiro, e Labruna, ex-craque e técnico do River. Dois homens que dividiam as mesmas paixões: futebol e cavalos, como Rath. Quando Zezé quis saber o que Labruna achara do jogo, o argentino desconversou: “Estou cheio de falar de futebol. Preciso te contar do potro que tenho em Buenos Aires, que está quase para estrear”.

 

Começaram a falar de jóqueis e carreras (como os argentinos chamam as corridas de cavalo). Zezé contou que certa vez, no México, ganhara uma bolada enorme só fazendo a média dos palpites de cinco jornais diferentes. Até que o futebol voltou à mesa.

 

Zezé defendeu que Friedenreich fora melhor do que Pelé, “fruto muito da comunicação”. Labruna se lembrou de mencionar seus contemporâneos Zizinho e Ademir. Então, Zezé quis saber quais jogadores do Cruzeiro tinham agradado a Labruna.

 

“O sete, o cinco e o dez”, respondeu, citando os números de Jairzinho, Palhinha e Joãozinho.

 

O argentino que mais impressionara Zezé tinha sido Luque, atacante que viria a ser campeão mundial pela Argentina dois anos depois.

 

E Rath e eu ouvimos uma aula de carreras e futebol.

 

(Extraído do livro "Meninos, eu vi", de Juca Kfouri, editoras DBA/Lance!)

Por Juca Kfouri às 11h28

A Justiça Divina se fez em dez letras no Morumbi

Corria o ano de 1971. Era abril e fazia frio no Morumbi, uma tarde de chumbo, cinzenta, daquelas em que nada pode dar certo.

Para piorar, o Corinthians vinha mal no campeonato paulista e enfrentaria o Palmeiras de Leão, Luís Pereira, Dudu, Ademir da Guia, César, uma verdadeira seleção.

A Fiel foi ao Morumbi mais por solidariedade que por outro sentimento qualquer. Já que a catástrofe era inevitável, afundássemos todos juntos.

O primeiro tempo não ia nem pela metade, e César já havia feito 2 a 0. O primeiro gol aos 27 segundos de jogo, um dos três mais rápidos na história dos gols sofridos pelo Timão. A goleada era inevitável e só não estava desenhada em cores mais fortes porque o Palmeiras preferiu brincar, dar olé, para delírio dos verdes. A massa alvinegra, que chegara desconfiada, resolveu que uma goleada era até admissível, mas que não veria calada o seu time ser desmoralizado. E tratou de recepcioná-lo com comovente ardor na volta para o segundo tempo.

Mesmo que aos trancos e barrancos, o time soube corresponder ao carinho, e o centroavante Mirandinha diminuiu o placar. O Palmeiras tratou de jogar sério. Só que, de repente, não mais, o menino Adãozinho, revelação dos juvenis que acabara de entrar, acerta um tirambaço de mais de quarenta metros que Leão não pode defender. O Morumbi enlouquece, e a tarde fria chega a mais de cinqüenta graus. Para gelar em seguida. Na saída do gol de empate, o ataque palmeirense tabela até que Leivinha faz 3 a 2. O empate era só para dar o gostinho de que era possível um milagre, pensou o mais otimista dos corintianos. E nem ele tinha visto nada, ainda.

O Corinthians dá a nova saída e recua a bola para o volante Tião, um médio alto, frio, quase um estilista, mas que, definitivamente, não era de fazer gols. Pois Tião pega aquela bola e vai. Alguém pede na direita, ele finge que vai passar e vai. Agora, o pedido vem do meio, ele olha como se fosse lançar e… vai. Da esquerda sai quase uma ordem, só que Tião não ouve e vai. Vai parar, acredite se quiser (e tem teipe para provar, ainda em preto-e-branco, que é melhor), vai parar dentro do gol de Leão, com bola e tudo. Uma loucura! Três gols em menos de um minuto e meio, incluído aí o tempo para as devidas comemorações.

[…] Àquela altura, por todas as circunstâncias, o empate não seria um desastre para o Palmeiras e deveria ter sabor de vitória para o Corinthians. Só que o jogo não estava para condicionais. “Seria”, “deveria”, isto é coisa de jornalistas. A única condição que todos aceitavam era ganhar. Estava escrito para ser assim, e assim foi. No ultimíssimo minuto, é claro.

M-i-r-a-n-d-i-n-h-a, eis, pausadamente, alto e bom som, o nome da Justiça Divina, do redentor dos humilhados. M-i-r-a-n-d-i-n-h-a fez 4 a 3, e Deus apitou o fim da partida.

(Extraído do livro Corinthians, paixão e glória, de Juca Kfouri. São Paulo, dba, 2002; 2a edição.)

Por Juca Kfouri às 11h22

Sobre o autor

Formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999. Atualmente está também na ESPN-Brasil. Colunista de futebol de "O Globo" entre 1989 e 1991 e apresentador, desde 2000, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha.

Histórico