Blog do Juca Kfouri

Tabelinha com Juca

Segundas-feiras, às 15h

20/01/2006

É melhor parar com o “Meninos, eu vi”, antes de começar a inventar casos sobre o Manga

Esta é a minha 52a coluna na nossa revista do Lance! e a primeira de uma nova etapa, pois resolvi pôr fim à série “Meninos, eu vi”.

 

As cinqüenta colunas que a compuseram vão virar livro, a ser lançado no ano que vem.

 

E não me cobre nem erro de conta nem mais casos como os cinqüenta anteriores (sim, cinqüenta, e não 51, porque uma das colunas foi dedicada a uma tola polêmica que não cabe nem no livro nem no espírito do “Meninos, eu vi”).

 

É claro que, em 31 anos de carreira, tenho mais de cinqüenta casos para contar, coisa que só não continuo a fazer por duas razões: primeiramente, como diria o eterno presidente do Corinthians, Vicente Matheus, porque a esmagadora maioria das histórias diz respeito exatamente ao alvinegro (eu era chefe e escolhia o jogo que queria fazer…), e ficaria repetitivo. Corinthians, Corinthians e mais Corinthians.

 

Em segundo lugar, há alguns casos que já começam a ficar nebulosos em minha cabeça, meio ficção, meio realidade, já não sei se sobrevive a lenda ou a verdade, e aí é melhor parar – antes que alguém me desminta, com razão, e fique chato para o memorialista. Porque eu mesmo já vi essas coisas acontecerem com outros companheiros. Pessoas que, sem má-fé, viraram personagem de histórias que lhes contaram, de coisas que não viveram.

 

Em 1982, por exemplo, em Sevilha, durante a Copa da Espanha, me contaram uma piada. Um jornalista brasileiro entrou numa loja da Iberia, na hora do almoço, para marcar uma passagem, e a gentil senhorita que o atendeu disse ser impossível naquele momento, horário da siesta. Ele, então, lhe perguntou o que ela fazia no balcão, e ela respondeu que lá estava apenas para fazer atendimento telefônico. Eis que ele saiu da loja, foi a uma cabine de telefone público bem em frente e marcou sua passagem, vendo a mesma moça atendê-lo amavelmente.

 

Pois bem. Contei a piada para o saudoso Sandro Moreyra, colunista do Jornal do Brasil. Gozador emérito, Sandro não teve dúvida; publicou a piada como se fosse verdade e me botou como personagem. A coluna de Sandro Moreyra sempre terminava com saborosas historietas da bola, muitas verdadeiras, outras tantas que ele mesmo criava e nas quais punha como protagonista ou o impagável goleiro Manga, ou Garrincha.

 

Anos depois, num programa de televisão, ao comentar o episódio com outro jornalista, amigo comum do Sandro (que já havia morrido) e meu, ele, para minha surpresa, saiu-se com esta: “Piada nada, Juca. Isso aconteceu sim, mas foi comigo!” Fiquei com cara de tacho e, é óbvio, toquei em frente, porque sigo a boa política de respeitar cada louco e sua mania.

 

Enfim, vai que começo a contar que estive no Maracanã em 1950, ou que vi o primeiro treino de Garrincha no Botafogo, em General Severiano, ou que estava na rua Javari, no campo do Juventus, no dia em que Pelé marcou seu gol mais bonito…

(Extraído do livro "Meninos, eu vi", de Juca Kfouri, editoras DBA/Lance!)

Por Juca Kfouri às 14h47

19/01/2006

E o negro Viola fez o gol que deu o título no centenário da Abolição

As pessoas ouvem o que querem e guardam ainda mais apenas o que desejam ouvir.

 

Sou testemunha e objeto disso - no caso, para minha alegria.

 

No sábado anterior ao jogo entre Guarani e Corinthians pela decisão do campeonato paulista de 1988, fiz uma reportagem para o Jornal Nacional sobre as duas faces da mesma moeda, a moeda do campeão. Numa face, Evair, do Guarani, o goleador bugrino, que tinha tudo para fazer o gol do título, dentro do Brinco de Ouro, em Campinas, artilheiro do campeonato com dezenove gols. Apresentei Evair e, ao final, para ficar bem seguro, lembrei de Neto, que havia feito, de bicicleta, o gol do jogo anterior, no Morumbi, 1 a 1, que dava ao Guarani a vantagem de jogar pelo empate em 120 minutos finais.

 

A outra face era a de Everton, do Corinthians, um guerreiro branco bem ao gosto da Fiel. E, ao final, para ficar bem seguro, falei de Viola, que, na verdade, tinha acabado de garantir sua escalação no treino da tarde, no Parque São Jorge, no lugar de Edmar, que havia sido convocado para a seleção brasileira.

 

Viola ainda não tinha vestido nenhuma vez a camisa nove do time principal do Corinthians e iria estrear como titular justamente na decisão, depois de haver entrado apenas duas vezes (contra o Palmeiras e contra o Guarani, no domingo anterior) na equipe. E eu disse, sabe-se lá movido por qual inspiração: “Mas quem sabe o gol do título do centenário da abolição da escravatura possa vir dos pés do negro Viola, garoto de apenas dezenove anos”.

 

O Corinthians, como se sabe, já era o Campeão dos Centenários em São Paulo, por ter sido campeão paulista em 1922 e em 1954, centenários da Independência e da fundação de São Paulo, razão pela qual a Fiel acreditava piamente que o título de 1988 também viria.

 

Pois aos quatro minutos da prorrogação, num 0 a 0 em que o Guarani tivera as melhores chances, eis que Viola (que seis anos depois, noutra prorrogação, pela seleção brasileira contra a Itália, quase repetiu a dose na final da Copa do Mundo dos Estados Unidos), desvia um chute sem direção de Wilson Mano e dá o vigésimo título estadual ao Corinthians.

 

Até hoje, há quem me pare na rua para lembrar que eu acertei a previsão ou para dizer que ninguém entende mais de futebol do que eu, porque peguei na mosca etc. e tal.

 

Na verdade, como contei, não fiz previsão alguma, e, da mesma maneira que apresentei Evair, Neto e Everton como possíveis heróis do título, fiz a referência a Viola, o único negro entre os quatro escolhidos.

 

Mas vá convencer alguém disso.

 

Aliás, nem quero…

 

(Na ocasião, quem acertou mesmo a previsão foi o publicitário Washington Olivetto, que, no mesmo JN de sábado, garantiu: “Amanhã, a sinfônica corintiana vai executar o Guarani”.).

 

(Extraído do livro "Meninos, eu vi", de Juca Kfouri, editoras DBA/Lance!)

Por Juca Kfouri às 11h25

Fui ver o time do Telê, o avião ia explodir, e nem seríamos citados

O vôo da Varig-Cruzeiro seguia normalmente em direção a Santa Cruz de la Sierra, Bolívia, local da partida entre bolivianos e brasileiros pelas eliminatórias da Copa de 86.

 

A seleção brasileira de Telê Santana, com Júnior, Falcão, Zico, Cerezo, Sócrates, estava a bordo, assim como Pelé, então comentarista da Band.

 

De repente, um incômodo cheiro de queimado toma conta do avião, mas, como nenhum dos comissários deu a menor bola para a coisa, resolvemos fingir que não era nada mesmo.

 

Ao pousar em Santa Cruz, no entanto, noto a presença de três caminhões vermelhos na pista. E pergunto ao comandante, que estava na porta do avião para se despedir dos ilustres passageiros que trouxera e que esperaria para levar de volta, se aqueles caminhões eram dos bombeiros e se tinham alguma coisa a ver com o cheiro que havíamos sentido. Ele ri, diz que não houve cheiro algum e que os caminhões eram de combustível, não de bombeiros. “Aqui, os caminhões de combustível são vermelhos”, encerra o papo.

 

Não havia por que duvidar.

 

A seleção brasileira ganha por 2 a 0, um gol de Casagrande e um gol contra, sem maiores problemas, como era habitual, e tomamos o caminho de volta, logo após o jogo.

 

De repente, uma forte turbulência. O alto-falante pede para que se afivelem os cintos e roga, especialmente para Júnior, Sócrates e Casagrande, que parem com a batucada e voltem aos seus lugares, no que não é atendido. Uma, duas, três vezes, o pedido é feito, até que os três resolvem atender, sob protesto.

 

Nessas alturas, a turbulência era particularmente chata, e me lembro de ter comentado com o companheiro que viajava ao lado. “O pior é que, se o avião cair, nem vamos ter o nome publicado. Já pensou?

As manchetes vão destacar a morte de Pelé e da seleção. No máximo, num pé de nota, poderá aparecer: ‘Morreram também os jornalistas fulano, sicrano e beltrano’.”

 

Tão logo passa a turbulência, eis que ressurge forte, indisfarçável, o tal cheiro de queimado. E um dos comissários começa a abrir apressadamente cada uma das tampas dos compartimentos de bagagem. O que procurava? O fogo, um extintor? Nessas horas, tudo passa na cabeça.

 

Como passou pela cabeça que um incêndio nas alturas não tem solução. É explosão certa. Na minha cabeça, otimista, ele procurava por um extintor de incêndio, e vejo que ele o encontra e volta correndo na direção da cabine de comando. Assim que o cheiro some, ele volta, como se nada tivesse acontecido. Perguntamos onde era o fogo, e ele ri. “Que fogo?” “Ora, por que você pegou o extintor?”, alguém pergunta. “Que extintor, amigo? Aquilo era um tubo de oxigênio, porque o doutor se sentiu mal por causa da turbulência.”

 

O “doutor” era mesmo um doutor, Ricardo Vivacqua, que teve uma crise de falta de ar, lá na frente, na classe executiva, onde viajava o comando da CBF. E quase nos matou a todos do coração, não fosse ele o cardiologista da Seleção.

 

(Extraído do livro "Meninos, eu vi", de Juca Kfouri, editoras DBA/Lance!)

Por Juca Kfouri às 11h21

18/01/2006

Só Ayrton Senna para tirar um ensaio da revista Playboy

Adriane Galisteu era apenas uma dessas meninas bonitas que seguram o guarda-sol para o piloto ficar no bem-bom nos GP da Fórmula 1. Pois ela foi vista por um dos olheiros da Playboy em Interlagos, durante o GP do Brasil, em março de 1993, e por módicos 5 mil dólares posou para um ensaio. Nua, é claro.

 

No mês em que o ensaio seria publicado sem nenhum alarde, eis que Ayrton Senna telefona para mim, que dirigia a revista à época. E pergunta se podia me pedir um favor.

 

O Brasil vivia um baixo-astral sem tamanho, logo após o impeachment de Fernando Collor, e das poucas alegrias que nós, brasileiros, tínhamos eram as vitórias de Senna, aos domingos pela manhã, com direito a uma volta com a bandeira nacional.

 

E eu respondi a ele: “Ayrton, você, o Pelé, Chico Buarque de Holanda e dom Paulo Evaristo Arns [que era o cardeal de São Paulo] não pedem favor neste país: vocês mandam. O que você quer que eu faça?” E ele, muito tímido, falando de Sintra, em Portugal, da casa do empresário Antônio Carlos de Almeida Braga, o Braguinha, me disse que estava namorando uma moça chamada Adriane e que ela tinha posado para Playboy, para seu desgosto. “Será que dá para não publicar o ensaio?”, perguntou.

 

“Já deu”, respondi. “Você quer que eu mande as fotos aí para você ou para seu escritório em São Paulo?” Não me lembro da resposta dele, apenas que chamei a pessoa responsável pela edição das fotos, pedi que me trouxessem todas, avisei que o ensaio não sairia e mandei as fotos para ele, numa boa, sem dúvida de que estava fazendo a coisa certa. Sorte de la Galisteu.

 

Dois anos depois, ela estava na capa de Playboy, em agosto de 1995, com um cachê que, suponho (eu saí da revista em 1994 – e nem se soubesse exatamente o valor eu contaria), tenha sido umas sessenta vezes maior que o anterior.

 

Tempos depois do sucesso em Playboy, vazou, pela própria modelo, a história do pedido de Senna, embora de maneira incorreta. Adriane contava que o namorado ciumento havia comprado as fotos de volta, o que seria até justo, pois a revista havia pagado por elas. Mas, de fato, nem isso aconteceu. Senna propôs mesmo repor o valor gasto, e eu fiquei, erradamente, sem jeito de aceitar. Acabei sendo generoso com um dinheiro que não era meu, era da editora Abril.

 

Mas, afinal, o que eram 5 mil dólares diante do que Adriane recebeu depois? Esse, sim, foi um prejuízo histórico. Inenarrável. Agora, enfim, narrado, com detalhes, por escrito.

 

Tenho certeza de que, depois de ler estas poucas linhas, à guisa de memórias a direção da Abril dará mais uma vez graças a Deus por ter se livrado de mim, jornalista comum, negociante para lá de desastrado! E de que Adriane Galisteu mais uma vez sorrirá, agradecida.

 

De nada.

 

(Extraído do livro "Meninos, eu vi", de Juca Kfouri, editoras DBA/Lance!)

 

 

Por Juca Kfouri às 11h49

A tarde em que Falcão foi canonizado numa discutida capa de revista

A redação da revista Placar era divertida, como devem ser as redações (redações aborrecidas fazem publicações aborrecidas, dizem os espanhóis), e muito participativa.

 

Do mensageiro ao diretor, todos davam palpites. (Havia lá, por sinal, um mensageiro de nome Pedro Álvares Cabral. Na primeira vez em que ele foi ao aeroporto buscar umas fotos, a orientação sobre o passageiro que as trazia mudou enquanto ele se dirigia para Congonhas. E foi impossível convencer a moça do alto-falante para que ela chamasse Pedro Álvares Cabral ao balcão da companhia aérea. “Não adianta insistir”, ela repetia ao telefone. “Esse nome eu não chamo porque não sou boba.” A solução foi apelidá-lo de Vaguinho, e nunca mais tivemos problemas.)

 

Mas o ambiente era tão gostoso que meus filhos adoravam ir comigo passar os domingos “trabalhando”. Numa chuvosa tarde de domingo, em outubro de 1985, Paulo Roberto Falcão estreou oficialmente pelo São Paulo contra a Internacional, em Limeira. Antes, havia enfrentado o seu Inter, amistosamente. Estreou e jogou bem. Antes mesmo que as fotos do jogo tivessem chegado à redação, a decisão estava tomada: Falcão seria a capa da revista naquela semana.

 

E, quando as fotos chegaram, então, não havia por que duvidar: o fotógrafo gaúcho Nico Esteves havia feito uma bela imagem de Falcão, braço esticado, indicador mostrando o caminho para seus novos companheiros.

 

Em volta da mesa de luz para escolha dos cromos, o diretor de redação, Carlos Maranhão; o redator-chefe, saudoso Guilherme Cunha Pinto; o editor de fotografia, Sergio Berezovsky; e este que vos fala debatiam qual deveria ser a chamada de capa, a manchete principal.

 

Um propôs que fosse “Falcão, o Rei do Morumbi”, alusão ao Rei de Roma. Outro preferia “Nas asas de Falcão”. E as sugestões se sucediam até que se ouviu uma voz de criança, do fundo da redação:

 

“São Paulo Roberto Falcão!”

 

Era uma chamada óbvia. E muito boa. E foi para capa.

 

Só conto o nome do santo, e não o do autor do, digamos assim, milagre, porque esse último não gosta que o pai babão o faça, acha que pega mal para quem, é claro, também virou jornalista.

 

Mas conto o episódio apenas para mostrar que em ambientes participativos até uma criança (André – epa! – tinha doze anos) sente-se à vontade para dar uma sugestão, um palpite, algo que vale para uma redação, para um time de futebol, para qualquer lugar que busque fazer as coisas bem e com alegria. A alegria que Falcão mostrava em campo, como poucos, ele, que era tão elegante que parecia jogar de terno e gravata, nas palavras de Juninho, ex-quarto-zagueiro da Ponte Preta, da seleção brasileira de 1982, do Corinthians etc., hoje técnico de futebol.

 

Naquela tarde, em Limeira, Falcão errou apenas seis passes, deu seis belos lançamentos e 35 toques certos na bola, apesar de estar ainda longe de sua forma ideal, cinco meses depois de ter sofrido uma cirurgia no joelho esquerdo. Como sei, como me lembro? Ora, recorri à coleção da revista.

 

(Extraído do livro "Meninos, eu vi", de Juca Kfouri, editoras DBA/Lance!)

Por Juca Kfouri às 11h45

17/01/2006

O dia em que descobri que o Verissimo é um mentiroso

Na Copa da Espanha, em 1982, um grupo formidável jantava quase diariamente em Sevilha, depois em Barcelona, depois em Madri. Luis Fernando Verissimo, Ruy Carlos Ostermann, Sérgio Cabral, João Ubaldo Ribeiro, Nelson Motta, Marcelo Rezende e eu. Com defecções e acréscimos, as noitadas se repetiram em Guadalajara, no México, quatro anos depois.

 

João Saldanha, por exemplo, às vezes dava o ar de sua graça, assim como o impagável Paulo Sant’Ana, do Zero Hora. Eram jantares intermináveis e inesquecíveis. Eu ficava rouco de tanto ouvir, de tanto rir, de tanto aprender. Cada um era melhor contador de casos do que o outro, e invariavelmente, ao fim dos jantares, Verissimo saía de seu mutismo e nos deliciava com suas histórias.

 

Uma bela noite em Guadalajara, Verissimo e eu nos encontramos no saguão do hotel, e, depois de muito termos esperado, nos demos conta de que havíamos sido abandonados. Ninguém apareceu. Preocupado com o mutismo do companheiro e com a longa matéria que teria de escrever ao voltar, propus que fôssemos a um restaurante perto do hotel, jogo rápido, a pé.

 

Verissimo também tinha de escrever sua coluna dominical e topou na hora. Lá fomos nós, calados, como convinha. Fui pensando em como começar uma conversa e, depois de pedir o jantar, perguntei, pedindo que fosse bem honesto, se ele acreditava no chavão que nos ensinaram desde criança, de que o trabalho é quase sempre 90% de transpiração e apenas 10% de inspiração (coisa que, no caso dele, não me parecia verdade mesmo!).

 

Monossilabicamente, Verissimo respondeu que sim, que tinha de se esforçar muito para escrever, que sofria no ato de redigir. Jantamos praticamente em silêncio. Nos despedimos nas portas de nossos quartos, parede a parede. Pus papel na máquina de escrever e fiquei contemplando aquele branco angustiante – embora as laudas nunca tenham sido propriamente brancas, mas, sim, amareladas.

 

Eis que, incontinenti, ouço um disparar de teclado no quarto ao lado. Era mesmo como se fosse uma metralhadora. Foi coisa de dez minutos ininterruptos, ao cabo dos quais pude ouvir o barulho de uma torneira aberta e da escova de dentes batida na pia. Dei um tempinho, bati na porta do quarto de Verissimo, e ele a abriu, já de pijamas.

 

Não tive dúvidas. Chamei-o de mentiroso e prometi que ele teria muita dificuldade para dormir, porque eu batucaria na máquina até umas quatro da matina. Ele tentou se desculpar, disse que não tinha mentido nada, que na verdade ficava tão calado porque vivia escrevendo mentalmente, razão pela qual, quando se sentava diante da máquina, o texto fluía com aparente facilidade.

 

Eu não acredito. E até hoje o tenho na conta de mentiroso. Genial mentiroso.

 

Escrevi até as cinco.

 

(Extraído do livro "Meninos, eu vi", de Juca Kfouri, editoras DBA/Lance!)

Por Juca Kfouri às 09h31

Saldanha e o policial português na fronteira com a Espanha

João Saldanha era um contador de casos insuperável. Ele era capaz de ficar horas contando suas aventuras pelo mundo, dentro e fora do futebol. E era impossível parar de ouvi-lo. Numa noite de sol brilhante em Sevilha, durante a Copa do Mundo de 1982, fomos juntos ver um espetáculo de música flamenca, num pequeno anfiteatro ao ar livre. Chegamos um pouco mais cedo, pegamos uma mesa razoavelmente longe do palco e pedimos uma cerveja para esperar o começo da função. Quando começasse, iríamos para mais perto.

 

Eis que João começa a contar as peripécias de uma excursão que fez como técnico do Botafogo em Portugal e Espanha. Divertido, com seu permanente ar de enfado, contou que o ônibus botafoguense chegou à fronteira portuguesa, vindo da Espanha, já madrugada alta. Para não incomodar os atletas, alguns em sono profundo, João pegou os 25 passaportes da delegação e desceu para entregá-los no posto policial lusitano, época das ditaduras de Salazar e Franco, em Portugal e Espanha.

 

Eis que o policial português pega a pilha de passaportes e confere um a um. A cada documento conferido, uma olhada desconfiada para João Saldanha. Ao término da verificação, o agente federal retoma a pilha e recomeça a olhar passaporte por passaporte. João fica firme, na dele, impassível, diante do circunspecto fiscal.

 

Ao contar o episódio, João repetia, documento por documento, os gestos do policial, que molhava o dedo nos lábios, folheava cada passaporte – e João olhava para mim como se eu fosse ele. Percebi que o espetáculo de música já estava no início enquanto João fazia o papel do português, que checava os passaportes pela terceira vez. Tive ímpetos de pedir a João que abreviasse o fim da história, mas não tive coragem.

 

E ele continuou, do primeiro ao 25o, folheando um a um, cada vez com direito a uma olhada desconfiada para o interlocutor. Finalmente, ao cabo da terceira inspeção, o policial vira-se para João e pergunta: “Como, raios, querem sair de Portugal se não têm o carimbo da entrada?” “Mas nós queremos entrar!”, responde João, apontando o ônibus, ainda dentro de território espanhol. Só então o policial cai em si e exclama: “Ora, raios, é que passei a tarde inteira no guichê de saída e agora estou a me confundir!” Incontinenti, ele pega os 25 passaportes, carimba com o visto de entrada, e, depois de quase uma hora de parada desnecessária, o Botafogo segue viagem.

 

Enquanto isso, no palco, os músicos e bailarinos agradeciam os aplausos da platéia entusiasmada. Mas João Saldanha valia muito mais que um show de música, que uma conferência de sábios ou que uma missa.

 

(Extraído do livro "Meninos, eu vi", de Juca Kfouri, editoras DBA/Lance!)

Por Juca Kfouri às 09h29

16/01/2006

Aviso aos navegantes

Juca Kfouri está em férias.

Volta no dia 23.

Por Juca Kfouri às 21h10

Histórias e histórias sobre o maior atleta do século

Mitos são feitos com façanhas e com lendas. Às vezes, as façanhas viram lendas. Outras vezes, lendas viram façanhas. É comum, também, que uma história verdadeira seja aumentada, embora nem precisasse. E não é raro, ainda, a apropriação de histórias não-vividas por quem as conta.

 

Por exemplo, o Sportv está com um maravilhosa série, chamada Nomes do Esporte. Belíssimos programas contando as histórias de Tostão, Zico e Pelé já foram ao ar. No documentário sobre o Rei, Galvão Bueno e eu contamos exatamente a mesma história. Ambos a contamos como testemunhas do episódio, e só um de nós a presenciou. Eu a conto exatamente como a descrevi para Playboy, em agosto de 1993, e contei para Bueno, em Cuenca, no interior do Equador.

 

O domingo, dia 20 de junho, foi dedicado ao Dia dos Pais no Equador, e Pelé acabou comparecendo a uma festa da família Barsala, dona de empresas em Cuenca. Eram cerca de vinte pessoas, de avós a bisnetos. Os mais velhos, é claro, honradíssimos com presença tão ilustre e inesquecível. Não sabiam como agradar o visitante, tarefa delicada mesmo, pois Pelé continua determinado a não beber nem antes nem durante nem depois das refeições – um licor de uísque, após o jantar, é o máximo que se permite. E Pelé ainda não tinha jantado. Eis que surge no colo do pai um garotinho com cara de quem tinha acabado de acordar. O mais jovem dos Barsala, Gian Carlo, o Gigi, olha para a única presença negra na sala dos avós, arregala os olhos, vira-se para o pai e pergunta: "Y la pelota, la pelota?" Os brasileiros que acompanhavam Pelé, e ele próprio, ficaram perplexos com a cena.

 

"Mas quantos anos tem o garoto?", era a pergunta inevitável. "Dois anos, o Gigi tem dois anos", foi a resposta. Um menino de dois anos, em Cuenca, no meio do mundo, como se associasse o Criador à criatura, liga imediatamente Pelé à bola! E ele parou de jogar há dezesseis anos!

 

Pois bem. Galvão Bueno não estava entre os brasileiros presentes à casa dos Barsala, nome que fiz questão de gravar, assim como o de Gigi, para que, mais tarde, ninguém me chamasse de mentiroso, como, aliás, também contei no documentário. E eis que nosso bom Galvão Bueno se incluiu na história, certamente sem nenhuma maldade porque não tem a menor necessidade de mentir ou inventar lorotas, bem ele que tem tanta coisa para contar.

 

Ocorre que os Barsala, como Galvão conta no documentário, cederam a casa deles para que Pelé e Galvão jogassem tênis durante a estada em Cuenca, ou seja, ele conhecia a família. Na noite do episódio, depois que saímos do casarão, jantamos juntos, Pelé, Galvão, um bando de brasileiros e eu.

 

Obviamente, a história foi contada a cada um que chegava. Galvão a incorporou a tal ponto que, na memória dele, a testemunhou.

 

(Extraído do livro "Meninos, eu vi", de Juca Kfouri, editoras DBA/Lance!)

Por Juca Kfouri às 10h59

Quem melhor do que Zico poderia guardar a taça?

A Copa União de 1987 até hoje é motivo de polêmica e de muita confusão. Há polêmica porque tem gente que não quer aceitar o óbvio, ou seja, que, dentro de campo, o Flamengo foi o campeão brasileiro daquela temporada. E confusão porque, com o passar do tempo, inventou-se que o Flamengo não cumpriu um regulamento aceito por todos – quando o regulamento que a cbf quis impor só foi publicado depois que a Copa União estava em andamento e jamais foi aceito pelo Clube dos Treze, que, ali, nascia cheio de idealismo.

 

Mas, se há polêmica e confusão, há, ainda, mistério. Afinal, que fim levou a Copa União, a taça em si? Estaria com o Flamengo? Não, não estaria, porque o Flamengo a devolveu quando começou o torneio de 1988, que também deveria ser Copa União, mas que acabou se desvirtuando por acordos entre os clubes e a cbf.

 

Mas eu sei onde está a taça. O Zico também sabe. Porque a Copa União está na casa dele, em sua sala de troféus. Ele a ganhou quando se despediu do Flamengo, em 6 de fevereiro de 1990, numa festa inesquecível no Maracanã, na mais bela despedida já acontecida nos campos brasileiros, estádio lotado, com direito a facho de luz na entrada do ídolo, raios laser assinando seu nome, hino e tudo o mais a que o maior ídolo da maior torcida do mundo tinha direito. A Copa União, por exemplo.

 

Zico a recebeu de minhas mãos, na única ação não-prevista da festa milimetricamente planejada. Foi uma surpresa para ele e para quase todos os organizadores da feérica cerimônia, com cerca de 100 mil torcedores que perguntavam, em coro: "Por que parou? Parou por quê?" Só o comandante da festa, o publicitário, amigo de infância de Zico e autor de um livro sobre o Galinho (Zico – uma lição de vida, Brasília, Offset, 1986), Marcus Vinicius Bucar Nunes, sabia.

 

O troféu, belíssimo, com quatro colunas gregas banhadas de prata que sustentam uma base sobre a qual repousa uma bola de mármore, criado pelo artista plástico são-paulino Carlos Fajardo, tem cinqüenta centímetros de altura e pesa doze quilos, daqueles, portanto, que capitão do time pode erguer sozinho, diferentemente das taças paquidérmicas feitas pelo país afora nos últimos tempos.

 

E o que é que eu tenho a ver com tudo isso? Ora, o troféu foi oferecido pela revista Placar, que então eu dirigia, razão pela qual tive a honra de pisar o gramado do Maracanã para entregá-lo a Zico, que ficou verdadeiramente surpreso: "O que é isso? O que você está fazendo aqui? Ninguém me avisou…" Tratei de responder rapidamente, porque Marcus Vinicius me concedera apenas um minuto para quebrar o cerimonial: "Galinho, a Copa União deveria simbolizar um marco na organização do nosso futebol. Como a cartolagem esculhambou tudo, ela é sua, símbolo do que há de melhor no Brasil. Muito obrigado por tudo". Ele me abraçou, pegou a taça e continuou a festa.

 

(Extraído do livro "Meninos, eu vi", de Juca Kfouri, editoras DBA/Lance!)

Por Juca Kfouri às 10h55

15/01/2006

Pois é isso, João Saldanha, nada mudou de lá para cá

O maior prêmio de minha carreira como jornalista, e lá se vão 31 anos, ganhei-o no dia 12 de agosto de 1987, dado pelo imortal João Saldanha. Uma coluna inteira dele no Jornal do Brasil, comentando um artigo meu em Placar. O título da coluna era ”Pois é isso, Juca”, e a tenho enquadrada, na parede de meu escritório.

 

Gostaria de reproduzi-la integralmente, mas, como o espaço não é suficiente, seguem alguns trechos que dão a medida de como nada mudou no pobre panorama de poder e desorganização em nosso futebol, até hoje às voltas com o calendário, com os campeonatos estaduais, com a corrupção.

 

“Peço licença ao Juca Kfouri para utilizar seus números do Placar que fazem a estatística de público dos campeonatos. Sentem na cadeira mais próxima para não cair de bunda no chão. Lá vai. Campeonato paranaense: 2448 pessoas por jogo. E o Onaireves (Severiano ao contrário) bota uma banca enorme. O gaúcho é melhor, e talvez o sr. Hoffmeister se orgulhe de seu resultado: 2942 pessoas por jogo. Oba! É massa. Deve ser exatamente por isso que o Grêmio e o Internacional a toda hora vendem um craque.

 

“O campeonato mineiro ganha do gaúcho: 3148. Fantástico! Acho que o Mineirão está superado. Deve ser construído outro estádio. Onde meter a enchente de massa que assiste aos jogos do campeonato mineiro? Ah… mas temos ainda Rio e São Paulo. O Rio, do Maracanã, e São Paulo, do Morumbi. Está bem. No Rio, a média é de 6637, e em São Paulo, de 7083. […]

“O que me admira é a impunidade e a desfaçatez com que estes homens que assaltam o poder do futebol fizeram leis que nem os gangsters de Chicago fariam. Conduzem os clubes à falência. […] E ninguém vai preso? Pois é, Juca. Eles estão soltos. É sim, soltos! Corrompem brutalmente, associam-se a qualquer grupo de marginais que mandam e desmandam no esporte brasileiro. Inverteram tudo. Compraram escandalosamente os votos a seus igualmente corruptos eleitores. […] Pois, Juca, os bandidos estão no poder nos esportes. Trata-se de mandá-los embora. Para sempre. Mas você tem razão em alertar para a manobra da cbf…”

 

Mais dois domingos, e fará catorze anos que João Saldanha, o João Sem Medo, escreveu o que ora transcrevo, ele com setenta anos de vida, a três de sua morte, na Copa de 90, na Itália, no campo de batalha, de onde nunca se afastou. Parece mentira a constatação de que está tudo, exatamente tudo, igual. Até Onaireves ainda é o mesmo – como Hoffmeister agora é Perondi, e Nabi virou Eduardo, e Otávio virou Ricardo.

 

O que mudou, mudou para pior. Melhor, apenas porque bem mais, só o dinheiro que envolve o mundo da bola.

 

Pois é isso, João.

 

Extraído do livro "Meninos, eu vi", de Juca Kfouri (editoras DBA/Lance!)


 

Por Juca Kfouri às 22h25

Vestimos azul, e a nossa sorte, então, mudou

Como na música de Nonato Buzar, “Vesti azul”, que Wilson Simonal celebrizou, a camisa da seleção deu sorte, e o time venceu o fraco Peru. Se não trouxe bom futebol, ao menos trouxe bons fluidos. Não foi a primeira nem terá sido a última vez em que a superstição atravessa o caminho da seleção brasileira, tão pródiga em histórias do gênero - uma das mais saborosas, por sinal, exatamente em torno da camisa azul.

 

O protagonista principal foi Paulo Machado de Carvalho, chamado de o “Marechal da Vitória”, comandante da seleção no bicampeonato de 1958/62, dirigente do São Paulo e dono da tv Record, que teve seus tempos de tv Globo. Ele era tão supersticioso que só vestia marrom em jogos da seleção e, quando soube que contra a Suécia, na decisão da Copa de 58, a seleção teria de trocar de camisa para não se confundir com o amarelo dos anfitriões, sentiu um frio na espinha, acompanhado de um estalo genial.

 

Ficou indignado ao saber que uma senhora sueca havia feito o sorteio e que o Brasil é que teria de trocar de camisa. “Eles é que deveriam trocar. Nós somos os visitantes”, protestou, em vão. Mas, ao imaginar que a notícia pegaria mal entre os atletas, tratou de fazer do limão uma belíssima limonada.

 

Chamou Didi ao seu quarto e comunicou a mudança da maneira mais feliz possível: “Didi, a sorte está mesmo do nosso lado”, anunciou, sorridente. “Por que o senhor diz isso?”, perguntou Didi. “Porque eu acabo de saber que vamos jogar de azul no domingo”, respondeu, todo pimpão. “De azul, dr. Paulo?!!! Mas de amarelo nós não perdemos nenhuma!”, espantou-se Didi.

 

“Era isso o que eu queria. Azul é a cor do manto de Nossa Senhora Aparecida, Didi, é a cor da nossa santa, homem!”, sacou o dirigente.

 

E Didi saiu em desabalada carreira para contar a boa nova aos seus companheiros de time.

 

Deu no que deu. A Suécia marcou primeiro, logo aos quatro minutos. Era a primeira vez que a seleção ficava em desvantagem no placar na Copa. Didi foi buscar a bola dentro do gol de Gilmar e voltou para o meio-de-campo avisando um a um de que não tinha chegado até lá para perder. “A sopa deles acabou. Agora é a nossa vez. Vamos encher a caçapa desses gringos de gols. Aqui dentro da casa deles mesmo”, avisou seus parceiros, segundo relata Péris Ribeiro, na biografia do mestre Didi, o gênio da folha seca, da editora Imago.

 

O fim da história é conhecido. A seleção enfiou cinco gols na caçapa dos suecos no estádio de Rassunda, em Solna, simpático bairro de Estocolmo, capital da Suécia, que fez ainda mais um golzinho e perdeu de 5 a 2.

 

Em 1966, enciumado, João Havelange quis ele mesmo comandar a campanha do tri e inventou de brigar com Paulo Machado de Carvalho. O Brasil voltou para casa nas oitavas-de-final.

 

Extraído do livro "Meninos, eu vi", de Juca Kfouri (editoras DBA/Lance!)

Por Juca Kfouri às 22h24

Sobre o autor

Formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999. Atualmente está também na ESPN-Brasil. Colunista de futebol de "O Globo" entre 1989 e 1991 e apresentador, desde 2000, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha.

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