Blog do Juca Kfouri

Tabelinha com Juca

Segundas-feiras, às 15h

28/12/2007

O resultado do público

*Por CONRADO GIACOMINI

205 votos contabilizados. 172 preferiram o escrete de 1970 e 18 optaram pelo time de 1994. Houve ainda um voto cravando empate. Os outros 14 foram anulados.

 

Com os dois primeiros jogos realizados, temos as seguintes tábuas de classificação:

 

A tabela dos especialistas

 

                           Pontos Ganhos  Jogos   Vitórias   Empates  Derrotas

1º. Brasil/1982:  3 pontos                  1              1               0              0

-    Brasil/1970:  3 pontos                  1              1               0              0

3º. Brasil/2002:  0 ponto                    1              0               0              1

-    Brasil/1994:  0 ponto                    1              0               0              1      

-    Brasil/1958:  0 ponto                    0              0               0              0

-    Brasil/1962:  0 ponto                    0              0               0              0

 

A tabela do público

 

                           Pontos Ganhos  Jogos  Vitórias   Empates  Derrotas

1º. Brasil/2002:  3 pontos                 1             1               0               0

-    Brasil/1970:  3 pontos                 1             1               0               0

3º. Brasil/1982:  0 ponto                   1             0               0               1

-    Brasil/1994:  0 ponto                   1             0               0               1

-    Brasil/1958:  0 ponto                   0             0               0               0

-    Brasil/1962:  0 ponto                   0             0               0               0

 

No domingo, fechando a primeira rodada da II Copa dos Sonhos, João Areosa analisa o embate entre as seleções bicampeãs mundiais, a de 1958 contra a de 1962.

*Conrado Giacomini é o ombudsman (não remunerado) deste blog

Por Juca Kfouri às 23h54

O dia em que Tostão inventou o Fair Play (1970x1994)

Copa dos Sonhos II

Por PAULO CALÇADE 

A Copa do Mundo dos sonhos já teve partidas melhores.

Os Brasis se enfrentaram em campo chutando os mesmos contrastes que outros tantos Brasis exibem diariamente nos cenários político, econômico e social.

É surpreendente como maneiras diferentes de jogar, de saborear a vida, puderam esconder histórias tão congruentes.

A geração de 1970 praticamente deu as últimas pinceladas num dos mais belos momentos da história da arte.

É como se fosse possível empacotar o movimento impressionista e dar a ele uma única dimensão, uma fatia do tempo.

Em 12 anos, a seleção brasileira ganhou três Copas. Os vira-latas da bola se transformaram nos maiorais sob a batuta de João Havelange e seu projeto de poder absoluto.

Precisamos de 24 anos para voltar a colocar as mãos na taça. Com Havelange na Fifa coube a Ricardo Teixeira, o genro, tocar o plano. As coisas começaram a se encaixar.

Em campo, o elemento principal dessa química que uniu os times de 1970 e 1994 foi a organização.

Com Zagallo, os tricampeões do mundo treinaram três meses antes da Copa, mataram seus adversários no segundo tempo e tiveram uma moderníssima postura tática.

Sim, o time de 1970 foi também resultado de uma excepcional estrutura de jogo e de recomposição da marcação no meio-de-campo. Além, é claro, de ter sabedoria para acomodar Gérson, Jairzinho, Pelé, Tostão e Rivelino sob o mesmo manto sagrado, aquela tal de amarelinha que Zagallo tanto fala.

Zagallo? Em 1994, o homem da amarelinha foi parceiro de Carlos Alberto Parreira, um dos preparadores físicos da Copa de 70.

Se a história une as duas trajetórias, o talento afasta.

Comparações entre gerações são terríveis.

É como se confrontássemos, na pista, a Lotus de Jochen Rindt, campeão mundial de Fórmula 1, em 1970, e a Benetton de 1994, com ninguém menos do que Michael Schumacher ao volante.

Quem venceria essa parada? Sabemos a resposta...

Mas graças a Deus que no mundo da bola as coisas são mais abstratas, como devem ser a arte e o futebol. E o futebol-arte.

A vitória do time de 1994 sobre o de 1970, numa daquelas máquinas do tempo, poderia mudar definitivamente a história do futebol.

Mas a terra teria que ser dominada pelos terríveis Incas Venusianos, os assustadores vilões das aventuras de Nacional Kid.

No campo dos sonhos e da razão - e para o bem do futebol -, o Brasil de 1970 derrotou o Brasil de 1994 por 3 a 1.

Rivelino, com uma bomba em cobrança de falta, fez 1 a 0. Romário empatou num lançamento de Dunga – que jogou mais do que se imagina por aí. O Baixinho aproveitou o contra-ataque e tocou por cima, na saída de Félix.

Essa, aliás, foi uma característica do time, que trocou, em média, 2,5 passes entre a recuperação da bola e a marcação dos seus gols na Copa de 1994.

Outro fator importante foi a velocidade. O time de Parreira precisou de 9,5 segundos, em média, para retomar a posse de bola e marcar um gol.

A decisão ficou para o segundo tempo, período em que as duas equipes fizeram o maior número de gols em suas Copas.

O problema era deter o time de Zagallo. Rivelino preocupava Jorginho, Branco perseguia Jairzinho. A movimentação de Pelé e Tostão prendia a atenção de Aldair, Márcio Santos e Mauro Silva.

Dunga acompanhava Gérson enquanto Zinho ficava de olho nas descidas de Carlos Alberto; Mazinho controlava Clodoaldo.

Com Gérson bem marcado, sem o espaço e a lentidão da Copa de 70, coube a Clodoaldo superar Mazinho e detonar a implosão da marcação de Parreira. O volante santista tocou para Pelé, na entrada da área. O Rei do Futebol balançou o corpo e bateu forte no canto esquerdo de Taffarel.

A seleção de 94 se abriu e tomou o terceiro, num lançamento de Gérson para Jairzinho, que bateu cruzado: 3 a 1.

Houve ainda um quarto gol, marcado por Tostão, que chamou o árbitro inglês num canto e avisou: foi com a mão.

Sim, na máquina do tempo, foi Tostão que inventou o Fair Play.

Público e renda não foram divulgados.

*Paulo Calçade é comentarista da ESPN-Brasil. Sabe o que é um jornalista completo? Ele é!

Muito bem!

No primeiro jogo, os blogonautas discordaram da avaliação do especialista.

E agora?

Alguém acha que o time de 1994 poderia empatar ou até mesmo vencer o de 1970?

A sexta-feira será dedicada a receber a sua opinião. 

Por Juca Kfouri às 00h02

27/12/2007

O placar dos internautas

*Por CONRADO GIACOMINI

Dos 342 votos registrados, 150 escolheram o time de Felipão e 94 fecharam com o escrete de Telê. Os votos inválidos ou repetidos totalizaram 98.

*Conrado Giacomini é ombudsman deste blog.

Por Juca Kfouri às 00h06

26/12/2007

Telê x Felipão: que jogão! (1982x2002)

*Por PAULO VINÍCIUS COELHO

Copa dos Sonhos II


Parece covardia, mas não é. O duelo entre um time campeão e outro que caiu nas quartas-de-final.

Ou o duelo entre uma seleção de craques consagrados contra outra, a campeã, que nunca foi reconhecida como deve.

Não se esqueça que o time de 2002 é o único na história das Copas a vencer sete partidas para levantar a taça.

O hipotético jogo entre dois times de ataques avassaladores teria, necessariamente, muitos gols. Vamos a ele.

Começa o jogo e taticamente a partida fica desenhada.

Zico e Sócrates têm marcação de Kléberson e Gilberto Silva.

Convenhamos, os marcadores poderiam ser melhores.

A força dos laterais de 2002, Cafu e Roberto Carlos, também se dilui, por causa da preocupação em marcar os avanços de Leandro e Júnior.

Mas sobra espaço no meio para o time de 1982.

O duelo básico está ali.

No meio de-campo, entre os talentosíssimos meias ofensivos do Brasil 2002, Ronaldinho e Rivaldo, e os fantásticos volantes do Brasil de Telê, Falcão e Cerezo.

Ronaldinho domina e Falcão pára à sua frente. O gremista finge o drible, o colorado não entra. Toma-lhe a bola e sai jogando. Conduz a bola e olha Leandro, marcado por Roberto Carlos. Não toca. De lado, ajeita para Cerezo jogar.

A bola chega a Sócrates e o toque de calcanhar faz Zico entrar em profundidade. Passa por Kléberson e chuta de longe. Gol do Brasil, de 1982.

Tá certo, tá certo... Na Copa da Espanha, quem marcou de longe foi Éder, foi Sócrates. Mas aqui foi Zico. Ele merece.

Mas o Brasil de Felipão era forte no ataque.

Kléberson vai ao ataque e Zico não acompanha. Vai pedir para o Galinho marcar? Claro que não. E Kléberson caminha, olha, toca para Rivaldo, observado por Cerezo.

Este, dá espaço e Rivaldo dribla e entra em diagonal, para a esquerda. Dali, de onde tantas vezes bateu com sua canhota precisa, sem ninguém dar importãncia. Chutou de novo: 1 x 1.

Mas o Brasil de Telê tinha tanto talento, que voava do meio para o ataque. Júnior entra em diagonal e tabela com Zico. Entra em diagonal, como no gol contra a Argentina, no Sarriá. O toque preciso entra por baixo de Marcos.

Volta o Brasil de Rivaldo e Ronaldinho. Falta na entrada da área, pelo lado direito, ali de onde o gaúcho marcou contra Seaman, da Inglaterra. Ele finge o cruzamento, mas bate por cima. Valdir Peres erra. E Felipão empata com seu Brasil.

O empate é tudo de que Felipão mais gosta.

Na Espanha, valia a vaga para o Brasil de Telê, que levou o terceiro, de Paolo Rossi.

Mas na Copa do Juca, o empate leva aos pênaltis.

O Brasil de Felipão espera. O de Telê vai ao ataque.

Dizem que isso é um risco num time que joga em contra-ataque.

Mas Telê manda Leandro, Júnior, Falcão, Cerezo... Pura arte! Leandro finge que vai ao fundo, Roberto Carlos segue... E Leandro corta para dentro. Em diagonal, como gostava de fazer, tenta o tiro. Marcos rebate para a frente, como Fillol no Sarriá -- lembre, o Brasil também ganhou lá, da Argentina. Na sobra, é Zico quem coloca o bico na bola para marcar.

O Brasil de Telê vence: 3 x 2 contra Felipão. Com gol de Zico, o futebol-arte está na frente.

Com gol de bico.

*Paulo Vinícius Coelho é colunista do diário "Lance!" e comentarista da ESPN-Brasil. E que colunista! E que comentarista! 

Você concorda com o PVC?

Quem ganharia este jogo? Ou daria empate?


Por Juca Kfouri às 00h01

25/12/2007

Vem aí a Copa dos Sonhos II

Este blogueiro entra em férias, por 30 dias.

Mas o blog não, ou melhor, o blog ficará num regime especial.

Terá, pelo menos, uma nota diária, com a nova edição da Copa dos Sonhos, que tanto sucesso fez no ano passado na mesma época (embora tenha irritado, e muito, como é de praxe, alguns blogonautas).

Copa dos Sonhos que teve como melhor filhote a impagável Copa dos Pesadelos de José Roberto Torero.

A versão de agora será sensacional, com as seis melhores Seleções Brasileiras de todos os tempos: as cinco campeãs mundiais e a de 1982.

Será um hexagonal em turno único, todos contra todos.

Os jogos virtuais foram encomendados para jornalistas que compõem outra seleção, com quase todos que representam o que há de melhor na imprensa brasileira (mas não terá o Torero, para que ele não saiba desta nova edição e não invente outra melhor mais uma vez...).

A Copa dos Sonhos II começa amanhã e terá jogos postados em dias alternados.

Entre um jogo e outro, você é quem escolherá o vencedor das partidas, de acordo ou em desacordo com o especialista e, ao lado da classificação da Copa dos especialistas, conhecerá os resultados da Copa dos blogonautas, num trabalho hercúleo de nosso ombusdman Conrado Giacomini.

Teremos, portanto, o campeão da crítica e o do público.

A primeira rodada terá o embate entre as seleções de 1982 e 2002, a cargo do PVC, Paulo Vinícius Coelho.

Paulo Calçade tratará do jogo entre as seleções de 1970 e 1994.

João Areosa do confronto entre as seleções bicampeãs mundiais, a de 1958 contra a de 1962.

Na segunda rodada, ninguém menos que Tostão escreverá sobre o Brasil de 1982 contra o de 1994.

Em seguida, Ugo Giorgetti com 62 x 70 e o Professor Ruy Ostermann com 58 x 2002.

Na terceira, Antero Greco imaginará o duelo entre 70 e 82, Renato Maurício Prado o entre 62 e 2002 e Paulo Roberto Falcão se encarregará da disputa entre os times de 58 e 94, Feola x Parreira.

A quarta rodada terá 70 x 2002, com José Geraldo Couto, 62 x 94 com Luiz Zanin e 58 x 82, com Alberto Helena Júnior.

Finalmente, a quinta e última rodada: 94 x 2002, aos cuidados de Victor Birner; 62 x 82, na ótica de Fernando Calazans e, para encerrar com chave de diamante, aquele que este blogueiro imagina que possa vir a ser o jogo que decidirá a Copa, entre as encantadoras seleções de 1958 e 1970, no texto, simplesmente, de Luís Fernando Verissimo.

Duas informações finais, sobre os bastidores da Copa do Sonhos II: Paulo Roberto Falcão confessou que quase "empatou" o jogo que lhe coube para dar mais chances de o time de 1982 ser o campeão.

E quando contei a Bob Fernandes que pediria um texto para Verissimo sobre 58 x 70 ele saiu-se com essa idéia diabólica: "Eu, se fosse ele, resolveria numa linha só".

"Como?", perguntei.

"1 a 0. Gol de Pelé. Não me pergunte se para o time de 58 ou se para o de 70."

Ainda bem que Verissimo não seguiu o conselho dele.

Mas quase...

Por Juca Kfouri às 12h29

Presentinho de Natal

Ganhei um presente de Natal que primeiro me divertiu muito e depois me irritou um pouco.

Porque jurava pra mim mesmo que em meia-hora, no máximo, acertaria os times representados por 64 escudos.

E não é que depois de uma hora fiquei devendo seis escudos...

Um vexame!

Não sei até agora de que times são os distintivos de número 6, 9, 11 (esse eu sei que vou morrer de vergonha quando alguém me disser a que se time se refere), 23, 48 e 54.

Vamos lá.

Brinque você também:

http://www2.uol.com.br/flashpops/jogos/escudos.shtml

 

Por Juca Kfouri às 01h40

24/12/2007

Corinthians de segunda

As coisas continuam a ir mal no Corinthians, tirante as ações de marketing.

No departamento de futebol, por exemplo.

Já se fala, até, na ressureição de Adílson Monteiro Alves, o da Democracia Corinthiana.

Ele que depois se perdeu na política quercista e virou dono de bingos, coisa que, por sinal, anda à solta em Parque São Jorge, com gente no departamento de futebol muito ligado às maquininhas de azar e ao jogo do bicho.

E olhe que o vice-presidente, Mário Gobbi, é delegado de polícia, embora considere desimportante saber sobre origens de dinheiro.

Se não bastasse, o Corinthians repatriou do Santos o seu ex-médico, Joaquim Grava, desafeto de  Renato Lotufo, um dos mais respeitados fisiologistas do país e de saída do Parque São Jorge.

Grava protagonizou cenas constrangedoras em recepções, bares e restaurantes de Santos e precisa ser tratado, coisa que o mundo do futebol está cansado de saber.

Mesmo assim, foi contratado pela nova direção corintiana.

Dias atrás, numa churrascaria no bairro do Itaim, em São Paulo, descontrolado, Grava provocou um profissional especializado em preparação física e acabou sendo violentamente agredido. 

Ele não está em condições de cuidar de ninguém, ao contrário, precisa ser cuidado.

Por Juca Kfouri às 13h19

Abuso de poder

*Por SABINO LOGUERCIO

Em 2001, depois de uma experiência bem conduzida, o Dr. Otávio Brasil, ilustre toxicologista de Brasília, vinculado à Polícia Federal,  liberou a notícia de que a benzoilecgonina é o metabólito resultante da ingestão, pelo ser humano, de qualquer uma das 250 espécies catalogadas de plantas da família das eritroxiláceas.

Ficou assim demonstrado o quanto há de irresponsável e leviano na afirmação de que tal ou qual indivíduo, em cuja urina foi detectada benzoilecgonina, é usuário obrigatório de cocaína.

Ou, pior que tudo, um "dopado" por essa droga, que, a despeito de seus conhecidos efeitos danosos, não é doping.

O tratamento de seu usuário é função médica e não desportiva.

Antes, em 1997, o jogador Anderson, do S. C. Internacional de Porto Alegre, amanheceu limpo e entardeceu toxicômano, com a notícia de que se encontrara morfina em seu teste urinário. 

O equívoco grosseiro foi desfeito quando se descobriu que o resultado proviera da ingestão de inocentes pãezinhos decorados com sementes de papoula, o que constitui um atestado da corriqueira interferência de fatores aleatórios num exame laboratorial.

Depois desse episódio, é de pasmar que profissionais - dos quais se espera o mínimo de discernimento - continuem dando trela aos que atribuem ao teste urinário, desvinculado de outros procedimentos clínico-laboratoriais imprescindíveis, a condição de elemento probatório de doping.

Na "operação caça-Rebeca", ainda em marcha, acaba de ir para o lixo, como se inútil fosse, o Código de Ética Médica, que tem força de lei, reconhecida pelo STF.

O espetáculo degradante e insólito de expor a imagem da nadadora Rebeca Gusmão ao escárnio público, como um  troféu da infalibilidade oficial, é daqueles cuja sordidez bem que podia passar ao largo do dia-a-dia de gente civilizada, que definitivamente não merece tamanha e tão desprimorosa ofensa conceitual.

Por trás de tudo, o entendimento tácito de que a perseverança, a abnegação, a força de vontade, aplicadas metodicamente à cultura física são incapazes de  moldar o corpo às exigências de competições atléticas.

De repente, descobre-se - e a besteira transita em julgado - que tão-somente a testosterona é capaz de fazê-lo, como se a ciência do esporte fosse letra morta.

O ato médico aplicável (ou recomendável) seria o de acompanhar a atleta por um período de seis meses e afastá-la da próxima competição, sem alarde, caso perdurasse, até quinze dias antes da prova, algum distúrbio clínico-laboratorial inequivocamente comprovado, sob os auspícios da verdadeira Medicina e não através do resultado solitário e inconsistente de um mero teste toxicológico urinário.

Com essa providência, ficaria preservado o jogo limpo e, principalmente, resguardada a reputação de um ser humano que vive de sua imagem.

Mas o ano de 2007 não seria fechado com pleno êxito obscurantista se Romário, do alto de seus 41 anos bem vividos, não fosse apanhado no anzol dos pescadores nefastos.

A Finasterida, longe de  mascarar a ação de um esteróide anabólico, como tem sido fartamente propalado, age "antagonizando" a  5 alfa-reductase tipo II, o que bloqueia (impede, obstaculiza) a transformação de testosterona em diidrotestosterona.

Por isso é usada em pacientes que sofrem de hiperplasia prostática benigna.

Secundariamente, foi também autorizado seu uso para a queda de cabelo.

Em termos leigos, seria como se, inconscientemente, o nosso herói da Copa 94 tomasse uma providência enérgica contra o doping, caso flutuasse em seu universo interior algum resquício de esteróide anabólico incriminante, sem considerarmos que a ciência farmacológica nunca comprovou a ação dessas substâncias em homens sexualmente maduros, nos quais o receptor de androgênios está saturado.

O mesmo ocorreu recentemente com Marcão, zagueiro do S.C. Internacional de Porto Alegre, cujo afastamento incabível causou prejuízos incalculáveis e irreversíveis, não só para ele quanto para o clube que o mantém sob contrato.

É o abuso de poder, numa de suas versões mais classicamente perversas, em pleno século XXI.

*Sabino Vieira Loguercio é médico e integrante da Câmara Técnica de Gastrenterologia do CREMERS

Por Juca Kfouri às 12h52

Sobre a WTorre

A empresa que promete fazer a nova arena do Palmeiras é do empresário Walter Torre Jr.

Ele é visto no mercado como um empreendedor extremamente agressivo no que faz, sem preocupações éticas e absolutamente auto-referente.

Quando ofereceu um estádio ao Corinthians, juntou-se ao pior intermediário que poderia em Parque São Jorge, um cidadão cujo apelido nas alamedas alvinegras é simplesmente "171 do Vale do Paraíba", região de onde teve de sair às pressas.

O negócio, como se sabe, não foi adiante.

No começo deste ano, com problemas financeiros, a WTorre tentou abrir seu capital e malogrou.

"Para complicar, a WTorre não conseguiu fazer com que a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) desistisse de pedir um estudo de viabilidade à companhia. De acordo com a CVM, a WTorre criou ágio superficial de seu patrimônio líquido com a incorporação de empresas próprias e pedia um estudo de viabilidade, que nunca foi entregue à comissão.

A WTorre discorda da CVM e garante ter o estudo pronto, mas como desistiu da abertura, não há razão para entregá-lo", informa o jornal "Valor Econômico", de 17 de julho último.

"No saldo de toda essa operação frustrada em direção à bolsa, garante Torre, ficou uma empresa profissionalizada, maior e mais preparada para se tornar líder absoluta de seu segmento.

Ficaram também dívidas pesadas, que somam quase R$ 1 bilhão. Fernando Davantel (diretor financeiro da WTorre) garante que tudo está renegociado. As dívidas de curto prazo, diz ele, ganharam 10 anos de carência. O empréstimo com o Santander, que pode subscrever 20% do capital da WTorre se o compromisso não for honrado, vence apenas em 2012. 'Está tudo bem conosco, estamos sólidos como sempre fomos', diz Walter Torre", ao jornalista Yan Boechat, do "Valor".

Se já não bastasse a Traffic com a história que tem e, para agravar, hoje em dia dona de veículos de comunicação que têm como objeto, entre outros temas, o futebol, será que o parceiro no novo estádio não poderia ser acima de quaisquer suspeitas?

Ou será que só esse tipo de empresário se aventura no meio do futebol?

São perguntas que o futuro não tardará a responder. 

Por Juca Kfouri às 12h02

Altitude é 'frescura'

Por Luis Fernando Correia

Comentarista da CBN

 

Cientistas da Universidade de Oxford analisaram cientificamente a influência da altitude nos jogos de futebol. Segundo a pesquisa, publicada na última edição da revista "The British Medical Journal", os times do alto das montanhas aumentam as chances de vitória de 53% para 82%, quando enfrentam times que vêm do nível do mar.


Para chegar a essa conclusão, os estatísticos analisaram o banco de dados da Fifa que contém resultados de 1.460 jogos, num período de cem anos. A América do Sul foi a principal fonte de pesquisa, pois aqui se encontram as maiores diferenças de altitude em jogos internacionais. Um bom exemplo é o Rio de Janeiro, que fica ao nível do mar, e La Paz, a 3.650 metros de altitude.

A altitude afeta o funcionamento do corpo dos atletas que viajam para jogar sem períodos de adaptação, a chamada aclimatação. Por causa da menor pressão atmosférica, uma quantidade menor de oxigênio entra no corpo a cada inspiração. Essa redução de oxigênio no organismo provoca dor de cabeça, náuseas, tonteira e fadiga. Além disso, as temperaturas são mais baixas e o ar é mais seco.

Ao comparar os placares dos jogos entre times de altitudes diferentes, ficou comprovado que a vantagem numérica das equipes da Cordilheira dos Andes se traduz numericamente em aumento das chances de marcar gols, e menor número de gols sofridos.

Comparando os principais times da América do Sul –- Brasil, Argentina e Uruguai -–, a países localizados em altitudes mais elevadas, a vantagem de se jogar nas montanhas contra uma equipe de um país ao nível do mar sobe para 82%, contra 53% se os dois times forem de mesma altitude.

A cada 1.000 metros de diferença, o time da casa ganha quase meio gol de vantagem. Portanto, a Bolívia jogando em La Paz, 4.082 metros em seu ponto mais alto, numericamente sai com 1,48 gols de vantagem sobre um time do nível do mar.

Os cientistas foram capazes de determinar que, somente por conta da altitude, existe um aumento da chance do time da casa marcar um gol, e ao mesmo tempo diminui em 50% a chance do goleiro ver a bola no fundo da rede.

Apesar de esclarecida a questão médico-desportiva, o assunto é controverso do ponto de vista político do futebol. Entretanto, a Fifa acaba de aprovar, no último dia 15 de dezembro, em Tóquio, uma determinação para que não ocorram jogos em altitudes acima de 2.750 metros, sem o devido período de aclimatação, estimado em dez dias. Essa resolução passa a fazer parte imediatamente dos regulamentos da entidade e a Fifa recomenda que seja seguida em todos os jogos internacionais.

Por Juca Kfouri às 11h31

Cepraf x Reffis

Do UOL Esporte

O fisioterapeuta Nilton Petrone, conhecido como Filé, contratado na última semana para integrar a comissão técnica de Vanderlei Luxemburgo no Palmeiras, revelou que está preocupado com o futuro do Centro de Excelência em Prevenção e Recuperação de Atletas do Futebol (Cepraf), que ajudou a construir no Santos nos dois últimos anos.
Como não estará mais no clube da Baixada Santista a partir de 2008, Filé teme que o trabalho realizado na modernização da infra-estrutura santista não tenha continuidade.

"Estou preocupado. Esta semana entrei em contato com o Capella (Luís Antônio Ruas Capella, diretor de futebol do Santos) e mostrei minha indignação e a preocupação com a continuidade de tudo o que foi feito no Cepraf", revelou o fisioterapeuta, em entrevista à rádio Jovem Pan.

"Independentemente de quem seja o técnico, o projeto tem que seguir, é uma organização montada para defender o clube. Estou preocupado, mas acredito na capacidade do presidente Marcelo [Teixeira, do Santos] para manter o Cepraf como referência", acrescentou.

Neste semana, Filé já inicia seus trabalhos no Palmeiras. Um dos primeiros passos é analisar o centro de treinamento, destinado ao futebol amador, que o clube alviverde pretende construir em Guarulhos.

No time de Parque Antarctica, ele quer implantar um projeto parecido com o Cepraf, do Santos, e com o Reffis (Recuperação Esportiva, Fisioterápica e Fisiológica), do São Paulo.

"O Palmeiras não vai copiar, vai observar, mas tem que ser exatamente como o São Paulo fez. No Reffis criou-se um modelo, uma estrutura com 12 fisioterapeutas", finalizou Filé, que assinou contrato com o clube alviverde por dois anos.

Por Juca Kfouri às 11h30

Na 'Folha', de sábado

JOSÉ GERALDO COUTO

Jesus, amor etc.

Kaká, como jogador, é o máximo, mas tomá-lo como modelo para os jovens é anacrônico e conservador

A ESCOLHA de Kaká como melhor futebolista do planeta não surpreendeu ninguém, pelo que ele jogou na temporada. O que me assustou um pouco foi ouvir no rádio e na televisão uma porção de gente exaltar o rapaz como "modelo positivo para a juventude". Ora, vamos combinar, Kaká fora de campo, à parte a beleza física evidente, é de uma insipidez espantosa. Mauricinho e carola, sua imagem corresponde a um bom-mocismo que eu julgava há muito superado. Não me entendam mal.

Nada contra ele casar virgem e estampar na camiseta que "pertence a Jesus". Mas daí a tomar isso como exemplo de caráter vai uma grande distância. Kaká, é bom lembrar, foi um dos primeiros a sair em defesa do casal Hernandes, os líderes da igreja evangélica Renascer em Cristo, que foram parar na cadeia por ludibriar a fé dos incautos e sonegar impostos. Apoio no mínimo questionável, a meu ver.

Ainda assim, problema dele. Mas há algo de profundamente regressivo em considerar esse tipo de comportamento como "sadio". Querer restaurar, a esta altura do campeonato, valores como a virgindade e a fé religiosa cega traz um perigoso ranço de TFP (a ultraconservadora Sociedade de Defesa da Tradição, da Família e da Propriedade), ainda que sob as tintas mais estridentes, pragmáticas e mercantilistas das correntes evangélicas. Como contraponto a esse obscurantismo anacrônico, lembro um episódio ocorrido com o grande ex-jogador e ex-treinador Elba de Pádua Lima, o Tim (1915-84), e narrado no recém-publicado "João Saldanha - Uma Vida em Jogo", de André Iki Siqueira.
Tim era técnico de um clube grande do Rio de Janeiro quando, numa peneira, um garoto ansioso por agradá-lo declarou: "Não bebo, não fumo nem farreio". Tim respondeu: "Pois aqui você vai aprender a fazer tudo isso". Claro que ninguém aqui é criança. Sabemos que o álcool, o cigarro e as noites maldormidas podem prejudicar a saúde e o desempenho de qualquer profissional. Mas são, no mais das vezes, experiências que fazem parte do aprendizado de vida de qualquer cidadão saudável.

Millôr Fernandes escreveu uma vez que a mais incompreensível de todas as taras é a abstinência. Ernest Hemingway, por sua vez, quando indagado sobre as coisas que poderiam atrapalhar a atividade do escritor, respondeu: "Mulheres, bebida, dinheiro. E também falta de mulheres, de bebida e de dinheiro". João Saldanha, sábio do futebol e da vida, ajudava seus jogadores a fugir da concentração para se divertir. Só recomendava, de modo meio machista, que não mudassem de mulher às vésperas de um jogo, caso contrário tenderiam a "mostrar serviço" na cama, desgastando-se em excesso.
Kaká entregou a alma a Jesus, o dinheiro à Renascer e a virgindade à noiva. Vágner levou uma mulher para a concentração do time e ganhou o apelido de Love.

O primeiro é muito mais jogador, mas o "exemplo" do segundo me agrada mais.  

Por Juca Kfouri às 11h29

Conto de Natal

Por ROBERTO VIEIRA

 

Quando eu era pequeno e jogava bola no colégio, sempre existia um muro. Alto e com um cachorro brabo do outro lado.

E a bola, invariavelmente caía do outro lado. No melhor do jogo.

Azar.

O cachorro tinha um dono. Bernardo. Torcedor do Sport. A gente sabia pela imensa bandeira rubro-negra na janela do casarão.

E Bernardo não devolvia a bola, nunca.

A gente também nunca viu o Bernardo. Ele nunca dava as caras. Rico e orgulhoso.

O jogo parava e a gente tinha de esperar até alguém conseguir uma outra bola.

Porque bola era luxo. Se ganhava no aniversário. Por vezes no Natal. E só.

Mas sempre aparecia alguma bola dias depois. Vinda não sei de onde. Quem sabe de outros muros?

O jogo recomeçava. Todo mundo morrendo de medo de chutar mais forte.

Até que dias depois, pimba! A bola era chutada por algum perna-de-pau e ia parar no quintal de Bernardo.

O cachorro gritava. E todo mundo, com medo, ficava esperando o futuro.

Mesmo assim, a infância era feliz. Tinha bola de gude, que nunca caía na casa de Bernardo.

Tinha pipa. Tinha polícia e ladrão. Tinha Fratelli Vita.

Os anos se passaram e o mundo mudou.

Mas sempre que a velha turma se encontrava, lembrava das bolas e do muro. Do cachorro. De Bernardo.

Foi então que ano passado, tive uma surpresa.

Fui visitar o velho colégio. Colégio que vai deixar de ser colégio. Vai virar shopping center.

Uma das irmãs de caridade me reconheceu. Sempre passo por lá no Natal. Estava triste com o fim da escola.

De repente, comentou:

- O antigo casarão também vai virar shopping center! Vão derruba-lo depois do Natal.

Pensei em Bernardo. Na certa iria lucrar uma barbaridade com a venda do imóvel.

Antes que eu pudesse completar meu raciocínio, a irmã apontou um homem sentado no jardim:

- Lembra dele? Era o menino que morava no casarão.

Lá estava Bernardo. Olhando para o jardim, o campinho de terra, a velha quadra de basquete.

Bernardo estava sentado em uma cadeira de rodas.

Não pude deixar de caminhar até ele. Apresentei-me. Eu era o velho menino que chutava as bolas para seu quintal.

Surpreso, Bernardo olhou para mim. Lembrava das bolas.

Perguntei pelo cachorro. Ele disse que Manga, esse o nome do cachorro, havia morrido há muito tempo.

Sorrindo, Bernardo me contou que lembrava das bolas que iam cair no seu quintal.

De como ele sofria ouvindo nosso gritos de gol. Ele que não podia jogar.

Manga ficava muito zangado quando a gente jogava. Ele sofria vendo o seu dono sofrendo. Por isso gritava tanto.

Sua mãe nunca devolvia as bolas. Imaginava que aquele barulho trazia sofrimento ao filho.

Fiquei mudo.

Até que Bernardo, percebendo meu silêncio, murmurou:

- Na verdade eu gostava quando tinha jogo. Você não imagina nas férias, quando o silêncio era completo. E naquela época nem o Sport me dava alegria...

Verdade. Foram os anos do Hexa do Náutico. Do Penta do Santa Cruz.

Despedi-me. Deixei meu telefone com ele. Saí pensativo pelas ruas do Recife.

Eu pensava nas bolas e nos muros. Nas distâncias que separam quintais.

Algo em mim nunca mais foi o mesmo.

Hoje, quando o Náutico perde. Quando o Sport vence. Lembro sempre de Bernardo e de outros meninos como ele.

E agradeço a vida e a Deus.

Deus que sabiamente fez o dia e a noite.

A vitória e a derrota.

Para que o sorriso e a lágrima jogassem bola nos dois lados do muro.

Por Juca Kfouri às 11h18

A Terra é uma bola. Viva a bola!

Recebi de um amigo distante, gostei e compartilho com todos os que costumam frequentar este blog:

http://www.maxdereta.com/imagine/earth.html

Tão logo a música termina, a mensagem que compartilho também termina, embora o link continue com a página do companheiro fotógrafo.

Por Juca Kfouri às 00h17

23/12/2007

O Brasil e a golbalização

Escrevi o texto abaixo para a revista "Política Externa" do trimestre Dezembro de 2007-Janeiro/Fevereiro de 2008.

É grande.

Mas hoje é domingo...

 

A Terra é uma bola, como se sabe.

E joga-se bola na Terra por todos os cantos.

E a Terra é uma bola cada vez menor, do tamanho de uma de futebol.

Que também se transformou com a tal da globalização.

Da primeira Copa do Mundo transmitida para o mundo inteiro pela TV, em 1970, no México, a chamada aldeia global testemunhou o incrível crescimento de uma de suas mais influentes multinacionais, a Fifa, com sede na Suíça, em Zurique.

Basta dizer que a entidade tem mais filiados que a ONU (207 a 191).

E quem melhor soube aproveitar o desenvolvimento do futebol como um negócio extraordinário foi o continente europeu.

Não há nem sequer um grande nome do futebol mundial que não esteja na Espanha, na Itália, na Inglaterra ou na Alemanha.

E os países periféricos, embora tecnicamente do Primeiro Mundo do ponto de vista do talento que produzem, se transformaram em meros exportadores de pé de obra, numa inversão tal de valores que em vez de exportarem o espetáculo acabam por exportar os artistas.

Brasil e Argentina são os dois mais eloqüentes exemplos do fenômeno no continente americano, algo que afeta também a África.

Não fosse assim e a Seleção Brasileira teria mais que apenas dois jogadores que atuam no país convocados para defendê-la no começo das eliminatórias para a Copa do Mundo de 2010, na África do Sul.

Ou no time pentacampeão teria mais que só o goleiro Marcos e os volantes Gilberto Silva e Kléberson entre os titulares, os dois últimos, em seguida, vendidos para o exterior.

E, por quê?

Porque nem o real nem o peso podem concorrer com o dólar ou com o euro, dizem os conformados --e os cartolas que lucram com tal estado de coisas.

Dos cartolas duas CPIs recentes no Congresso Nacional já trataram devidamente.

E uma recente investigação da parceria Corinthians/MSI, feita pela Polícia Federal apenas acrescentou novas informações sobre os métodos da lavagem de dinheiro indiscriminada, que também é face da globalização, para legalizar dinheiro de drogas, contrabando de armas e outros crimes. Trata-se de crime, também transnacional, é claro

Os conformados com nosso papel secundário é que precisam pensar mais sobre o tema, não aceitar explicações simplórias e, então, agir, para impedir que o êxodo se perpetue.

E não só o êxodo.

A CBF tem uma política deliberada de apoiar a ida de nossos ídolos para a Europa e por diversas razões.

Dona da maior grife do futebol mundial, a entidade não quer concorrência interna como nos anos 60, quando, por exemplo, Santos e Botafogo eram, com freqüência, capazes de excursionar pelo mundo com cotas maiores que a da Seleção Brasileira.

Além do mais, argumenta-se na CBF que nossos jogadores adquirem uma consciência tática e uma saúde física que não teriam se ficassem no Brasil, além de se acostumarem a enfrentar em seus campeonatos aqueles que encontrarão nas Copas do Mundo.

Se nos tempos do complexo de vira-latas de Nelson Rodrigues, os atletas brasileiros se assustavam com a saúde de vaca premiada dos europeus, hoje são eles que ficam atemorizados ao ver a Seleção Brasileira perfilada com os melhores jogadores de cada time europeu reunidos numa equipe só.

Se, em tese, tal política traz benefícios à CBF, por outro acarreta prejuízos óbvios ao futebol disputado no país.

Um dos mais visíveis é o de que não se encontram camisas de clubes brasileiros nas lojas de material esportivo pelo mundo afora, embora as da Seleção sejam as mais expostas nessas mesmas lojas.

Só que não é tão difícil encontrar as do Boca Juniors e do River Plate, porque os grandes clubes argentinos são menos submissos que os nossos.

Outro prejuízo, ainda mais letal, está em que a torcida brasileira paulatinamente perde seus vínculos com a Seleção.

Não se discute mais apaixonadamente em torno de uma convocação, porque nem o centroavante do Flamengo, nem o meia do Corinthians, nem o goleiro do Cruzeiro estão cotados, ao contrário do atacante do Barcelona, do defensor do Milan ou, até, do atleta que joga na Ucrânia.

Sim, porque a globalização que atingiu o futebol brasileiro não se restringe a levar os jogadores para países do dito Primeiro Mundo, leva também para a Turquia, Ucrânia etc, demonstração cabal de que a explicação para o êxodo não está na economia nacional, mas, sim, no modelo de gestão arcaico, e nada transparente, de nosso futebol.

Por incrível que pareça, em pleno século 21, o futebol brasileiro convive com a globalização e com suas capitanias hereditárias ao mesmo tempo, numa simbiose deletéria.

A perda de vínculo com a Seleção é tamanha que o time da CBF é capaz de passar dois anos sem se exibir no Brasil, como acaba de acontecer.

E se as vitórias ainda são capazes de causar euforia, as derrotas se limitam não mais a entristecer, mas a revoltar e trazer à tona acusações que rotulam os jogadores como mercenários, uma enorme injustiça, diga-se, porque atuam na Seleção por prazer, milionários que estão com o que ganham em seus clubes. Muitas vezes, ao contrário, se sacrificam para poder atender às convocações e não raramente pagam dos próprios bolsos as passagens aéreas, para serem reembolsados mais tarde.

Verdade que a vida fora do país mudou muito o comportamento de nossos jogadores, cada vez menos parecidos com os boleiros de antigamente e cada vez mais com os popstars de hoje em dia, todos com seus empresários, procuradores, agentes, assessores de imprensa e muita, mas muita artificialidade.

Nada mais difícil, hoje me dia, do que tirar uma declaração espontânea de algum ídolo do futebol, razão pela qual até a cabeçada de Zidane serviu para humanizar a Copa, disputada em sua grande parte em modernos e belíssimos estádios, apesar de sem alma, quase como se fossem de plástico.

Zidane, por sinal, franco-argelino como Albert Camus, que um dia disse que as melhores lições de ética que teve na vida foram dentro de um campo de futebol, goleiro que foi -- e que sempre defendeu que a única questão filosófica realmente relevante na vida é a coragem do suicídio.

Pois o capitão da seleção francesa suicidou-se publicamente em plena decisão da Copa, a poucos minutos de sua despedida dos gramados, como se desse um basta à hipocrisia do negócio do futebol.

Quem esteve na Copa da Alemanha, aliás, muitas vezes se perguntou se estava vendo um campeonato esportivo ou um festival de rock.

Nostalgia, romantismo, saudosismo?

Talvez um pouco, mas só um pouco.

Diante da inexorável mercantilização do futebol é inútil combatê-la, mas é essencial denunciar seus descaminhos, até para torná-la mais eficaz.

Como aconteceu no Brasil nos anos 70, quando os bicheiros tentaram se apropriar dos clubes de futebol como já haviam feito com as escolas de samba, em busca de reconhecimento social, agora são os bilionários de fortunas suspeitas que repetem a estratégia, em escala planetária, como se constata na Inglaterra.

Clubes londrinos tão tradicionais como o Chelsea e o Arsenal são alvos da cobiça dos que se beneficiaram da privatização das empresas estatais da ex-União Soviética, o primeiro já devidamente dominado.

A boa imprensa britânica grita, critica, denuncia e não por ser contra o avanço do capitalismo, mas por querer vê-lo dentro dos limites compatíveis com a prática esportiva.

Afinal, foi um escocês, Bill Shankly, ex-técnico e gerente do Liverpool em seu período de ouro, filósofo do futebol que era, o autor da célebre frase: "É claro que o futebol não é uma questão de vida ou de morte. É muito mais do que isso."

Militante do Partido Comunista Brasileiro, João Saldanha morreu sem se conformar com os rumos que o futebol tomava ainda em 1990.

Ele que se insurgia até contra as placas de publicidade nos estádios por considerar que, além de botar em risco a integridade física dos jogadores, elas poluíam o visual do jogo.

De fato, numa época em que eram de ferro, as placas fizeram algumas vítimas entre os que não conseguiam brecar em tempo de não se chocar contra elas.

Mas passaram a fazer parte do cenário do futebol, sem maiores problemas.

A publicidade nas camisas dos times, então, horrorizava o velho João Sem Medo, incapaz de aceitar aquelas manchas nos mantos sagrados de times tão tradicionais.

Fato é que apenas o Barcelona, um caso à parte no mundo do futebol por causa do nacionalismo catalão, conseguiu resistir ao fenômeno, fundamental para as finanças de qualquer grande clube.

Conviver com tudo isso, portanto, não só passou a fazer parte do dia-a-dia do futebol como, na verdade, passou a ser legítima preocupação na busca de mais rentabilidade e excelência do espetáculo.

Com todos os riscos que embute.

Para o historiador marxista Eric Hobsbawm "a capacidade de o futebol de ser um símbolo de identidade nacional há muito é conhecida. No meu livro sobre nacionalismo eu escrevi que ‘a comunidade imaginária de milhões parece ser mais realista do que um time de onze pessoas’. Atualmente, indubitavelmente, isto é mais importante do que nunca na história, já que grandes jogadores são recrutados de quase todos os cantos do
mundo. Acho que só participar de uma Copa do Mundo é que faz as pessoas que vivem no Togo ou em Camarões darem-se conta de que são cidadãos de seus países. Posso entender o apelo deste tipo de patriotismo, mas eu não tenho entusiasmo nenhum pelo nacionalismo.".

E cada vez mais autores se debruçam sobre o tema, como no excelente livro do jornalista americano Franklin Foer – "Como o futebol explica o mundo, um olhar inesperado sobre a globalização" (Jorge Zahar Editor).

Da questão religiosa, na Escócia, passando pelo anti-semitismo, violência de torcidas, na Inglaterra, racismo na Ucrânia, novas oligarquias na Itália, sempre tendo o futebol como tema, nos Estados Unidos, inclusive, onde a esquerda o elegeu por ser menos truculento que o chamado futebol americano, até a corrupção dos cartolas, adivinhe onde, no Brasil, é claro, Foer produz uma série de reportagens formidáveis.

Segundo ele mesmo, com o cuidado de não ser "demasiado hostil à globalização que, com todas as suas muitas falhas, fez com que o futebol chegasse aos recantos mais distantes do planeta, e à minha vida."

E este é o ponto.

Por Juca Kfouri às 00h20

O Brasil e a golbalização - 2

Porque não se trata de nenhuma bandeira quixotesca a rebeldia contra o que está estabelecido, mas, sim, trata-se de tentar corrigir rumos sem aceitar passivamente o que para muito está escrito e ponto final.

No fundo, é como disse Hobsbawm em recente entrevista à "Folha de S.Paulo": "O futebol sintetiza muito bem a dialética entre identidade nacional, globalização e xenofobia dos dias de hoje. Os clubes viraram entidades transnacionais, empreendimentos globais. Mas, paradoxalmente, o que faz o futebol popular continua sendo, antes de tudo, a fidelidade local de um grupo de torcedores para com uma equipe. E, ainda, o que faz dos campeonatos mundiais algo interessante é o fato de que podemos ver países em competição. Por isso acho que o futebol carrega o conflito essencial da globalização. Os clubes querem ter os jogadores em tempo integral, mas também precisam que eles joguem por suas seleções para legitimá-los como heróis nacionais. Enquanto isso, clubes de países da África ou da América Latina vão virando centros de recrutamento e perdendo o encanto local de seus encontros, como acontece com os times do Brasil e da Argentina. É um paradoxo interessante para pensar sobre a globalização".

De fato.

De um lado, a força propulsora do capitalismo em busca de mais e mais lucro e rentabilidade. Do outro, a sobrevivência de um modelo nacionalista que convive dialeticamente com a internacionalização, como se para ser um ídolo global é necessário ser, antes, do seu país natal.

Muito antes do fenômeno da globalização, o jornalista Renato Pompeu em seu romance "A saída do primeiro Tempo" (Editora Alfa-Omega), já propunha uma "teoria do futebol".

Nela, com extrema graça e criatividade, defende, por exemplo, que a semana inglesa foi criada para permitir que os súditos de Sua Majestade, a Rainha, jogassem bola aos fins de semana.

Sim, cada vez mais surgem pensadores que explicam o mundo pela bola e recentemente mesmo chegou às livrarias outra brilhante pensata sobre o tema, do historiador medievalista da USP, Hilário Franco Júnior, "A Dança dos Deuses - Futebol, Sociedade, Cultura" (Companhia das Letras).

Ao tratar da importância que o esporte assumiu no mercado do entretenimento, Franco mostra que 3% do PIB europeu vêm dele, com parcela importante do valor constituída pelo que o futebol gera.

Calcula-se que o futebol gere empregos para 450 milhões de pessoas pelo mundo afora, o que permite dizer que, direta ou indiretamente, cerca de 2 bilhões de almas vivem do esporte, quase 1/3 da população mundial.

A estimativa é do ex-presidente da Fifa, João Havelange, o brasileiro que estava na hora certa no lugar certo e comandou a virada da entidade ao assumi-la em 1974, quando as fronteiras já começavam a cair.

Apesar de ter criado um modelo exclusivista, para pouquíssimos, Havelange aliou-se ao capital multinacional da Adidas e da Coca-Cola, entre outros, para disseminar o futebol pelos continentes africano e asiático, além de dedicar especial atenção aos Estados Unidos, que até recebeu a Copa do Mundo de 1994.

Se o futebol dos homens ainda não é um sucesso na terra de Tio Sam, o das mulheres é, atuais campeãs olímpicas que são.

Ainda segundo Franco revela, o estudo Soccereconomics 2006, feito pelo banco holandês ABN-AMRO, "estimou em 0,7% a taxa suplementar de crescimento no país que ganhasse o Mundial daquele ano, em função do maior consumo de bebidas, comidas, material esportivo e suvenires, mas sobretudo devido ao aumento da auto-estima nacional, que leva a população a investir e consumir mais.

De fato, nem sempre se avalia corretamente o quanto o futebol influencia a vida das pessoas.

Há quem diga, por exemplo, que Fernando Henrique Cardoso deve muito de sua primeira eleição à vitória na Copa do Mundo de 1994.

Claro que o Plano Real teve influência decisiva, mas, lembremos: o Brasil vinha da derrocada do governo Collor, acabara de sofrer o trauma da perda do maior ídolo nacional de então, o piloto Ayrton Senna, e estava com sua auto-estima em estágio de elevadíssima depressão, quadro ideal, talvez, para mudar tudo, para tentar o que não ainda não havia sido tentado depois de governos ditatoriais e do fracasso dos primeiros governos democráticos, de José Sarney e Fernando Collor, eleito diretamente, ainda por cima.

Quem sabe um operário não daria jeito na coisa?

Só que não foi daquela vez, porque a vitória obtida por Romário e sua trupe em gramados americanos mudou o humor do país, que preferiu esmagadoramente o professor que tinha virado ministro e estabilizado a moeda.

Tão importante, no entanto, como vencer a inflação, era o tetracampeonato, depois de 24 anos da conquista do tri.

Mas, atenção: não leve a ferro e fogo tamanha digressão.

Porque nada autoriza a que se suponha que o tricampeonato seja creditado à ditadura Médici, pois a História dá a ele o que lugar que fez por merecer, o das sombras, e a Pelé, Tostão&cia o que lhes cabe, o da glória.

Em bom português, imaginar que o povo confunda vitórias esportivas com os governantes do momento é ledo engano, assim como é desrespeitar sua inteligência.

Mas que afeta humores, afeta, e muito.

Daí, também, o inconformismo de quem tem senso crítico em relação ao estágio do futebol no dito país do futebol, o nosso.

Verdade que não somos, a Inglaterra é muito mais pelo que o reverencia, e mesmo a Argentina parece levar vantagem em dosagem de paixão.

Importante dizer que em todas as pesquisas de tamanho de torcidas no Brasil, o contingente maior é o dos que não se interessam por futebol, só depois vindo as torcidas do Flamengo e do Corinthians.

O que não impede que se constate como maltratamos o futebol no patropi.

Em plena fase de globalização da economia, o futebol brasileiro ainda está no estágio da acumulação pré-capitalista e, como tal, vive na base da pirataria, como bem demonstraram duas CPIs no Congresso Nacional no ano 2000.

Lamentável que nos sujeitemos a ser pólo passivo numa atividade em que somos, sem sombra de dúvida, como na música, de Primeiro Mundo.

Já foi dito e aqui é repetido que as diferenças econômicas entre os maiores centros do futebol mundial explicam muita coisa, mas não justificam todas elas.

Por exemplo: o Brasil tem o 10º. PIB do mundo e a Espanha o nono, com uma diferença de cerca de US$ 158 milhões.

A Itália está em sétimo lugar no ranking, quase com o dobro do nosso PIB, mas a Rússia está em 11º, assim como a Turquia está em 18º, com 1/3 de nosso PIB, e a Ucrânia em 52º, quase 10 vezes menor.

E perdemos jogadores para todos esses países, sem exceção, entre tantos outros.

É claro que o euro pesa, que a União Européia pesa, que o preço dos ingressos pesa, que as cotas de TV pesam.

Mas nosso mercado publicitário é equivalente ao de Espanha e Itália, nossa população, é muito maior, a capacidade instalada de nossos estádios é do mesmo porte e o que nos falta é gestão, é visão, e é, também, menos corrupção no futebol.

Porque em nossa Belíndia ainda não fomos capazes nem de dar à Bélgica aquilo que ela está disposta a pagar em termos de conforto e segurança nos estádios, nem de dar à Índia aquilo que merece como forma de lazer popular compatível com seu padrão de vida.

Na verdade, vivemos sem saber o que queremos ser quando crescer em matéria de política esportiva e não temos sido capazes de nos aproveitar das oportunidades que a globalização oferece, limitados ao papel de exportar matéria prima, como nos tempos da dependência do país essencialmente agrícola.

Nosso futebol, assim como nosso vôlei, é tão bom como o café que produzíamos e se, então, vendíamos o que por aqui havia de melhor sem nos preocupar com a criação de um mercado interno digno desse nome, agimos igualmente hoje em dia em relação aos nossos Ronaldos, Kaká, Giba e Ricardinho.

Ao exercer seu poder imperial, a Fifa jamais é contestada no Brasil, diferentemente do que acontece na Europa.

A ponto de, ainda em 1990, o então só bilionário presidente do Milan, Silvio Berlusconi, acima de qualquer suspeita de esquerdismo, ter feito o alerta de que as Copas do Mundo eram daninhas ao progresso dos clubes.

Sua argumentação era de uma clareza incontestável.

A Itália tinha acabado de sediar a Copa e havia sido eliminada, nas semifinais, pela Argentina, em Nápoles.

Duas temporadas do Campeonato Italiano, em 1988 e 1989, tinham sido prejudicadas pelas reformas nos estádios que receberiam a Copa, sem, portanto, capacidade total naqueles anos, em prejuízo das bilheterias.

O Milan cedeu quase todos os seus jogadores tanto para a seleção italiana como para a holandesa, cujos três maiores jogadores (Rijkard, Gullit e Van Basten) lhe pertenciam.

Pois bem, não só a Holanda foi eliminada na primeira fase como a Itália, que era a favorita por jogar em casa, acabou eliminada.

"E agora, findo o fiasco geral, vem a dona Fifa e diz: ‘Reerga o futebol’", reclamava o empresário que viraria o mais poderoso homem da Itália anos depois.

Berlusconi radicalizava e propunha que as Copas do Mundo fossem disputadas pelos clubes, com suas legiões de estrangeiros, ao argumentar que o futebol globalizado já não dava conta de se manter tendo como grande atração, a cada quatro anos, um torneio de seleções nacionais. "Que se limitem ao enfrentamento nos Jogos Olímpicos", propunha.

Hoje, a liga dos clubes europeus exerce forte influência para limitar as vontades da Fifa e por utópico que pareça, talvez não esteja longe o dia em que a proposta do histriônico ex-premiê se torne realidade.

Ao contrário, no Brasil, temos sido incapazes de fortalecer a estrutura clubística e em vez de aprofundarmos o potencial capitalizador de nosso futebol vivemos, isso sim, à base da socialização da miséria.

A superestrutura dirigente do futebol nacional é muito mais do que conservadora, é extremamente reacionária, como tal refratária a qualquer mudança de modelo de gestão e, para piorar, corrupta e corruptora, além de sedutora.

Provas recentes disso temos às fartas.

Acaba de ser aprovada a Timemania, uma loteria que será utilizada para que os clubes paguem suas dívidas com o Estado brasileiro, aí compreendidas as com a Previdência Social e com a Receita Federal.

Por Juca Kfouri às 00h17

O Brasil e a golbalização - 3

Ao dar com u'a mão, o governo não se preocupou em exigir, com a outra, nenhuma forma de contrapartida, premiando, enfim, os que construíram a dívida.

Não se exigiu, por exemplo, para aderir à loteria, a administração empresarial do futebol profissional, como se faz na Europa.

Até mesmo a recém aprovada Lei de Incentivo ao Esporte nada exigiu como mudança de modelo.

Tudo isso num governo presidido por quem, torcedor que é, está cansado de conhecer as mazelas da cartolagem.

Mais: por quem assinou como as duas primeiras leis de seu mandato, em 2003, o Estatuto do Torcedor e a chamada Lei da Moralização do Esporte, ambas milagrosamente aprovadas por unanimidade no período FHC e generosamente sacramentadas por Lula.

Em seu discurso, na cerimônia de assinatura, Lula garantiu: "Nunca mais o torcedor será tratado como gado no Brasil e nunca mais os dirigentes esportivos deixarão de ser responsabilizados por seus atos".

Não havia, então, um cartola no ato, no Palácio do Planalto.

Poucos meses depois, no entanto, à custa de levar a Seleção Brasileira ao Haiti, presidentes da República e da CBF estavam de braços dados, congraçamento que só se aprofundou de lá para cá e as Timemanias da vida são só uma face dessa moeda.

A outra é a organização da Copa do Mundo de 2014 no Brasil, algo de que o país pode sim dar conta, desde que com a nossa cara e o nosso tamanho.

Mas o que se anuncia é uma Copa do Mundo da Alemanha no Brasil, desperdício de dinheiro público em novos estádios, sinônimos de elefantes brancos tão logo a Copa termine.

Basta dizer que os Estados Unidos não ergueram nem sequer uma nova praça esportiva para sediar a Copa de 1994 e a França construiu apenas uma, em Paris, para a Copa de 1998, que teve jogo até no estádio de Marselha, construído para a Copa de 1938!

Sim, porque globalização não é sinônimo de opulência, nem muito menos de gastança, ou, ao menos, não deve ser, principalmente para quem ainda é candidato a ter papel importante em seu cenário.

Para deixar de ser mero coadjuvante na globalização do futebol, o Brasil precisa de uma nova classe dirigente em seu esporte, executivos que tenham saído das escolas com a perfeita compreensão do fenômeno, capacitados a pensar o futebol como negócio na indústria do entretenimento, conscientes de que, no entanto, este é um negócio diferente dos demais, no qual se o lucro é vital, ser campeão é o primeiro objetivo.

Negócio singular em que a cabeça fria do empresário precisa ser usada para exacerbar a cabeça emocional do consumidor, no qual o ídolo não pode ser tratado como mercadoria qualquer, mas como alguém vital para a prosperidade do empreendimento.

Administrado como se deve, certamente o futebol brasileiro não poderá fazer frente às propostas milionárias de um Milan, uma Inter, de um Barcelona ou Real Madrid, àqueles jogadores que tiverem brilhado numa Copa do Mundo, craques já consagrados, como nem mesmo os alemães e franceses conseguem concorrer.

Mas não só os preços pagos serão equivalentes aos das transações entre os próprios clubes europeus, cinco, seis vezes maiores do investido para tirar os ídolos brasileiros, como se evitará o êxodo das promessas que vão embora antes mesmo de disputar uma Copa do Mundo, por quantias invariavelmente ridículas.

Porque há casos emblemáticos.

O atacante Élber, já aposentado, é um deles.

Ele surgiu no futebol em Londrina e com 19 anos, em 1991, foi jogar na Suíça, no Grasshopper (?!). Lá fez sucesso e se transferiu para o Sttuttgart, da Alemanha, de onde foi para o poderoso Bayern de Munique, Lyon, da França, sempre fazendo gols e até chegando à Seleção Brasileira, com menos brilho.

Terminou sua carreira em 2006, no Cruzeiro, e, então, ao defender o clube mineiro, pela primeira vez jogou no Maracanã, santuário não só do futebol brasileiro, mas do mundial.

Outro caso é o do centroavante Afonso, que surgiu no Atlético Mineiro aos 20 anos, em 2001, e nem bem jogou como titular foi, no ano seguinte, para a Suécia, de onde se transferiu para o holandês Heerenveen (??!!), onde tantos gols fez que acabou convocado para a Seleção Brasileira, sem que Dunga, o técnico, jamais o tivesse visto jogar, assim como a esmagadora maioria da torcida e de imprensa especializada brasileiras.

Élber e Afonso existem aos montes, assim como os mais raros Ronaldos e Kaká, ou, mais raros ainda, Pelé e Mané Garrincha, que jogaram a vida toda no Brasil, em outros tempos, é claro, tempos que acabaram como o próprio Pelé testemunhou quando decidiu terminar sua carreira nos New York Cosmos, ao integrar o esforço de popularização do futebol nos Estados Unidos.

Será chover no molhado dizer que a globalização está aí e não adianta vociferar contra ela, murro em ponta de faca.

Mas que outro murro, o do choque de gestão, pode tornar o Brasil mais ativo neste banquete também no futebol, só não vê quem não quer, ou se aproveita da pirataria, como os corsários ingleses, que se deram bem, é verdade, na origem do capitalismo, embora o Império Britânico tenha se dado ainda melhor, algo, por enquanto, distante da terra de Macunaíma.

Por Juca Kfouri às 00h17

Sobre o autor

Formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999. Atualmente está também na ESPN-Brasil. Colunista de futebol de "O Globo" entre 1989 e 1991 e apresentador, desde 2000, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha.

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