Blog do Juca Kfouri

Tabelinha com Juca

Segundas-feiras, às 15h

16/01/2010

"Bem-vindo ao Congo". E daí?

O blogueiro está em férias.
 
Mas deixa alguns capítulos do livro "Por que não desisto", lançado pela Editora Disal, em 2009, e organizado pelo jornalista Márcio Kroehn, autor dos pequenos comentários (em vermelho) que apresentam os artigos do blogueiro.

"Bem-vindo ao Congo". E daí? 

Algumas comparações são mal colocadas e são feitas, sobretudo, por aqueles que não olham para o próprio umbigo. O fato é que não importam quem seja o espelho, as feridas (ou os orgulhos) são sempre cutucados sem que se reaja, se enfrente e se acabe com os problemas já conhecidos, mas jogados para debaixo do tapete.

Que o gerente de imprensa do Comitê Olímpico norte-americano fez uma brincadeira infeliz ao chegar ao Brasil e escrever "Bem-vindo ao Congo" é fora de discussão.

Kevin Neuendorf já foi devidamente punido e afastado. Talvez aproveite para estudar geografia, porque nem sequer distinguiu a qual Congo se referia, se ao Congo-Brazzaville ou ao Congo-Kinshasa, também chamado de República Democrática do Congo. Seja qual Congo for, no entanto, ficam as perguntas: quem se horrorizou com a piada sem graça o fez por termos sido comparados a um país africano ou com a ignorância do bobalhão? Se ele tivesse escrito "bem-vindo à França", também haveria reações patrióticas?

As perguntas cabem porque, na Copa da Alemanha, o francês Thierry Henry declarou que a habilidade natural do brasileiro para o futebol se deve à falta de escola. "Os brasileiros jogam futebol desde que nascem. Nós tínhamos de ir à escola das 8h às 17h e, quando pedíamos permissão à mãe para jogar, ela dizia não. Eles jogam das 8h às 18h, então em algum momento a técnica aparece", arrematou o craque.

E muita gente se ofendeu por aqui, embora seja inegável a verdade que, desafortunadamente, a frase contém. Ou estamos felizes com o padrão educacional brasileiro e temos nossas crianças bem atendidas na rede escolar, seja a pública, seja a particular? Ou não é verdade que um dos poucos meios de ascensão social para a garotada excluída é o futebol, ou a música, ou, por pouco tempo, o tráfico de drogas?

Confesso a minha também ignorância sobre a quantas anda a corrupção nos Congos. Nem sei quem é o presidente do Senado deles.

Nem se a Gautama já andou por lá (e é possível), ou se jovens de classe média batem em brancas pela madrugada. Ou se há mensalão, mensalinho, apagão aéreo, sanguessugas, ou mosquito da dengue, embora saiba, ao menos, que o calor é forte, como no Rio, ou em Nova York no verão. Carros blindados, há?

O que sei, ainda, é que não há o menor motivo para nos fazermos de indignados quando verdades são ditas sobre o Brasil, por mais que venham da boca de estrangeiros. Afinal, a mesma globalização que descaracterizou a seleção de futebol, permite que cada um dê sua opinião sobre tudo e todos, como, por exemplo, Carlos Nuzman fez questão de ridicularizar os Jogos Pan-Americanos de Santo Domingo, em 2003.

Verdade que começa a pagar pela língua mais cedo do que imaginava, com todos os atrasos do Rio-2007 e com a proteção que cobre seus parentes e amigos, cada vez mais revelada, onde se cutuca nas diversas empresas que gravitam em torno do evento.

O americano no Rio pode se imaginar no Congo como nós podemos dizer que George W. Bush não passa de um sanguinário mentiroso. É jogo jogado.

O que não podemos é defender que nossas mazelas fiquem escondidas do mundo, porque sempre haverá alguém para mostrar que o rei está nu.

E a nudez nacional é daquelas de dar vergonha, no esporte e fora dele, em partes iguais.

(Publicado na “Folha de S.Paulo” de 09/07/2007)

Por Juca Kfouri às 02h23

15/01/2010

Terceira classe com preço VIP

O blogueiro está em férias.
 
Mas deixa alguns capítulos do livro "Por que não desisto", lançado pela Editora Disal, em 2009, e organizado pelo jornalista Márcio Kroehn, autor dos pequenos comentários (em vermelho) que apresentam os artigos do blogueiro.

Terceira classe com preço VIP

Os Jogos Pan-Americanos não estão para as Olimpíadas como a Eurocopa está para a Copa do Mundo. Se no segundo caso há rivalidade pela qualidade técnica e interesses comerciais, o primeiro está muito distante. É como se fosse uma grande confraternização, embora se pague caro por ela.

Há quem diga que os Jogos Pan-Americanos são um evento como os Jogos Abertos do Interior, mas falados em espanhol.

É maldade.

Mas, de fato, são um evento de terceira classe no mundo esportivo.

A tal ponto que os norte-americanos nunca mandam seus melhores atletas. Fazem alguma concessão, no máximo, quando eles é que são os anfitriões.
Basta dizer que em toda a história de 14 edições do Pan (o primeiro foi em 1951), apenas dez recordes mundiais foram quebrados em suas pistas, piscinas ou estandes.

Para que se tenha uma idéia, só na última Olimpíada, em Atenas, foram batidas nada menos que 21 marcas mundiais.

Mais: sem querer desmerecer nada nem ninguém, entre os recordes batidos em edições do Pan estão quatro obtidos sob os efeitos do ar rarefeito da Cidade do México, em 1955 e 1975, inclusive os dois do salto triplo de Ademar Ferreira da Silva e de João do Pulo.

Outros três foram obtidos pela máquina de nadar Mark Spitz, dos Estados Unidos, em 1967, no Canadá, América do Norte.

E desde 1979, em San Juan de Porto Rico, quase 30 anos em 2007, que não se bate um recorde mundial em Pan.

Jogos de terceira classe.

Mas nem por isso, diga-se, deixam de ter sua graça.

E os Jogos Pan-Americanos têm (tinham) tudo para fazer bem à cidade do Rio, nosso melhor e mais belo cartão de visita.

Está na cara, no entanto, que não só não farão bem como farão mal. Ao Rio e ao país.

Porque a gastança desenfreada que os jornais vêm denunciando é criminosa (as TVs, por conta de transmitirem os Jogos se fazem de sócias do empreendimento e esquecem de fazer jornalismo, com a exceção de praxe, a “ESPN Brasil”).

A "Folha", o "Estadão", o "Globo", o diário "Lance!", não passam um dia sem mostrar irregularidades, excessos, desmandos, cinismo, com dinheiro, muito dinheiro público (R$ 1,5 bilhão) no meio e que envolvem autoridades do governo e do glorioso COB, que ainda pede mais, mais e mais, chantagem que era prevista diante do fato consumado e da necessidade de salvar a imagem do país.

Neste carnaval deprimente, Momo não poderia ficar de fora, e eis que o Ministério do Esporte destinou mais de R$ 2 milhões para a Portela divulgar o evento em seu enredo, conforme está no Diário Oficial da União do último dia 19.

Até o Diário Oficial!

É claro que não tem graça, porque é dinheiro que faz falta aos projetos, capengas, de inclusão social por meio do esporte etc e tal.

Enfim, já que receber a Olimpíada será mesmo impossível a curto prazo, o Brasil resolveu gastar no Pan como se fosse no evento maior. Compramos um Fusca e pagamos como se fosse um Jaguar.

(Publicado na “Folha de S.Paulo” de 29/01/2007)

Por Juca Kfouri às 00h48

14/01/2010

Incentivo ao esporte nacional

O blogueiro está em férias.

Mas deixa alguns capítulos do livro "Por que não desisto", lançado pela Editora Disal, em 2009, e organizado pelo jornalista Márcio Kroehn, autor dos pequenos comentários (em vermelho) que apresentam os artigos do blogueiro.

Incentivo ao esporte nacional 

O futebol é o único esporte considerado profissional. Os demais são tratados como amadores e vivem a por tigelas para arrecadar recursos para sobreviver. Nos últimos anos, não faltou dinheiro, muito menos incentivo, para muitas modalidades. 

Graciliano Ramos já dizia que a pernada é o grande esporte nacional. E é sem nenhuma alegria, até por saber que tem gente boa a favor, que aqui se descreverá por que a Lei de Incentivo ao Esporte não passa de mais um golpe, de mais uma rasteira da velha cartolagem que há décadas se encastelou no poder. 

Não se discutirá aqui se o dinheiro arrecadado pelos inúmeros impostos que pagamos é bem ou mal aplicado, por ocioso. 

Mas se procurará demonstrar que o quinhão que poderá ser desviado para a prática esportiva acabará nas mãos dos de sempre e será tão mal gasto como o proveniente da Lei Piva ou das estatais, dinheiro que irá para os "amadores" muito mais afeitos às mordomias do que ao desenvolvimento do esporte no país, que não lhes interessa. 

Normalmente, para quem gosta de esporte, a lei teria mesmo que ser festejada. 

Mas é incrível que quase ninguém se levante contra a falácia que foi aprovada na Câmara - para ser justo, com apenas uma voz discordante, a do deputado José Carlos Aleluia (PFL-BA). 

Porque ao contrário do que disse o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Nuzman, que a cada aprovação de mais dinheiro proclama a salvação da lavoura, o problema de nosso esporte não é de verba, é, antes de mais nada, de gestão e de transparência. 

Pois não existe uma política para o esporte brasileiro e até hoje não se sabe que modelo seguir, o que queremos ser quando crescermos. 

Ao mesmo tempo em que se reivindica por mais benesses do Estado, se exige que este permaneça afastado em nome da autonomia das entidades esportivas, verdadeira terra de ninguém e da impunidade generalizada. 

Não é por falta do meu, do seu, do nosso pobre dinheirinho que o basquete brasileiro, por exemplo, se encontra na draga em que se encontra atualmente. 

Basquete que, quase 50 anos atrás, com muito menos recursos, era bicampeão mundial. 

Não foi por falta de dinheiro, também, que o tênis não soube se aproveitar da "onda Guga", quando milhares de jovens despertaram para sua prática. Foi por falta de competência e de vergonha na cara. 

O que acontecerá não é difícil de prever. Os clubes de futebol, atores de escândalos sobre escândalos, imediatamente se verão novamente apaixonados pelos esportes olímpicos e tratarão de abocanhar a maior parte do butim.

Porque a Loteria Esportiva não bastou, os inúmeros Refis não bastaram, a Lei Piva não foi o bastante e a Timemania não será. 

Estamos outra vez diante de uma formidável pernada, dessas de matar de estupor o grande, genial escritor alagoano. 

Ele que em célebre relatório sobre sua gestão na prefeitura de Palmeira dos Índios, em 1928, escreveu que parte dos parcos recursos de sua administração foram literalmente enterrados no cemitério local: "No cemitério enterrei 189 mil - pagamento ao coveiro e conservação". 

Melhor seria mesmo pagar coveiros do que aproveitadores. 

(Publicado na “Folha de S.Paulo” de 04/12/2006)

Por Juca Kfouri às 01h50

13/01/2010

Adeus, Zilda Arns

Por ROBERTO VIEIRA 

Em certos momentos fica difícil acreditar em Deus. 

Como pode um Deus permitir tanta miséria? 

Melhor ser ateu.

Um ateu destes que gostariam muito de acreditar em alguma coisa. 

Um ateu rezando para estar errado.

 Pois não é que hoje morreu um anjo!

 Um anjo pediatra.

 De sorriso lindo.

 Um sorriso, me desculpem o trocadilho, angelical.

 A primeira vez que vi tal sorriso.

 Foi em 1973.

 Na capa de uma revista esportiva.

 A qual trazia estampada o novo Cardeal de São Paulo.

 Eu estudava em colégio de padre.

 Onde o diretor não sorria nem deixava sorrir.

 Imaginem minha surpresa!

 Um cardeal de riso aberto na revista.

 Com uma bandeira do Corinthians.

 Descobri com o tempo que o sorriso era do mais puro aço.

 Inoxidável.

 Imprescindível.

 Inestimável.

 Dom Paulo Evaristo Arns era feito de pedra e sentimento.

Um anjo na Sé.

Anos depois conheci a Zilda.

Crianças no colo.

Amor pra dar sem vender.

O mesmo sorriso do irmão.

Um sorriso de Forquilhinha.

Quis o destino. Deus?

Levar desta terra a bela pastora.

Esse Deus que quer todos os sorrisos para si.

Pois, Deus!

Se é que você existe mesmo.

Guarda bem este anjo que hoje se foi.

Quando ajudava tantos anjos numa terra de miséria sem fim.

Guarda bem esse anjo, Deus! 

Pois a Terra ficou mais vazia no dia de hoje. 

E o céu. 

Se é que o céu existe mesmo. 

O céu ficou mais azul.

Por Juca Kfouri às 21h44

Cadê o responsável?

O blogueiro está em férias.

Mas deixa alguns capítulos do livro "Por que não desisto", lançado pela Editora Disal, em 2009, e organizado pelo jornalista Márcio Kroehn, autor dos pequenos comentários (em vermelho) que apresentam os artigos do blogueiro.

Cadê o responsável?

Sempre que os Jogos Olímpicos se aproximam um caminhão de dinheiro é despejado nas federações para dar suporte aos atletas. Um apoio pontual e desnecessário. É para a base que os olhos devem ser voltados, com condições homogêneas ao longo de toda uma carreira esportiva.

Engraçado este Brasil. Ninguém assume coisa alguma, a culpa do que está errado é sempre dos outros ou de um fator externo.

É São Pedro que não mandou a chuva que prometeu, é o árbitro que errou, são as bolas paradas, foi fulano que faltou com a confiança depositada nele etc.

Veja, por exemplo, o diagnóstico que acaba de ser feito sobre o esporte olímpico brasileiro.

É bem possível, até, que seja aquilo mesmo, um caos absoluto, típico de um país carente.

Mas nada que fosse preciso tanto tempo para ser descoberto.

A solução é óbvia: dinheiro, muito dinheiro. Coisa de R$ 100 milhões por ano até as próximas Olimpíadas, em 2004, na Grécia. Dinheiro.

Ora, assim, até eu, que sou mais bobo, dou jeito em tudo.

De criatividade não se fala, só de grana. Dinheiro!

Dê um pulo em Cuba e veja se lá existe esse dinheiro todo para o esporte. Nem para o esporte, nem para nada, diga-se.

E por que lá ainda se conseguem bons resultados, apesar do fim do auxílio soviético desde antes do fim da própria União Soviética? Invenção, criatividade, adequação às condições de pobreza do país, eis a resposta. E fiscalização.

Vejamos, agora, como vivem nossos principais cartolas olímpicos: guardadas as devidas proporções, de modo parecido dos do futebol. Gente que poucos anos atrás estava na oposição e tinha um discurso progressista e que hoje se agarra ao cargo feito macaco ao galho, porque, provavelmente, o galho é bem mais confortável do que seus discursos querem fazer supor.

É muito fácil dizer que, sem um forte investimento de dinheiro público (sim, porque também os incentivos são dinheiro público, que devia ir para uma coisa e vai para outra), os resultados olímpicos vão continuar fracos.

Dane-se, então.

Quem disse, aliás, que o Brasil que não tem comida, casa, educação, saúde, emprego, eletricidade (!), precisa de medalhas olímpicas?

O Brasil precisa, sim, de um povo que tenha acesso ao esporte, mas isso nem é cogitado nos diagnósticos do COB, entidade elitista, perfumada, de gomalina, terno e gravata e relógios reluzentes, absolutamente incapaz de formular uma política esportiva que da quantidade tire a qualidade.

(Publicado no “Lance!” de 23/05/2001)

Por Juca Kfouri às 00h29

12/01/2010

Hipócritas, cínicos e dissimulados

O blogueiro está em férias.

Mas deixa alguns capítulos do livro "Por que não desisto", lançado pela Editora Disal, em 2009, e organizado pelo jornalista Márcio Kroehn, autor dos pequenos comentários (em vermelho) que apresentam os artigos do blogueiro.

Hipócritas, cínicos e dissimulados

Nos últimos anos, os tribunais passaram a ser o destino de quem se sente contrariado com uma opinião veiculada nos órgãos de imprensa. É o caminho da reparação financeira, embora o jornalista tenha o direito, garantido pela Constituição, de publicar suas apurações sem ferir a honra e a moral de seu objeto. 

Castor de Andrade, patrono do Bangu, não era um homem de bem. Ao contrário.

Viveu da contravenção e morreu condenado pela Justiça.

Quando precisou delimitar áreas do jogo do bicho, delimitou-se à bala e enveredou, embora negasse com toda sua capacidade de persuasão, pelo tráfico de drogas.

Mas Castor de Andrade era uma pessoa extremamente simpática e sedutora como, em regra, são os malandros de verdade.

E nunca se fez de rogado ou quis passar pelo que não era. Jamais negou suas origens e gostava de dizer que nunca mudava de posição, sempre apoiava o governo, embora o governo, sim, mudasse com freqüência.

Castor de Andrade jamais se fez passar por um homem honesto e respeitador das leis.

Tinha, é claro, o seu código de ética, o do vale o que está escrito, e era leal aos seus amigos –, que o digam, aliás, João Havelange e Ricardo Teixeira, que trocavam beijos na face com ele.

Castor de Andrade em tempo algum, por exemplo, ameaçou processar ou processou jornalistas. Nem sequer forjou documentos para desmentir a imprensa.

Quando a coisa ficava muito feia para o lado dele, Castor de Andrade preferia submergir, dar um tempo. E rezava (sim, se dizia muito religioso) para esquecessem dele.

Bem diferente dessa gente cínica, hipócrita e dissimulada que infelicita o nosso futebol.

Gente que quer cometer todos os deslizes do mundo sem que ninguém conte que os cometeram.

E gente que quando vê suas artes publicadas sobe nos tamancos, faz discursos em nome da decência, ameaça com processos (alguns até, de fato, processam, para dar uma satisfação aos seus interlocutores, principalmente porque não são eles que pagam os advogados), por mais que sempre percam na Justiça.

Castor de Andrade despertava menos indignação exatamente por isso. Ele era o que era e não se fazia passar pelo que não era, ao contrário da cartolagem patrícia, que faz o que faz e ainda quer ser canonizada.

O que indigna, enfim, é isso: a corrupção, que já é suficientemente revoltante, quer, além do mais, se fazer de santa. Não fará.

O dinheiro pode comprar quase tudo, mas não compra o céu, não compra a indulgência nem muito menos o respeito da sociedade.

A mentira usa cartola.

(Publicado no “Lance!” de 14/09/2001)

Por Juca Kfouri às 00h40

11/01/2010

Lula, o cartola

O blogueiro está em férias.

Mas deixa alguns capítulos do livro "Por que não desisto", lançado pela Editora Disal, em 2009, e organizado pelo jornalista Márcio Kroehn, autor dos pequenos comentários (em vermelho) que apresentam os artigos do blogueiro.

Lula, o cartola

Três importantes medidas sancionadas no governo Lula envolvem diretamente o futebol. O Estatuto do Torcedor e a Lei de Moralização do Futebol fizeram parte dos primeiros meses de mandato do presidente. A última, a nova loteria esportiva, aconteceu meses antes da reeleição de Lula para um segundo tempo à frente da Presidência da República.

Às vésperas da assinatura das duas primeiras leis do governo Lula (o Estatuto do Torcedor e a chamada Lei da Moralização do Futebol) recebi um telefonema do chefe de gabinete da Presidência da República, Gilberto Carvalho.

Ele queria saber se eu iria à cerimônia, no Palácio do Planalto. Respondi que não. E ouvi dele que o presidente ficaria feliz se eu fosse. Fui.

Surpreso, ouvi o presidente, na abertura de seu discurso, dizer textualmente: "Nunca mais quero ouvir o Juca Kfouri dizer que no Brasil o torcedor é tratado como gado." E, no fecho, o ouvi dizer, não me recordo exatamente das palavras, que a minha presença ali significava um desagravo a todos os jornalistas que foram "perseguidos e processados" por lutar por um esporte limpo no Brasil.

Era um Lula alegre, leve e solto. Estávamos em maio de 2003 e, admito, ingenuamente, voltei para São Paulo feliz da vida.

Poucos anos depois, pouca coisa mudou. Os torcedores continuam a ser tratados como gado e o nosso esporte é tão sujo como então. Mas, sem dúvida, uma mudança houve e foi radical, estridente, calamitosa, escandalosa, brutal: Lula virou cartola de futebol.

Um Lula rancoroso e com a má consciência de quem, enfim, mergulhou seu governo na vala comum dos que o antecederam.

A ponto de inocentar os cartolas da CBF e dos clubes e afirmar que a culpa do estado de coisas em nosso futebol é nossa, de todos.

Que ele não queira assumir responsabilidades que são dele é compreensível porque, afinal, nunca soube de nada, nunca viu nada, nunca fez nada. Mas dividir culpas que têm endereço certo com quem nada tem a ver com isso é demais.

Na cerimônia de assinatura da Timemania, entre outras pérolas, Lula perguntou e respondeu: "Como é que a Espanha chegou ao que chegou? Como é que a Itália chegou aonde chegou? Dizer: "Mas, no Brasil, é porque os dirigentes não são honestos", é a coisa mais simples, é você jogar a pecha de desonesto em cima de alguém. A Itália, que é esse monstro sagrado do futebol, que já está quase perto do Brasil na conquista de Copas do Mundo, todo dia a gente tem uma denúncia no jornal, entretanto, o futebol não perde o profissionalismo." Pois é, presidente.

Na Itália, time cai por causa da desonestidade. Na Espanha, cartola é preso pelo mesmo motivo.

Aqui, seu discurso está sendo aplaudido de pé por Edmundo Santos Silva, ex-cartola impune do Flamengo, aquele que reconheceu na CPI do Futebol que não era um "criminoso comum".

E Alberto Dualib, o presidente do seu Corinthians, só não esteve de corpo presente para também aplaudi-lo porque negocia em Londres com a máfia russa para trazer mais dinheiro e cobrir os rombos de sua danosa gestão.

Foi para essa gente que está criada a Timemania, sem nenhuma contrapartida que exija mudança estrutural no modelo de gestão ou na responsabilização individual dos cartolas.

"Eu sei que tem muita gente que faz crítica, tem muita gente que fala em clube-empresa com uma facilidade, é tudo muito fácil na teoria", discursou Lula, diante da concordância agora entusiasmada de Mustafá Contursi, eminência parda do Clube dos 13 e responsável pelo rebaixamento do gigante Palmeiras tempos atrás.

Mas, mais do que isso: cartola que só não criou uma empresa sua para ficar com o Palmeiras porque a "Folha" descobriu e denunciou. Meu raro leitor: fique você sem pagar seus impostos.

Quem sabe o governo não lhe dê uma loteria para pagá-los?

(Publicado na “Folha de S.Paulo” de 17/09/2006)

Por Juca Kfouri às 00h44

10/01/2010

Profissionalismo é a alma do negócio

O blogueiro está em férias.

Mas deixa alguns capítulos do livro "Por que não desisto", lançado pela Editora Disal, em 2009, e organizado pelo jornalista Márcio Kroehn, autor dos pequenos comentários (em vermelho) que apresentam os artigos do blogueiro.

Profissionalismo é a alma do negócio

O papel de salvador da pátria é o mais disputado pelos dirigentes esportivos. Cada qual ao seu estilo perpetua-se no cargo máximo de seus clubes com um objetivo maior: ser útil à sua maior paixão. Só essa dedicação é suficiente para modificar a situação dos times brasileiros? Publicado em 1989, é como se tivesse sido escrito, digamos assim, ontem.

Era uma vez um time de futebol que usava camisas brancas. Imaculadamente brancas, como os calções. De preto só o distintivo – e um punhado de artistas como Dorval, Mengálvio, Coutinho e ele, o Rei Pelé.

O mundo parava para vê-lo jogar. E o Santos ganhava, ganhava e ganhava. Ganhava os jogos, as taças e os dólares. Muitos dólares. Enchia estádios por onde passava e os cofres da Vila Belmiro, a vila mais famosa do mundo, como se dizia então.

Os artistas se aposentaram, as camisas não são mais imaculadas, pois cederam espaço para os patrocinadores, e a Vila definhou porque os dólares eram de papel e o vento levou. Sobraram uma torcida imensa e uma enorme saudade. E a situação ficou preta.

Era uma vez um time de futebol que usava camisas rubro-negras. alegremente rubro-negras e de calções brancos. Como branco era, e ainda é, o seu maior artista, Zico. Um time que tinha Raul, Leandro, Mozer, Júnior, Tita, Andrade, Adílio, Nunes. E que, do outro lado do mundo, também conquistou a maior glória que um clube pode conquistar.

O Flamengo foi o clube brasileiro que mais venceu na década de 1980 e está longe de definhar. Tem a maior torcida do país, um patrimônio sólido, mas, também, já deixa saudade. Um branco difícil de preencher.

Saudosismo à parte, Santos e Flamengo, com destinos opostos em relação às fortunas acumuladas, são faces da mesma moeda num futebol administrado amadoristicamente. O clube paulista não teve a sorte de ser dirigido com competência. O Flamengo, ao contrário, até que teve, embora ainda sem a visão empresarial que exige tempo integral e só pode ser realizada profissionalmente.

Sim, porque não só os cartolas das entidades dirigentes deixam a desejar. Com triste freqüência, os dos clubes não são melhores. Tanto que abandonaram iniciativas como a que redundou no Clube dos 13. E até hoje não entenderam quem é que tem a força.

Nossa envelhecida legislação, para variar, tem culpa no cartório ao impedir, por exemplo, que os clubes tenham o lucro como finalidade. E tome amadorismo. Homens que, dizem eles, se sacrificam por amor ao clube. Não é por vaidade ou por paixão, nem por ambições outras. E por espírito público, juram.

Ora, basta de mártires. Que voltem para suas casas e descansem em paz, durmam o sono dos justos. O futebol brasileiro precisa de cabeças novas, de gente que saiba arrecadar os recursos para manter nossos craques por aqui – e não é preciso ser nenhum gênio em marketing para entender o que significam negócios como o Flamengo ou o Santos. Porque os gênios do mal já entenderam e fazem transações mirabolantes que revertem em seu próprio benefício. Que se dane o clube, que se danem os torcedores.

É claro que existem as exceções. Adílson Monteiro Alves, o da Democracia Corintiana, foi uma delas. Carlos Miguel Aidar e Márcio Braga, pais do Clube dos 13, outras. Paulo Odone, do Grêmio, mais uma. Eles, por sinal, jamais fizeram papel de mártires, ainda que padecendo dos males do amadorismo. Porque mártires, mesmo, são o torcedor e o futebol brasileiros.

Era uma vez a seleção canarinho que, hoje, mora na Europa. Por quê? Talvez porque, lá, a maioria dos clubes esteja organizada como empresas.

As camisas da CBF ainda podem maravilhar o planeta. Mas ao torcedor brasileiro restou apenas o amarelo no sorriso.

(Publicado em “O Globo” de 09/11/1989)

Por Juca Kfouri às 00h23

Sobre o autor

Formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999. Atualmente está também na ESPN-Brasil. Colunista de futebol de "O Globo" entre 1989 e 1991 e apresentador, desde 2000, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha.

Histórico