Blog do Juca Kfouri

Tabelinha com Juca

Segundas-feiras, às 15h

23/01/2010

Está na hora de criar a ANE

O blogueiro está em férias.
 
Mas deixa alguns capítulos do livro "Por que não desisto", lançado pela Editora Disal, no ano passado, e organizado pelo jornalista Márcio Kroehn, autor dos pequenos comentários (em vermelho) que apresentam os artigos do blogueiro.

Está na hora de criar a ANE

O Campeonato Brasileiro de 2005 vai ser eternamente lembrado pela intervenção do árbitro Edílson Pereira de Carvalho na manipulação de 11 jogos. Dentro desse contexto, a proposta de criação de uma entidade mediadora entre o interesse público e o privado ajudaria a garantir direitos e deveres das duas partes.

Está na hora de pensar numa Agência Nacional do Esporte (ANE). Para fazer o meio-de-campo entre o público e o privado, entre o cidadão e o governo.

É verdade que a idéia das agências não pegou direito no país. A velha história de sempre. Os governos tentam instrumentalizá-las, por mais garantias (ou exatamente por isso) de autonomia e imunidade que haja para seus integrantes. Foi assim no governo FHC e tem sido assim no atual, de Lula.

Mas a ideia é boa e seria um avanço para garantir os direitos do torcedor neste Brasil que tenta confundir o direito assegurado de autonomia das entidades esportivas (garantido na Constituição) com a farra do boi, como se o esporte fosse uma terra de ninguém.

O artigo que a garante, o 217, nasceu da natural preocupação dos legisladores devido à ingerência indevida do Estado no período da ditadura, mas acabou por se transformar numa carta de alforria às barbaridades cometidas por CBF, COB e seus apêndices.

Uma ANE, que de fato representasse a sociedade civil, seria instrumento poderoso contra os absurdos, funcionaria como um ponto de equilíbrio para definir responsabilidades no mundo do esporte. Por exemplo: a CBF, que sempre argumenta ser uma entidade privada, embora lide com uma das áreas mais públicas do Brasil, provavelmente não escaparia ilesa de mais um escândalo nas arbitragens.

Sindicâncias não seriam feitas por pessoas indicadas pelas próprias entidades que deveriam ser investigadas, como estamos vendo tanto na CBF quanto na FPF.

O Ministério do Esporte seria cobrado em seus deslizes, que têm sido muitos, como se vê a cada dia na imprensa de modo efetivo e rápido. Não se sentaria, como está sentado, há um ano num escandaloso episódio de liberação de verba para municípios e entidade (a UNE, controlada pelo PC do B do atual ministro) inadimplentes.

É claro que da democratização do país para cá já estamos mais que vacinados contra tudo que possa surgir como panacéia, pois aprendemos que nada tem tal efeito. Mas nem por isso devemos desistir de tentar aprimorar os mecanismos de controle e de influência da sociedade nos temas que lhe dizem respeito de perto.

Apesar de a esmagadora maioria da imprensa esportiva ter apoiado a decisão de anular os 11 jogos apitados por Edilson Pereira de Carvalho, a opinião pública, em não menor esmagadora maioria, ficou contra.

(Publicado na “Folha de S.Paulo” de 09/10/2005)

Por Juca Kfouri às 00h14

22/01/2010

A vez do "esquema MSI"

O blogueiro está em férias.
 
Mas deixa alguns capítulos do livro "Por que não desisto", lançado pela Editora Disal, no ano passado, e organizado pelo jornalista Márcio Kroehn, autor dos pequenos comentários (em vermelho) que apresentam os artigos do blogueiro.

A vez do "esquema MSI"

A parceria entre o Corinthians e a Media Sports Investments (MSI), do magnata russo Boris Berezovski, estava no centro das atenções em 2005 com o escândalo da Máfia do Apito, que teve o juiz Edílson Pereira de Carvalho como protagonista. Dois assuntos polêmicos e interligados?

A CBF já foi chamada de Casa Bandida do Futebol. Valeu processo, no qual se reconheceu o direito do jornalista.

Entre outros motivos, para não falar do sagrado direito de opinião, porque no futebol quem faz gol contra joga mesmo de bandido, expressão consagrada.

E a CBF se esmera em fazer um gol contra depois do outro, sem parar. Razão pela qual o futebol não goza de credibilidade.

Nem mesmo quando a opinião pública se manifesta a favor de uma decisão, como mostrou o Datafolha em relação aos jogos anulados, a descrença diminui.

Como falou-se em "esquema Parmalat" nos anos 90, fala-se agora no "esquema MSI".

É claro que tem muito a ver com a paixão dos torcedores contrariados, com a tradicional tentativa de desqualificar as conquistas dos adversários, com as inevitáveis brincadeiras sem as quais o futebol não seria mesmo o que é.

Só que há mais. Há por que não acreditar.

Sobre a Parmalat descobriu-se depois estar envolvida num gigantesco esquema de lavagem de dinheiro, o que permitiu respaldar sérias desconfianças sobre arbitragens arrumadas para tirar o Palmeiras da fila, ainda mais numa federação de futebol, como a paulista, cujo presidente precisou cair fora para fugir da Justiça. E cujo sucessor manteve um árbitro com diploma falso.

Sobre a MSI, até antes que consumasse sua parceria com o Corinthians, já se sabia, graças à imprensa, da origem nebulosa do investimento.

Coisa que o Ministério Público paulista confirmou e o federal investiga sob sigilo, para não permitir que os investigados se previnam. Aliás, será necessário fazer uma lei que puna também esportivamente o clube que se valer de dinheiro sujo para conquistar títulos.

Árbitros erram, bandeirinhas erram, tanto quanto goleiros, centroavantes e jornalistas.

Mas ninguém desperta tamanha desconfiança como os árbitros, graças aos Ivens Mendes e Armandos Marques da vida, graças aos Ricos Terra (estou saudosista, hoje) que até admitem falar em profissionalização das arbitragens, mas correm feito o diabo da cruz de discutir a autonomia dos departamentos de árbitros, sem a qual não adiantará profissionalizá-los.

Porque se pela taxa de arbitragem os apitadores já fazem o que fazem em sua subserviência, imagine se forem assalariados de quem os escala.

Máfia da Loteria Esportiva, em 1982 (quando até dos jogadores se desconfiava), esquemas Parmalat, Ivens Mendes, caso Armando Marques/Loebeling, CPIs do Futebol, da CBF/Nike, MSI/Bóris Berezovski, escândalo dos árbitros no Paraná, caso Edílson, e outros menos votados, quem há de acreditar que Belmiro da Silva errou sem querer no jogo Paysandu x Corinthians, mesmo que a falha no primeiro gol corintiano tenha sido daquelas que a Fifa avaliza? Fifa que promove a Copa do Mundo e que faz o que fez com a Itália em 2002?

(Publicado na “Folha de S.Paulo” de 30/10/2005)

Por Juca Kfouri às 01h05

21/01/2010

À praça

O trabalhador brasileiro tem, por direito, 30 dias de férias.

Este que vos fala goza hoje de seu 18o. dia.

Voltará ao blog, ao Jornal da CBN e ao CBN EC no dia 3 e à Folha de S.Paulo no dia 4 de fevereiro;

à Tabelinha, aqui no UOL, e à Linha de Passe, na ESPN-Brasil, no dia 1o. de fevereiro;

e ao Juca entrevista, na ESPN, no sábado, 6 de fevereiro.

Agradeço aos que se queixam da ausência e informo que San Francisco, na Califórnia, é a cada dia mais linda.

Por Juca Kfouri às 13h35

Dinheiro Futebol Clube

O blogueiro está em férias.
 
Mas deixa alguns capítulos do livro "Por que não desisto", lançado pela Editora Disal, em 2009, e organizado pelo jornalista Márcio Kroehn, autor dos pequenos comentários (em vermelho) que apresentam os artigos do blogueiro.

Dinheiro Futebol Clube

A validade do contrato entre clube de futebol e investidores possibilita o sucesso instantâneo. Na história do futebol brasileiro, até hoje, as consequências mostram que o dinheiro de curto prazo desarruma o futuro de um time.

O Palmeiras reencontrou o caminho das vitórias. Bastou achar um sócio disposto a gastar para o sucesso voltar. Em outra proporção e com jogadores não tão formidáveis, o Palmeiras repete a história, desta vez não como farsa, ao que tudo indica.

Sim, porque também em 1992 o alviverde estava na fila desde 1976 e viu na parceria com a Parmalat o segredo para uma sucessão de sucessos, como, quem sabe, se repetirá com a Traffic.

Já no ano seguinte ao acordo saía da fila no Estadual e, de quebra, ganhava o Campeonato Brasileiro, façanhas devidamente bisadas em ambas as competições em 1994.

Em 1993, aliás, ainda levou o ressuscitado Torneio Rio-São Paulo. Foram tempos risonhos no Palestra Itália, no começo com o mesmo Vanderlei (era Wanderley) Luxemburgo da Silva e, na coroação da sociedade, com Luiz Felipe Scolari, campeão da Libertadores em 1999, com direito, também, a uma Copa do Brasil, em 1998.

Em 2000, último ano da co-gestão, o Verdão foi campeão de mais um Rio-São Paulo e da Copa dos Campeões, com Murtosa.

Sim, depois descobriu-se que a Parmalat era uma imensa lavanderia, algo que serviu de lição para se olhar com desconfiança para outras parcerias que surgiram depois em nosso futebol.

Mas, concomitantemente com o que acontecia no Parque Antarctica, também no Parque São Jorge pousou um parceiro, o audacioso Banco Excel. E os frutos no gramado apareceram de imediato. Acordo firmado em janeiro de 1997, vieram o título paulista daquele ano, o título brasileiro em 1998, o fim da parceria em janeiro de 1999 e o banco quebrado.

Mas quem liga?

Surgiu o HMTF, que permaneceu no Corinthians entre abril de 1999 e agosto de 2002, período de conquistas sem fim: campeão paulista de 1999 e 2001; campeão brasileiro de 1999; campeão mundial em 2000; do Rio-São Paulo e da Copa do Brasil em 2002.

Ou seja, basta um olho e bastante dinheiro para o resultado ser imediato, e a prova disso é que, sem parceiros, São Paulo e Santos só se deram bem mesmo nesse período quando houve problemas nas parcerias dos dois rivais. Desnecessário dizer que o Corinthians ainda se acumpliciou com a MSI, e da formação daquela quadrilha resultou o título brasileiro de 2005, além de inúmeros desdobramentos judiciais que atormentarão a vida do clube ainda por um longo e torturante período.

Fica claro, portanto, que com dinheiro a rodo até você, raro leitor, e eu, que somos mais bobos, comandaríamos times vencedores, seja na sala da presidência, seja no banco do treinador.

O problema é como as coisas ficam depois da ressaca dos títulos. O Palmeiras pós-Parmalat caiu para a segunda divisão, igual ao Corinthians pós-MSI, realidades que o Santos bicampeão mundial e o São Paulo tri simplesmente desconhecem, orgulhosamente.

Dinheiro ajuda, é óbvio, mas está longe de resolver todos os problemas se o modelo não mudar.

(Publicado na “Folha de S.Paulo” de 20/03/2008)

Por Juca Kfouri às 02h38

20/01/2010

Intestinos do Brasil FC

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Mas deixa alguns capítulos do livro "Por que não desisto", lançado pela Editora Disal, em 2009, e organizado pelo jornalista Márcio Kroehn, autor dos pequenos comentários (em vermelho) que apresentam os artigos do blogueiro.

Intestinos do Brasil FC 

O Esporte Clube Bahia foi campeão brasileiro de 1988. Dez anos mais tarde, já na segunda divisão e atolado em dívidas, o clube associou-se ao empresário Daniel Dantas. Era, pensava-se à época, a salvação do tradicional time nordestino. 

A prisão de Daniel Dantas não tem nada a ver com o futebol.

Mas tem tudo a ver com o futebol. Como é freqüente.

Porque é impressionante como, vira e mexe, de alguma maneira o futebol surge entre as falcatruas nacionais, assim como impressiona como é sempre a mesma gente, ou quase, que circula em torno dos mais variados escândalos.

Os mesmos especuladores, os mesmos políticos, os mesmos empresários, publicitários, quase sempre quem fez fortuna do dia para a noite por habilidades, digamos, que vão muito além do empreendedorismo, jornalistas, inclusive.

Aliás, sempre é bom desconfiar de quem faz fortuna da noite para o dia, tantos são os exemplos recentes no Brasil de quem fez e acabou indo, mesmo que apenas por algumas horas, para a cadeia. Provavelmente pessoas que acharão que o custo/benefício é positivo e ainda dirão aos seus que Nelson Mandela também esteve na prisão - e por quase uma vida inteira.

Mas, para usar a expressão cunhada por Bob Fernandes, que deu o furo das prisões de Dantas e companhia em sua revista eletrônica "Terra Magazine", o episódio é "o mais profundo mergulho nos intestinos do Brasil".

E, é claro, tem a ver com futebol. A começar do fato de o Opportunity de Dantas ter se assenhorado do EC Bahia de maneira tal que até 2008, dois anos depois do rompimento da parceria, ainda permanece com carradas de direitos sobre o clube mais popular do Nordeste brasileiro, sem contar a ajuda que deu ao tricolor na direção não dos intestinos, mas dos infernos de nosso futebol, a terceira divisão.

Em meio às descobertas mais recentes da Polícia Federal, em inquérito comandado, lembremos, pelo mesmo delegado Protógenes Queiroz que conduziu as investigações da parceria Corinthians/MSI e que hoje faz parte de um grupo internacional que combate a lavagem de dinheiro no futebol, revelou-se que só uma das empresas sob o chapéu de Dantas, a Parcom, enterrou US$ 32 milhões no Bahia, tanto dinheiro que faria do clube uma potência se, de fato, no clube tivesse sido investido. A PF aposta que não.

Quem representava Dantas na parceria com o Bahia era sua irmã, Verônica, também presa na operação Satiagraha e que até andou sendo ouvida pelo Ministério Público baiano, em 2005, sobre a sociedade entre o banco e o clube.

Verônica que, por sinal, é companheira do candidato de Ricardo Teixeira para assumir o STJD, Francisco Mussnich, membro, aliás, indicado pelo cartolão da CBF, do comitê organizador da Copa do Mundo no Brasil e advogado de um sem-número de causas do Opportunity.

Uma só transação do período da parceria entre o banco e o clube, a do lateral-direito Daniel Alves, revelado pelo Bahia, dá a medida de como as coisas funcionam: ele foi vendido ao Sevilla por US$ 1,050 milhão em 2004 e, agora, quatro anos depois, cedido ao Barcelona por US$ 55 milhões.

Pois bem: o que se estranha no caso não é nem a estupenda supervalorização, quase 55 vezes em quatro anos, mas, sim, se acusa o fato de a transação não ter sido feita, à época, com os valores reais.

(Publicado na “Folha de S.Paulo” de 10/07/2008)

Por Juca Kfouri às 01h27

19/01/2010

Parmalat X Parmalat

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Mas deixa alguns capítulos do livro "Por que não desisto", lançado pela Editora Disal, em 2009, e organizado pelo jornalista Márcio Kroehn, autor dos pequenos comentários (em vermelho) que apresentam os artigos do blogueiro.

Parmalat X Parmalat


Palmeiras e Juventude foram os primeiros clubes que receberam o apoio administrativo de uma mesma empresa. Nesse jogo de interesses, os times se enfrentam e surge uma dúvida ética no ar.

Responda rápido: você tem uma empresa que patrocina dois clubes que vão se enfrentar. Um, se vencer, estará classificado para as semifinais do Campeonato Brasileiro, expondo sua marca no momento principal. O outro está apenas fazendo figuração.

Qual seria sua decisão: influencia para que o time que pode se classificar vença ou prefere mostrar que sua empresa é tão ética que não haverá influência nenhuma?

Qualquer que seja a sua resposta – e 99% da humanidade, infelizmente, ficaria com a primeira opção –, o jogo de hoje em Caxias do Sul (RS), entre Palmeiras e Juventude, não lançará um novo produto Parmalat no mercado, a marmelada.

É óbvio que a CBF devia ter atendido aos apelos que surgiram tão logo a tabela foi anunciada e mudado o jogo para uma data menos delicada.

Mas imaginar a CBF preocupada com a ética é exagerar do direito de ser ingênuo.

Seja como for, a possibilidade da marmelada não existe, por mais que todas as condições estejam dadas. O Juventude tem como técnico alguém como Émerson Leão, figura histórica da vida palmeirense. Tem diversos jogadores que estavam no Parque Antártica até outro dia mesmo. Tem a Parmalat.

Só que esses mesmos elementos garantem a lisura do jogo. Ou você acha que Leão se prestaria a tal serviço sabendo que, além de estar cometendo um crime que seu passado não autoriza, imediatamente fecharia as portas do Palmeiras para ele? Ou você contrataria para trabalhar na sua empresa alguém capaz de tamanha desonestidade?

E quem teria coragem de propor isso a Leão, que ele orientasse seus jogadores para amolecer? Mais: esses jogadores têm uma chance enorme de provar seu valor e de, quem sabe, ganhar uma nova chance no Palmeiras.

De mais a mais, certo tipo de falcatrua, que envolva muita gente, sempre acaba aparecendo. Alguém com a língua nos dentes, por vingança ou por qualquer outro motivo.

Foi assim, por exemplo, quando se desconfiou que o Peru entregara o jogo para a Argentina na Copa do Mundo de 1978. Demorou, mas apareceram os depoimentos de peruanos contando a patifaria. Acabou de acontecer no futebol francês, com amargas conseqüências para o Olympique de Marselha.

E se você está surpreso porque supunha que aqui encontraria exatamente o raciocínio inverso, fique tranqüilo: as grandes trapaças do futebol são feitas com mais sutileza, não são tão óbvias. Mesmo que sua empresa desejasse.

(Publicado na “Folha de S.Paulo” de 08/10/1995)

Por Juca Kfouri às 00h30

18/01/2010

Por que acabaram os líderes?

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Por que acabaram os líderes?


São poucos os jogadores que tem voz ativa para comandar seus companheiros dentro de campo. O capitão, muitas vezes, nem líder de seu grupo é. Essa mudança pôde ser vista em maio de 2001, quando o meia Ricardinho e o goleiro Maurício, do Corinthians, utilizaram um ponto eletrônico para ouvir as instruções do técnico Vanderlei Luxemburgo.

É uma tese dessas boas para discutir nos botecos da vida: será que há alguma relação entre a criação da área para os técnicos se movimentarem durante os jogos fora do campo e o fim dos líderes dentro do campo?

Será que acabou o tempo dos líderes e vivemos a era dos treinadores no papel de comandantes até durante os jogos? Os xerifes acabaram?
Quem é o líder do Flamengo? E do Corinthians? E do São Paulo, Palmeiras, Vasco?

A seleção de 1958 nunca foi chamada de a seleção do Feola, como a de 1962 não foi apelidada de a seleção do Aimoré nem a de 1970 era a do Zagallo, embora os três sejam reconhecidos pelo papel que tiveram como treinadores.

É verdade que em 1994 ainda não havia a área dos técnicos e a seleção do tetra era também a seleção do Parreira.

Mas, lembramos, era ainda a seleção do Romário e do Dunga.

Já a de 1998 era só de Zagallo, como depois passou a ser do Luxemburgo, do Leão, do Felipão etc. E isso é bom?

Parece que não.

Ao saírem do banco para ficar ao lado do campo, os técnicos está inibindo que as lideranças se exerçam dentro, estão impedindo até que um jogador desobedeça uma ordem ou dê outra, contrária a do treinador.

Pode ser tudo mera imaginação, fruto de um momento específico em que não temos nenhum jogador com personalidade de líder e técnicos muito fortes, não necessariamente castradores.

Mas que a coincidência da falta de líderes com a criação da área dos técnicos existe, existe.

(Publicado no “Lance!” de 07/08/2001)

Por Juca Kfouri às 00h05

17/01/2010

O fim dos déspotas

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O fim dos déspotas

Os técnicos assumiram tal grandiosidade no futebol que são, muitas vezes, considerados mais importantes que os atletas. E tomam para si a responsabilidade para montar a comissão técnica com seus nomes de confiança. Porém, qual é a possibilidade de um trabalho se tornar vencedor apenas com os melhores para cada quadro?

Calma, calma. A ditadura militar acabou já faz algum tempo. Tem até gente que nem acredita que vivemos sob tutela.

Ditaduras outras também estão com seus dias contados.

No trabalho, por exemplo. Vivemos o tempo do trabalho coletivo, da democratização das decisões, da participação, da horizontalização.

Há quem jure que o tempo dos déspotas esclarecidos está chegando ao fim. Tomara.

Quando e se, de fato, tudo isso tiver acontecido, o técnico de futebol continuará a ser poderoso?

Ele convoca, ele escala, ele indica, ele dispensa, ele faz e desfaz. E ponto.

Não se trata aqui de imputar tais práticas a este ou aquele treinador, a Zagallo ou a Joel Santana, por exemplo, pois a prática é geral e irrestrita no Brasil. E superada.

Parece óbvio que não faz mais sentido a concentração de tanto poder na mão de um homem só, por melhor e mais experiente que ele seja.

Tamanho soberba, para ficar num só caso famoso e emblemático, custou à seleção a ausência de Falcão na Copa de 78, na Argentina.

De lá para cá, porém, nada mudou, ao contrário.

Um técnico de futebol deveria ser escolhido hoje em dia também pela sua capacidade de trabalhar em equipe.

Não cabe a ele escolher o médico, o preparador físico, o treinador de goleiros, o psicólogo. Sua opinião será sempre importante, jamais decisiva.

A freqüência com que se desmontam boas comissões técnicas em função das meras preferências pessoais do treinador é assustadora.

Uma seleção ao ser formada não deve se limitar a escolher os melhores do país – e para que isso aconteça será mais seguro levar em consideração mais que uma única opinião.

Deverá ter também o melhor médico, o melhor preparador físico, o melhor treinador de goleiros, o melhor psicólogo, desde que todos sejam capazes de trabalhar em equipe, qualidade que passa a ser importante na escolha da comissão técnica.

E que não se veja nisso nenhuma tendência democratista, do tipo o povo é que deve escalar a seleção – embora, em geral, o faça com encantadora sabedoria.

Mas não é claro, ao menos, que o melhor treinador de goleiros tem mais condição de dizer quem deve ser o titular da camisa 1?

Quem ouve, debate e delega produz resultados superiores aos que impõem.

(Publicado na “Folha de S.Paulo” de 14/09/1997)

Por Juca Kfouri às 01h11

Sobre o autor

Formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999. Atualmente está também na ESPN-Brasil. Colunista de futebol de "O Globo" entre 1989 e 1991 e apresentador, desde 2000, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha.

Histórico