Blog do Juca Kfouri

Tabelinha com Juca

Segundas-feiras, às 15h

30/01/2010

A Copa do Mundo no Brasil

O blogueiro está em férias.

Volta no dia 3 de fevereiro.


Mas deixa alguns capítulos do livro "Por que não desisto", lançado pela Editora Disal, em 2009, e organizado pelo jornalista Márcio Kroehn, autor dos pequenos comentários (em vermelho) que apresentam os artigos do blogueiro.

A Copa do Mundo no Brasil

Desde a derrota para o Uruguai no Maracanã, na Copa de 1950, existe o desejo de o país sediar o torneio novamente em casa. Essa possibilidade não parece distante, embora seja necessário cuidar para que o dinheiro público, do contribuinte, não acabe virando cimento e tijolo capazes de levantar mais estádios do que o necessário.

O Brasil tem todas as condições de organizar uma Copa do Mundo.

Desde que o faça com o tamanho das suas pernas, sem querer mostrar que é o que não é. O Brasil não é, por exemplo, a Alemanha nem a França.

E a França só construiu um estádio novo para sediar a Copa de oito poucos anos atrás, justamente o que abrigou a final, em Saint-Denis. Os Estados Unidos nem isso. O país não ergueu nenhum novo estádio em 1994 e usou a infra-estrutura já existente.

Falar em 12 novos estádios por aqui é uma quase ofensa. E dizer que seriam construídos pela iniciativa privada, sem dinheiro público, é uma mentira típica dos cartolas que acenam com uma coisa e depois que não dá certo, fato consumado, candidatura respaldada pelo governo, cobram da viúva para que cumpra o compromisso assumido, em nome da imagem do país no exterior.

Não tem sido outra, por sinal, a operação que cerca o Pan-2007. Em bom, e tosco, português, não podemos comer mortadela e arrotar caviar.

Que o Brasil pode, pode, e nem mesmo o fato de não ser prioridade deve derrubar a possibilidade, porque se o mundo esperasse pelas prioridades, o homem ainda não teria chegado à lua. O que não se pode é produzir mais uma farra do boi com o seu, o meu, o nosso pouco dinheirinho.

E para tanto será essencial que o Comitê Organizador tenha credibilidade, gente séria, o que exclui, por exemplo, 99,9% dos cartolas do futebol - e não me pergunte quem é o 0,1% porque eu, sinceramente, não saberia responder.

Que Pelé seja o número 1 é mais que natural, é quase obrigatório, seria o nome indicado por qualquer um em qualquer esquina neste mundo. Só que não por seus atributos gerenciais ou no trato com dinheiro. Apenas pela sua imagem, muito mais forte do que a de Michel Platini (o homem de 1998, na França) ou de Franz Beckenbauer (o da Alemanha, em 2006).

Em torno dele, no entanto, seria preciso ter, apenas como referência, nomes como o de um Antônio Ermírio de Moraes, de um Olavo Setúbal.

Do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, da Conferência Nacional dos Bispos (isso mesmo, até esta benção será necessária), da Associação Brasileira de Imprensa. De políticos com as marcas de Fernando Gabeira, Eduardo Suplicy.

Enfim, divaga-se aqui apenas para se dar uma idéia da blindagem necessária para envolver o Brasil em tal empreitada.

Porque não pode ser uma ação entre amigos, como os primeiros passos já apontam. Tanto que o próprio convite a Pelé foi feito de maneira nebulosa, quase clandestina, ao se ocultar o verdadeiro motivo de sua ida à CBF, como se ele lá fosse para "conhecer as instalações" da entidade.

E encobriu um espúrio acordo judicial em marcha entre ele e, pasme, seu ex-sócio Hélio Viana, a quem acusa de ter sido responsável por formidável desfalque na empresa que tinham. Viana participou da reunião na CBF com Ricardo Teixeira, com quem hoje troca, literalmente, beijos na face quando se cumprimentam, sinal evidente de que seria um dos "parceiros" nesta aventura da Copa do Mundo.

Se Pelé quer mais sarna para se coçar é um problema dele. Mas que não o resolva à nossa custa. Há, de fato, uma série de aspectos positivos em torno da idéia de se organizar um evento de tal magnitude e não podemos matar o sonho na raiz. Ao mesmo tempo em que não podemos fechar os olhos para o que há de negativo em volta do nosso futebol, objeto de CPIs recentes e impune.

Separemos o joio do trigo.

(Publicado na "Folha de S.Paulo" de 02/10/2006)

Por Juca Kfouri às 00h02

29/01/2010

Os limites das Copas do Mundo

O blogueiro está em férias.

Volta no dia 3 de fevereiro.
 
Mas deixa alguns capítulos do livro "Por que não desisto", lançado pela Editora Disal, em 2009, e organizado pelo jornalista Márcio Kroehn, autor dos pequenos comentários (em vermelho) que apresentam os artigos do blogueiro.

Os limites das Copas do Mundo

É difícil convencer um garoto de que o título de uma Copa do Mundo é pouco relevante. O torneio tem uma aura especial e, nesse momento em que grande parte deles acompanha lance a lance os campeonatos internacionais, mostrados ao vivo por canais de televisão abertos e fechados, a diversão para esses jovens é enorme. É quase um torneio de clubes.

Alguma reflexão e muitas leituras sobre o tema (ou seria ao contrário?) permitem um afirmação ousada, quase uma heresia: a Copa do Mundo é muito legal, mas é uma droga.

Ousada, mas não original.

Antonio Carlos Jobim vivia dizendo, quando morava nos Estados Unidos, que "Nova York é muito bom, mas é uma merda. Já o Brasil é uma merda, mas é muito bom".

Igual a Copa do Mundo.

A cada quatro anos curtimos esperá-la e vivê-la, como se fosse o dia do Natal da nossa infância.

Só que não é ou cada vez é menos.

De grande festival de futebol que sempre foi, cada vez mais a Copa do Mundo é um megaevento no qual o futebol é mero detalhe.

Incomparavelmente mais gostoso é o campeonato local, é o jogo do time da gente.

A Copa do Mundo está tão edulcorada que, pela primeira vez na vida, ouvi o hino brasileiro longe do país e não me emocionei.

Nosso time parecia de plástico, a bola parecia de plástico, o gramado parecia de plástico e alguns estádios, de fato, eram de plástico, ou quase. Deslumbrantes, como o de Munique, mas frios, gelados, nada acolhedores, nada calorosos.

E olhe que os alemães fizeram tudo para serem hospitaleiros.

E foram exemplares.

Mas tem alguma coisa fora da ordem nas Copas do Mundo.

Ostentação, novo-riquismo, palco de emergentes, limusines, ternos e gravatas de grife, maus bofes, bochechas vermelhas de calor, não de pudor. E uma torcida esquisita.

Talvez por isso Zinedine Zidane tenha dado uma cabeçada mais que simbólica, menos no peito italiano que o ofendera, mais na hipocrisia disso tudo.

Um basta na artificialidade de um evento que foi celebrado em nome da tolerância racial, mas que não tinha negros como treinadores, exceção feita ao de Angola.

Porque o técnico da Costa do Marfim era um branco francês, o de Gana um branco sérvio e o de Togo um branco alemão.

Árbitros negros, em mais de duas dezenas, apenas dois, um da Jamaica e outro de Benin.

Negro no alto comando da Fifa?

Com visibilidade, nenhum!

A Copa do Mundo não é mais o Santo Graal, que o digam nossos jogadores na Alemanha.

Não se luta mais por ela como se por um prato de comida, porque estão todos bem alimentados, felizmente. Alguns até gordinhos.

Diferentemente de Tostão e igual a Xico Sá, a Copa do Mundo me seduz cada vez menos, pois é cada vez menos um palco da boa competição e cada vez mais um balcão de negócios, nos quais o que vale é vender a próxima atração, porque a em curso já está vendida. E bem.

Daí, por vendida, dane-se o espetáculo, danem-se os atletas em fim de temporada, dane-se o calor terrível, dane-se se os jogos precisarem ser ao meio-dia, como no México e nos Estados Unidos.

Porque sempre haverá uma multidão, não necessariamente de amantes do futebol, mas da festa que se faz em torno dele, para canalizar seus sentimentos nacionalistas em torno de uma Copa.

Eu ainda gosto mais do meu time.

(Publicado na “Folha de S.Paulo” de 24/07/2006)

Por Juca Kfouri às 01h28

28/01/2010

Por que só falamos de futebol

O blogueiro está em férias.

Volta no dia 3 de fevereiro.

Mas deixa alguns capítulos do livro "Por que não desisto", lançado pela Editora Disal, em 2009, e organizado pelo jornalista Márcio Kroehn, autor dos pequenos comentários (em vermelho) que apresentam os artigos do blogueiro.

Por que só falamos de futebol

Essa é daquelas questões para se discutir com os amigos por horas a fio. E dificilmente se chegará a um consenso. Mas vale a pena levar o argumento de quem viveu na pele a tentativa de fazer o interesse de o leitor ser poliesportivo.

Primeiro foi o José Trajano, com a paixão e a generosidade que o caracterizam.

Depois, o José Roberto Torero, sempre criativo e original.

Ambos preocupados em chamar a atenção para os brasileiros que estão no Pan-Americano, os primos pobres do esporte nacional, quase monopolizado pelos jogadores de futebol.

A  verdade é que todos nós damos muito menos importância a nossos atletas olímpicos do que aos boleiros.

Conheço bem essa história – e não é de hoje.

Dezenas de vezes, quando dirigia a revista “Placar”, fui questionado em escolas de jornalismo e de educação física sobre o pouco espaço dedicado aos outros esportes.

Sempre respondi que os outros não vendiam.

Nem mesmo quando houve a célebre explosão do vôlei (um Maracanãzinho lotado equivale a um Maracanã quase vazio – e nenhuma revista de qualquer outro esporte jamais prosperou no Brasil).

Havia reações indignadas até, como se eu fosse um escravo do lucro, um capitalista sem alma.

Então, entre outras coisas, explicava que não era o dono da revista.

Até que um belo dia, em 1984, porque também o desorganizado futebol brasileiro não permitia  uma revista semanal de sucesso, a Abril resolveu apostar numa publicação mais eclética, e criamos “Placar Todos os Esportes”, com equipe de primeira, consultores da melhor qualidade e acabamento refinado.

Era a tentativa de se fazer a famosa, e extremamente bem-sucedida, “Sports Illustrated” no Brasil.

Após o primeiro número, recebi um bilhete entusiasmado de Roberto Civita, o dono da Abril.

“Enfim, virei leitor de Placar. Parabéns!”.

O sinal vermelho havia sido aceso numa semana em que a velha “Placar” tinha vendido menos do que 100 mil exemplares, número mágico.

Pois bem. Quatro ou cinco semanas depois do lançamento da nova fórmula, Civita me telefona para fazer novo elogio, e eu, preocupado, o alerto que as vendas não eram animadoras, que tínhamos vendido apenas 75 mil exemplares na semana anterior. Ouço dele uma previsão tranqüilizadora. “Estamos trocando de público. Não vou me assustar se chegar a cair até uns 35 mil. Depois, vai reagir, porque o caminho está certo, a revista está ótima”.

Pouco tempo depois, já apavorado, encontro o patrão numa solenidade e informo: “Roberto, estamos quase atingindo seu objetivo. Na semana passada, vendemos 40 mil”. Foi o que bastou para, em seguida, “Placar” voltar a ser uma revista basicamente de futebol e resistir ainda mais cinco anos como semanal.

Enfim, a questão é parecida com aquele anúncio de biscoitos: o Brasil é monoesportivo porque a imprensa só fala de futebol ou a imprensa só fala de futebol porque o Brasil é monoesportivo?

Tendo a achar que a segunda hipótese é a correta.

(Publicado na “Folha de S.Paulo” de 30/07/1999)

Por Juca Kfouri às 00h26

27/01/2010

Quero o meu basquete de volta

O blogueiro está em férias.

Mas deixa alguns capítulos do livro "Por que não desisto", lançado pela Editora Disal, em 2009, e organizado pelo jornalista Márcio Kroehn, autor dos pequenos comentários (em vermelho) que apresentam os artigos do blogueiro.

Quero o meu basquete de volta

O basquete já foi o segundo esporte na preferência do brasileiro, mas perdeu espaço para o vôlei nos últimos anos. Enquanto o vôlei se organizou e passou por um processo de modernização, com jogos mais ágeis e dinâmicos, o basquete andou para trás, com campeonatos mal organizados e poucos incentivos para desenvolver o esporte no país.

Não sou saudosista. Meu pai era. Adorava dizer que futebol bom era o dos tempos dele, de Friedenreich, Filó, De Maria, Leônidas da Silva, Fausto. Eu retrucava. Futebol bom é o dos meus tempos, tricampeão mundial, com Nilton Santos, Didi, Pelé, Mané, Tostão, Rivelino, Gérson.

Ele ria e concordava. Até porque eram também os tempos dele. Como são meus os tempos atuais, e de meus filhos, dos Ronaldos, de Romário, Careca, Sócrates, Zico, Falcão, Rivaldo. Sim, nada me divertiu mais que Pelé&Cia, embora eu também me divirta, e muito, com Kaká&Cia, quando jogam bem. Por isso jamais um filho meu ouviu de minha boca a frase que tantas vezes ouvi da boca do velho: "Futebol bom era o do meu tempo".

Infelizmente não posso dizer o mesmo sobre o basquete. Ou melhor, infelizmente tenho de dizer o mesmo sobre o basquete: "Basquete bom era o do meu tempo". E sem a menor dúvida. Tempos de Amaury Pasos (com um "s" só, pelamordedeus), Wlamir Marques, Rosa Branca, Édson Bispo dos Santos, Ubiratã... Tempos em que a seleção brasileira era bicampeã mundial, em 1959/ 63, primeiro no Chile, sem, é verdade, a seleção da União Soviética, e, depois, no Brasil, com todos.

Sim, é verdade também que os EUA jamais mandavam seus melhores jogadores, mas pode-se argumentar que a Inglaterra também nem se fez representar nas Copas do Mundo de futebol em 1930/34/38, certa de sua superioridade, e que, quando se dignou a participar de uma Copa, em 1950, foi eliminada logo de cara, e pelos EUA.

Quando aquela geração acabou era quase impossível manter a qualidade, mas, mesmo assim, os que vieram a seguir não decepcionaram, ao contrário, porque a turma de Marcel&Oscar também era muito boa, para não falar de Hortência&Paula.

Hoje, no masculino, não existe mais nada, nem a bela coluna que Melchiades Filho assinava neste caderno. O basquete perdeu para o vôlei e para a política, literalmente aliás, porque lá foi o Melk dirigir a sucursal em Brasília. Sim, a garotada alta, talentosa com uma bola, não titubeia em optar pelo vôlei e não mais pelo basquete, provavelmente sob os auspícios cúmplices do COB, que também prefere, dadas as origens de seu principal cartola, o vôlei.

E enquanto o vôlei anda cheio de graça, nosso basquete convive com o pior presente de grego que o ex-segundo esporte mais popular do país poderia receber. Magic Paula me contou que dia desses se encontrou com Bernardinho e ele disse que adoraria dirigir o time de basquete masculino do Brasil, porque acha o potencial enorme e o trabalho, malfeito.

Seria mesmo uma dádiva se, ao voltar da China, Bernardinho resolvesse assumir o desafio, com vistas a, enfim, ter basquete masculino brasileiro em Londres, nos Jogos Olímpicos de 2012, porque em Pequim, como em Sydney e Atenas, amargamos o vexame de ver o torneio pela TV. Grego nem liga. Tem certeza de que em 2016, no Rio(?!), seu time será o lanterna, mas estará lá...

(Publicado na “Folha de S.Paulo” de 20/07/2008)

Por Juca Kfouri às 00h01

26/01/2010

O rabo de cavalo e o ninho de rato

O blogueiro está em férias.

Mas deixa alguns capítulos do livro "Por que não desisto", lançado pela Editora Disal, em 2009, e organizado pelo jornalista Márcio Kroehn, autor dos pequenos comentários (em vermelho) que apresentam os artigos do blogueiro.

O rabo de cavalo e o ninho de rato

As medalhas são o alvo de atletas e dirigentes quando o assunto é Olimpíada. Para ultrapassar os EUA no quadro de medalhas como a maior potência olímpica, os chineses investiram cerca de US$ 2 bilhões na formação de seus atletas para os Jogos de Pequim.

Ganhar ou perder faz parte do esporte e dos chavões da vida. Quase redundância. Sem educação, saúde e política esportiva, ganhar é sinônimo de surpresa num país como o Brasil, fora as exceções de praxe.

Perder é a regra e, a rigor, não tem maior importância se houvesse pelo menos um esforço no sentido de pensar o esporte como fator de saúde pública (cada dólar investido no esporte economiza três na saúde pública, segundo a Organização Mundial da Saúde) e de inclusão social.

Mas qual! Verdade que nunca antes neste país se investiu tanto em esporte, mas só no de alto rendimento. Quase R$ 1,2 bilhão no último ciclo olímpico, graças a leis como a Lei Piva e a lei de incentivo ao esporte, além dos diversos convênios com empresas estatais do tipo Banco do Brasil, Correios, Caixa Econômica Federal etc. Dividido por 15 medalhas, o mesmo número ganho em Atlanta, 12 anos atrás, cada medalha custou cerca de R$ 79 milhões, para nem falar que as três de ouro foram menos que as cinco de Atenas.

Porque isso, de fato, é o de menos. Ficar atrás no quadro de medalhas de países ainda piores como Jamaica, Quênia ou Etiópia é tão circunstancial como ficar adiante da Nova Zelândia, da Suécia ou do Chile.

Porque o Brasil não é pior que o trio que o superou nem muito menos melhor do que o que ficou atrás, simplesmente porque os primeiros também têm seus fenômenos e os últimos têm outras prioridades.

Terrível mesmo, além de ver os sucessivos governos brasileiros cúmplices dos cartolas, é pegar um como o sr. Carlos Nuzman em meio às mentiras patéticas que tentou nos enfiar goela abaixo em seu balanço pós-Pequim, quando quis provar que o desempenho brasileiro cresceu.

Só se for como o crescimento de rabo de cavalo. Tudo, é claro, para pedir ainda mais recursos e para incrementar a campanha pelos Jogos Olímpicos no Brasil, em 2016, com a anuência, também, do domado Rei Pelé.

Certo está o jornalista Fernando Victorino, da “ESPN Brasil”, que inspirado no Ninho de Pássaro, de Pequim, propôs um Ninho de Rato para o Rio de Janeiro, para que nossos cartolas não se sintam deslocados, peixes fora d'água. Porque chega a ser acintoso, um deboche mesmo, que Nuzman, desde 1995 na presidência do Comitê Olímpico Brasileiro, nos impinja discurso tão desqualificado, incapaz de buscar soluções, porque as soluções que busca se limitam às que atendam ao seu bem-estar, mordomias e privilégios.

Papagaio de pirata em cada medalha conquistada, Nuzman foi sumindo dia após dia em que os resultados por sorte ou por azar não vinham, porque o acaso não é aliado dos incompetentes, para dizer o mínimo. Como o digníssimo ministro do Esporte, Orlando Silva Jr., que sumiu, qual um avestruz ou como a vara de Fabiana Murer, embora tenha um discurso quase impecável, a léguas de distância da prática, mais para Jadel Gregório do que para Maurren Maggi. E não é que depois de ter tentado vetar a ida da psicóloga do vôlei feminino, Nuzman quer agora que cada delegação leve uma? Mas nem Freud explica este país da rapaziada bronzeada.

(Publicado na “Folha de S.Paulo” de 25/08/2008)

Por Juca Kfouri às 00h26

25/01/2010

Um escândalo chamado Rio-2016

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Um escândalo chamado Rio-2016

O Brasil vai receber sua primeira Olimpíada. Foi a quarta tentativa em menos de duas décadas. A pergunta que fica é se vale a pena gastar tanto dinheiro para concorrer sem, antes, consertar os buracos apontados na primeira candidatura. Eles não seriam uma cratera atualmente?

O anúncio de que o Brasil é novamente candidato a sediar a Olimpíada, agora a de 2016, deveria merecer algum tipo de ação do Ministério Público.

Afinal, ainda pagamos a conta das famigeradas campanhas Brasília-2000, Rio-2004 e Rio-2012. A contabilidade dessas candidaturas nunca fechou. E o Brasil não possui chance alguma de sediar a Olimpíada, porque o Comitê Olímpico Internacional nunca dará a competição a um país instável do ponto de vista do Primeiro Mundo.

É tanto dinheiro envolvido, são tantos os compromissos com os chamados "top sponsors", com as redes de televisão, que o COI não pode correr um risco sequer de que os Jogos Olímpicos não sejam realizados de forma exemplar. As multas contratuais são enormes em caso de descumprimento das cláusulas firmadas entre o COI e os patrocinadores.

O Brasil é um país que oferece risco econômico, que não pode dar garantia de investimentos, uma nação pobre com profundas desigualdades sociais.

Que não atende regras essenciais de respeito ao meio ambiente (fundamental hoje no Movimento Olímpico), haja vista o desmatamento e a poluição dos rios e da própria baía da Guanabara.

Que tem problemas básicos de infra-estrutura, tais como hospitais, saneamento básico, segurança, transporte público. Problemas que não serão resolvidos em apenas uma década.

E é sabido como são feitas as campanhas para que um país sedie os Jogos Olímpicos. A candidatura é fator de promoção pessoal e de evasão de divisas. Porque são várias empresas públicas e privadas que se comprometem em cooperar financeiramente com o projeto e que colocam dinheiro a fundo perdido.

A campanha é feita no exterior, com visitas aos membros do COI, federações internacionais, comitês olímpicos nacionais e outros. Toda a despesa, portanto, é feita além fronteira.

Não há controle rígido dos gastos, e os comprovantes são apresentados como cada um bem entender.

Assim, uma empresa "doa" ao comitê de campanha R$ 1 milhão, por exemplo, mas somente é gasta a metade. A outra metade já sai do caixa da empresa com finalidade dirigida, embora a contabilidade mostre notas no exterior para justificar as despesas havidas.

Outro fato que merece repúdio é a forma ditatorial da escolha, porque, ao menos, poderiam ter feito uma eleição, a exemplo do que ocorre em outros países.

Na Europa, esse processo de escolha é longo e responsável. Votam representantes da sociedade civil, militar, atletas, federações e outros. Na Espanha, então, são mais de cem votos.

E que fique claro: o bairrismo é um sentimento detestável. Não se trata de ser a favor de São Paulo ou do Rio de Janeiro, porque não são apenas as duas cidades, mas é o Brasil que não tem como receber um evento de tal porte.

Não é possível que tudo tenha sido feito dessa forma e ninguém fale nada, que fique por isso mesmo. Não faria muito mais sentido pegar a dinheirama que será gasta nessa patacoada do Rio-2016 e investir no esporte de base? Na criação de centros esportivos para a população pobre, para massificar o esporte, de onde poderão surgir novos talentos a longo prazo?

E o que interessa, aliás, não é formar campeões, mera conseqüência. O que interessa é ter um povo saudável.

Chega de engodos, de candidaturas artificiais para encher os bolsos dos de sempre. O Rio-2016 é um novo escândalo.

(Publicado na “Folha de S.Paulo” de 04/09/2006)

Por Juca Kfouri às 00h45

24/01/2010

Abra as asas sobre nós

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Abra as asas sobre nós


O passe era a propriedade que os clubes tinham sobre o jogador de futebol. Ele acabou em 1995 na Comunidade Européia quando Jean-Marc Bosman venceu uma longa batalha jurídica pelo direito de jogar no time que lhe desse a melhor condição assim que seu contrato chegasse ao final, sem a necessidade de ressarcimento para o antigo time.   

A entrevista do jogador belga Jean-Marc Bosman que a "Folha de S.Paulo" publicou no domingo, 25 de fevereiro de 1996, merece ser copiada pelos sindicatos de atletas brasileiros e distribuída a todos os seus filiados.

Trata-se de uma aula de como os métodos da cartolagem são semelhantes pelo mundo afora e de como o futebol pode ser modernizado.

Entidades que se julgam acima das leis, tentativas para comprar a consciência de quem luta pelos seus direitos e contra as injustiças, pressões as mais variadas e uma visão correta sobre o que é o futebol hoje em dia e sobre o seu futuro, tudo isso está contido na lúcida entrevista de Bosman.

Ele se queixa da falta de solidariedade de seus companheiros no início do processo, seis anos atrás.

Ele mostra que os grandes clubes europeus poderão começar a enfrentar as entidades dirigentes e que no mundo da rentabilidade não há mais espaço para o paternalismo.

E ele propõe até a criação da formação de um fundo financiado pelos clubes para a formação de atletas, agora livres para trabalhar onde quiserem no continente europeu.

Talvez nem seja necessário montar tal fundo.

No mundo do trabalho as empresas investem em formação e treinamento de mão-de-obra porque sabem que o retorno é garantido, embora o procedimento não garanta a permanência do empregado na empresa.

A discussão já chegou ao Brasil. Há quem ache, por exemplo, que a falta de limite para a concentração de jogadores estrangeiros pode acarretar a descaracterização do futebol brasileiro.

“O Campeonato Italiano era o melhor do mundo porque repleto de estrangeiros e a seleção italiana não ganhava nada”, argumenta o presidente da CBF.

Sobre passe livre, então, nem pensar.

Mas não é assim. Em primeiro lugar, porque a Itália que não ganhava nada foi campeã mundial em 1982, terceira em 1990 e vice-campeã em 1994.

Além do mais, mesmo que fosse verdade, certamente o torcedor prefere ver um campeonato nacional forte e cheio de atrações anualmente a ver sua seleção campeã a cada quatro anos.

O clube do coração é uma opção de cada um, uma escolha, diferentemente do país em que nascemos.

Antes de se dizer brasileiro, o torcedor rubro-negro diz, com orgulho, que é Flamengo – e aí não está nenhum sinal de falta de patriotismo ou coisa que o valha.

Quanto ao passe, só mesmo uma mentalidade escravagista pode achar razões para defender sua manutenção.

A União Européia de Futebol, a mais avançada de todas as entidades dirigentes, veja bem, a UEFA que briga hoje contra o autoritarismo da Fifa, passou anos acima das leis da União Européia, tentou comprar o silêncio de Bosman e agora teve de se curvar.

Esperar que os nossos cartolas tenham a sensibilidade de não brigar com os fatos é ingenuidade.

Mas que as asas da liberdade abrirão suas asas sobre nós parece inexorável.

Geraldo Vandré já ensinou que quem sabe faz a hora, não espera acontecer.

(Publicado na “Folha de S.Paulo” de 27/02/1996)

Por Juca Kfouri às 00h34

Sobre o autor

Formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999. Atualmente está também na ESPN-Brasil. Colunista de futebol de "O Globo" entre 1989 e 1991 e apresentador, desde 2000, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha.

Histórico